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02/Jul/2024

Pequenas cidades agem contra mudanças climáticas

Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, é terra do cangaceiro Lampião e considerada a capital do xaxado, mas quer ficar conhecida por outro motivo: os esforços contra o aquecimento global. A cidade, de 90 mil moradores, foi a primeira brasileira de porte médio a assinar o Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e a Energia. O exemplo mostra que não são somente os grandes centros urbanos que precisam agir e inspira mais municípios de porte menor a buscarem medidas para reduzir a poluição atmosférica. De acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, 88% das emissões dos municípios do País ocorrem em locais com até 100 mil habitantes (grande parte pelo desmatamento). Os efeitos da crise climática já são visíveis. Segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Pernambuco, a seca prolongada reduziu as terras destinadas à lavoura e à pastagem de gado e cavalos, levando à transição para rebanhos mais resistentes à caatinga, como bodes e carneiros.

Entre 2008 e 2018, com chuvas abaixo da média, Serra Talhada viu o setor agropecuário recuar 6,8% nesse período. Além da pecuária, a renda local vem da produção de mel e da agricultura familiar. O primeiro passo adotado pela cidade foi um inventário das emissões de gases de efeito estufa, segundo o qual o setor de transportes é responsável por 58% e o de energia, por 32%. Foram criadas ciclovias e o parque de iluminação pública foi modernizado. Houve também a abertura de novos espaços públicos verdes, como praças e parques urbanos. Além disso, há o incentivo aos cidadãos com desconto no IPTU de 50% para quem utiliza energia solar ou para quem planta uma árvore em sua residência. O inventário de emissões de gases de efeito estufa embasou a criação da Comissão Municipal pela Ação Climática de Serra Talhada, permitindo estabelecer metas e objetivos de mitigação, mas também de adaptação, segundo o Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e a Energia.

O pacto é um movimento voluntário de prefeitos de mais de 13 mil cidades, que se comprometem a promover políticas públicas voltadas à adaptação climática. As ações de enfrentamento à estiagem contaram com a formação dos moradores das zonas rurais de Serra Talhada para uma Brigada de Primeira Resposta a incêndios, também causados pela seca intensa. A arborização também foi ampliada, dialogando com as estratégias de soluções baseadas na natureza (SbN). A partir do projeto Arboriza Serra, praças, escolas, prédios públicos e locais ociosos foram contemplados com o plantio de espécies nativas da caatinga, como ipê-rosa, pau-ferro, pau-d’arco e canafístula. Somente com a adaptação em iluminação natural e o aproveitamento do sol sertanejo, Serra Talhada economizou 345 MWh em energia e reduziu mais de 156 toneladas de CO2 no setor. De acordo com a Associação Brasileira de Municípios, os gastos com iluminação pública consumiam entre 3% e 6% do orçamento municipal.

As lâmpadas convencionais foram trocadas pelas de LED e o centro administrativo foi transferido para um novo espaço, com maior circulação natural de vento, o que reduziu custos com refrigeração. Serra Talhada inspirou outros 15 pequenos municípios em todas as regiões do Brasil, todos signatários do pacto global, a partir de um protocolo compartilhado com mais de 11 mil cidades signatárias em 142 países. Uma das cidades signatárias é Cordeirópolis, em São Paulo, a 160 Km da capital e localizada em um dos maiores polos cerâmicos do Brasil. O município é afetado pela alta emissão de poluentes com o trânsito diário de veículos que passam por algumas das principais rodovias do Estado, a Washington Luís, a Bandeirantes e a Anhanguera, que cortam a área da cidade, além de uma ferrovia. Tomando como referência o Plano Climático de Serra Talhada foi identificado que 60% das emissões na cidade são decorrentes do consumo de combustíveis (transporte); 26% do setor energético e 14% em resíduos.

A cidade tem 25 mil habitantes. A localização do município em cabeceiras de bacias hidrográficas e o mapeamento dos impactos das mudanças climáticas nas principais fontes de renda local, que decorrem da indústria, do comércio e de transportes, levaram à adesão ao Pacto Global de Prefeitos. O plano climático local deve ser lançado neste ano. Foram plantadas mais de 130 mil árvores nativas no entorno das nascentes de Cordeirópolis; foi construída uma nova represa de abastecimento; e houve perfuração de poços artesianos. Para as escolas, o município também levantou um aporte de mais de R$ 1,5 milhão para implementação de energia solar. Segundo a prefeitura, ações de educação ambiental contínua nas escolas também já estão em execução.

As outras cidades de pequeno e médio porte que aderiram ao pacto são: Abaetetuba, Barcarena e Parauapebas, no Pará; Brasileia, no Acre; Cáceres, em Mato Grosso; Cariranhanha, na Bahia; Formoso do Araguaia, em Tocantins; Francisco Morato, em São Paulo; Indiaroba e São Cristóvão, no Sergipe; Jandaíra, no Rio Grande do Norte; Niterói, no Rio de Janeiro; Sirinhaém, em Pernambuco; e Sobral, no Ceará. As prefeituras contam com o suporte técnico das equipes de Serra Talhada para o inventário de gases de efeito estufa e para criar planos de ação climática. Toda essa assistência técnica foi feita de forma gratuita. Nesta rede, o objetivo é compartilhar ações direcionadas a cada município, mas também manter uma rede cooperativa nacional. O suporte técnico também forma gestores e cidadãos locais quanto a cálculos, as ferramentas e o traçado de metas. O movimento de prefeitos brasileiros pelo clima tem a cooperação da Associação Brasileira de Municípios, do Instituto Alziras, da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos e do ICLEI Brasil. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.