21/Oct/2024
Empresas e produtores do agronegócio brasileiro estão renegociando cerca de R$ 90 bilhões em dívidas, em um momento em que os juros altos afetam as companhias, já pressionadas por problemas climáticos, aumento de custos e queda dos preços das commodities. O crescimento das dívidas elevou o número de pedidos de recuperação judicial no setor, que está em nível recorde e, mais recentemente, envolveu em particular as revendedoras de insumos. Levantamento da consultoria Virtus levou em consideração o nível de alavancagem das empresas do agronegócio listadas na B3. A conclusão foi de que, nesse grupo, há R$ 12 bilhões em processo de renegociação no curto e médio prazos, o que corresponde a 6% do volume total dos débitos das empresas do setor que estão na bolsa. Em um outro grupo, de empresas não listadas, tendo como métrica a participação do setor no produto Interno Bruto Brasileiro (PIB), e produtores rurais, as dívidas em renegociação estão entre R$ 70 e R$ 80 bilhões.
Mais da metade dos integrantes desse grupo têm vencimentos no curto prazo, ou seja, em até um ano. Assim, somando as duas cifras, a projeção é de que até R$ 90 bilhões estejam em processos de renegociação. Dentre os casos de empresas que estão em renegociação figura a varejista de insumos agrícolas AgroGalaxy, que tem dívidas de R$ 4,6 bilhões no processo de recuperação judicial. O Grupo Patense, de Patos de Minas (MG), que pediu proteção à Justiça neste ano, tem vencimentos de mais de R$ 2 bilhões. O Grupo Safras, de grãos, também tem conversado com credores para alongar seus vencimentos. A busca por assessoria tem crescido entre as empresas do agro e casos de reestruturações formais de médio e grande portes ainda vão aparecer ao longo dos próximos meses. O agro ficou mais alavancado depois que, com o último boom do setor, entre 2020 e 2022, muitas empresas partiram para estratégias de consolidação por meio de fusões e aquisições.
No entanto, com a queda do valor de muitas commodities e o aumento dos custos, o cenário é de descompasso entre a geração de receita e o fluxo de pagamentos das dívidas. Situação mais sensível é a de empresas e produtores que, sem fôlego para lidar com o serviço da dívida, precisam de carência no pagamento de juros e principal por um período para equilibrar o fluxo de caixa. Para esses casos, alguns bancos que têm recebíveis dados em garantia para empréstimos, nas chamadas travas bancárias, estão liquidando as operações, levando essas empresas a pedirem recuperação judicial. Nas novas operações de crédito, os credores (tanto bancos quanto gestoras) têm buscado, como garantia para suas operações com o setor, terras que não são utilizadas na produção, visto que a Justiça tem entendido que terrenos produtivos são bens essenciais ao negócio. A Makalu, que tem trabalhado em casos de reestruturação no setor, afirma não enxergar uma crise sistêmica no agro, mas há cautela com a situação das revendas.
Algumas empresas do segmento ajustando suas operações, muitas até mesmo com venda de ativos, de forma a ajustarem a geração de caixa ao fluxo de pagamentos. Em revendas, além da AgroGalaxy, o Grupo Portal Agro, de Paragominas (PA), também recorreu à Justiça para se proteger de execuções. Outro ponto é que os credores financeiros estão mais proativos, sentando-se à mesa com as companhias para renegociar vencimentos quando identificam que podem surgir problemas à frente. Os bancos credores amadureceram muito no Brasil e já se antecipam ao problema. Para tentar resolver, estão alongando prazos, de forma a se evitar a recuperação judicial. A situação mais crítica do setor já passou, e o cenário deverá estar mais normalizado em 2025. A BR Partners aponta que a situação delicada das revendas é um efeito direto do número de pedidos de recuperação judicial dos produtores rurais.
Para que a crise não cresça ainda mais, afetando até mesmo o andamento da safra, será preciso enfrentar o problema, incluindo uma participação mais construtiva das conversas dos próprios credores. Virou um ciclo vicioso. É preciso alinhar a cadeia. Com muitas empresas do setor sem crédito, pode ocorrer também uma onda de consolidação. A solução precisa conter uma política pública para o setor, incluindo o fomento de seguro em todas as regiões em que o agronegócio está presente. A Excellance também aponta que, sem crédito ao setor, os problemas tendem a crescer. Assim, a situação do agro ainda longe de melhorar e, no momento, muitos produtores estão com dificuldade para acessar linhas de crédito para financiar a próxima safra. O crédito está mais restrito, e o agro precisa de crédito. Outra dificuldade é que, para alongar prazos, muitas vezes os credores financeiros exigem aportes por parte do controlador no negócio e, no agro, muitas vezes o produtor está descapitalizado. Fonte: Globo Rural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.