07/Aug/2025
Ao lado de pesquisadores do Kiel Institute for the World Economy, Emanuel Ornelas, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), defende que os países não deveriam buscar uma negociação isolada com os Estados Unidos. A melhor estratégia, diz ele, seria buscar uma retaliação unificada, seguindo as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Hoje, as tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já são um "tiro no pé" e devem reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) em 1,2%. Se Brasil, União Europeia, Canadá, México e Coreia do Sul se unirem, esse impacto pode chegar a 1,7%. "O impacto é muito mais forte e, consequentemente, vai gerar pressões internas para que isso acabe." Segue a entrevista:
O sr. e seus colegas defendem uma coalizão formada por União Europeia, Canadá, México, Brasil e Coreia do Sul para negociar e retaliar os EUA. Por quê?
Emanuel Ornelas: O sofrimento que o Brasil poderia causar é muito pequeno. Individualmente, isso é verdade para todos os países, até para a União Europeia. Com esses países fazendo uma retaliação ao mesmo tempo, o impacto é muito mais forte e, consequentemente, vai gerar pressões internas para que isso acabe.
Qual o impacto de o modelo que temos de comércio internacional colapsar?
Emanuel Ornelas: Fica parecendo meio alarmista, mas corremos um risco verdadeiro de voltarmos aos anos 30, quando o mundo era completamente desglobalizado.
E qual seria o impacto de uma retaliação conjunta?
Emanuel Ornelas: Com as tarifas que estão cobrando dos outros países, os EUA já estão dando um tiro no pé. Só colocando tarifa nos outros países, eles perderiam 1,2% no PIB. Se esses países se coordenarem, a gente estima uma perda da ordem de 1,7%.
Essa coalizão seria importante, então, para evitar nova escalada de Trump?
Emanuel Ornelas: Nesses seis meses, em vários momentos em que a questão econômica interna acendeu o sinal amarelo, ele recuou. Recuou lá no 2 de abril. Em vez de implementar imediatamente as tarifas, deu três meses, porque o mercado acionário ficou maluco. Ele, de fato, volta atrás quando sente a pressão muito forte. E, nesse caso, seria uma pressão muito forte.
Os países, negociando isoladamente, podem sofrer uma nova escalada do governo Trump?
Emanuel Ornelas: Na medida em que você mostra a sua fraqueza, você aumenta a vulnerabilidade no futuro. A gente não acha que isso vai parar. Virão ainda novas rodadas de ameaça dos Estados Unidos e tentativas de negociação. Se a gente não fizer a coisa coordenada, vai ser o grandão da turma fazendo bullying com cada menininho menor recorrentemente.
Fonte: Broadcast Agro.