ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

03/Feb/2026

Nova onda protecionista no comércio internacional

O tarifaço implantado em 2025 pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, abriu caminho para uma nova onda protecionista no comércio internacional. O avanço dessas medidas destinadas a privilegiar o mercado doméstico aparece nos dados da Organização Mundial do Comércio (OMC). Entre meados de outubro de 2024 e de outubro de 2025, US$ 2,64 trilhões, ou 11,1% do total das importações mundiais, foram afetados por tarifas e outras medidas comerciais. A cifra supera em mais de quatro vezes a do período imediatamente anterior (US$ 611 bilhões). É, também, a maior em 15 anos para os mesmos meses. E esse quadro tende a se agravar. Segundo a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o ano de 2026 começa sob o signo do tarifaço. A onda protecionista tem provocado reações. O Brasil, por exemplo, buscou novos mercados para seus produtos e conseguiu fechar 2025 com exportações recordes.

Também o recente acordo fechado entre União Europeia e Mercosul, depois de mais de duas décadas de negociação, teria sido destravado pelo tarifaço de Trump, dizem analistas. Depois que os Estados Unidos colocaram em prática ao longo do ano passado o tarifaço anunciado em 2 abril de 2025, batizado como “Liberation Day” (Dia da Libertação), que estabeleceu tarifa global “recíproca” de pelo menos 10% sobre as exportações para os Estados Unidos, as peças começaram a se mover no xadrez do comércio internacional. Além das chamadas tarifas recíprocas, mais altas para alguns países, o governo Trump estipulou taxações adicionais punitivas para parceiros comerciais específicos. Os produtos exportados pela China para os Estados Unidos chegaram a ser taxados em 125%; os do Canadá, em 35%; os da União Europeia, em 30%; e os do Brasil, em até 50% (10% da tarifa recíproca, de abril, e 40% da tarifa adicional punitiva, em julho).

No caso brasileiro, no início de novembro, após negociações presenciais entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, os Estados Unidos aliviaram o tarifaço, ao ampliar a lista de exceções à tarifa adicional de 40%. No início de dezembro, o Congresso mexicano aprovou aumento de pelo menos 35% nas tarifas de importação de 1,4 mil produtos de 12 países com os quais não possui acordos comerciais, entre eles Brasil e China, a principal afetada. A taxação, em vigor desde 1º de janeiro, atinge produtos industrializados dos setores automotivo, têxtil, de vestuário, plásticos, eletrodomésticos e calçados. Também no primeiro dia deste ano, a China começou a aplicar sobretaxa de 55% às importações de carne bovina brasileira que excederem a cota de 1,106 milhão de toneladas. Ainda na primeira semana de janeiro, a França suspendeu temporariamente as importações de produtos agrícolas, sobretudo da América do Sul, que são pulverizados com defensivos, cujo uso é proibido em países da União Europeia, uma barreira não tarifária.

Para a AEB, o tarifaço começa a se consolidar no mundo todo, com cada país se achando no direito de adotar uma tarifa para compensar a eventual taxação de outra nação. Até agora, eram só os Estados Unidos que tinham adotado sobretaxas contra o Brasil. Mas México, China e França engrossaram a lista. Esses movimentos protecionistas desenham um cenário perigoso, fazendo com que o mundo se consolide de forma desequilibrada, revelando a falta que faz a atuação de um órgão regulador, já que a atuação da OMC foi esvaziada. Isso é ruim, pois, quando não há regulação no mercado, cada um faz o que quer e o país mais forte acaba vencendo. O grupo de logística AGL Cargo também considera que o mundo tem ficado mais protecionista. O Brasil já é bastante protecionista. Portanto, elevar ainda mais as tarifas não seria o melhor caminho nesse cenário. A saída adotada pelo País para reverter os efeitos da intensificação desse movimento tem sido tentar ampliar a presença em mercados alternativos ou tradicionais, especialmente para os produtos do agronegócio.

Mesmo com o tarifaço, as vendas externas do Brasil atingiram US$ 348,7 bilhões no ano passado, um nível recorde. Em 2025, a participação da China na balança brasileira, por exemplo, que tinha sido de 28% nas vendas externas em 2024, subiu para 28,7%. No caso da Argentina, a fatia era de 4,1% em 2024 e chegou a 5,2% em 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A participação norte-americana, por outro lado, recuou, de 12% para 10,8%. Investir em acordos comerciais também é um caminho para neutralizar efeitos do protecionismo. A Ningbo Br Goods, empresa que produz na China e exporta para 30 países, diz que, pela conjuntura atual, de globalização, dificilmente os países conseguem viver sem dependência um do outro. Os blocos estão cada vez mais tentando se fortalecer para ter mais poder de barganha nas negociações. A formação de acordos entre blocos comerciais, como o que acaba de ser fechado entre União Europeia e Mercosul, foi destravado exatamente por conta dessa onda protecionista.

A corrida dos países para proteger os mercados domésticos e a indústria nacional de produtos importados traz um saldo negativo para o consumidor, que acaba tendo de gastar mais pela compra do item por causa da taxação adicional. O consumidor acaba pagando sempre a conta com mais inflação. O protecionismo tarifário, que é convertido em mais imposto, aumenta o preço final do produto. No caso do protecionismo não tarifário, o consumidor também acaba prejudicado, porque ele fica com acesso limitado a itens mais tecnológicos, por exemplo. Mas, há limites nesse movimento. O freio da onda protecionista está na inflação que as tarifas provocam. O mercado norte-americano é um exemplo. Os Estados Unidos taxaram muitos produtos, e isso começou a ter impacto nos preços ao consumidor e na inflação. E, por conta desses sinais, os Estados Unidos voltaram atrás e alguns itens deixaram de ser sobretaxados. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.