23/Feb/2026
O consumidor norte-americano ainda vai sentir o peso das tarifas impostas ao mundo pela administração de Donald Trump. Essa é a avaliação de Jean-Christophe Caffet, economista-chefe da Coface. Segundo ele, apenas uma parte do custo do tarifaço foi repassada até agora, e a conta tem sido majoritariamente absorvida pelas empresas. A experiência histórica, porém, mostra que esse tipo de encargo costuma chegar integralmente ao bolso das famílias e que o impacto ainda está por vir. Caffet reforçou o cenário de que a economia seguirá resiliente em 2026, mantendo um crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) superior a 2,5%, apesar das crescentes perturbações geopolíticas.
Ainda que não haja qualquer sinal de freada abrupta na economia global, esse crescimento segue abaixo do potencial, de acordo com Caffet. Ele menciona que questões como a reconfiguração de cadeias, o envelhecimento populacional e os investimentos exigidos pela transição energética têm refletido em um mundo menos eficiente e com custos maiores. Ainda assim, há vetores de otimismo, e Caffet se mostra entusiasmado com o avanço da Inteligência Artificial (IA), especialmente pelo impacto já visível na economia dos Estados Unidos. Ele ressalta, contudo, que é cedo para afirmar que a IA elevará de forma consistente o PIB global e esse otimismo, por ora, é "uma intuição que precisa ser confirmada por fatos". Segue a entrevista:
A Coface projeta pouca desaceleração no ritmo do crescimento econômico global neste ano (de 2,8% para 2,6%). Mas, ainda assim, o PIB mundial tem crescido abaixo do potencial, certo?
Jean-Christophe Caffet: Sim, é um crescimento abaixo do potencial.
Por quanto tempo essa situação deve durar e por que isso acontece?
Jean-Christophe Caffet: Acredito que o crescimento potencial do PIB vem diminuindo nos últimos anos por causa de todos os choques que atravessamos e do mundo em transformação em que vivemos. Refiro-me à "reglobalização", não à desglobalização. A "reglobalização" implica menores ganhos de eficiência e custos mais altos. O envelhecimento da população, a transição energética - ao menos onde ela está ocorrendo, também sugerem que devemos ter à frente um crescimento do PIB mais baixo e custos mais elevados. Não é uma estagflação, como a dos anos 1970 e 1980, mas é um crescimento do PIB menor com uma dinâmica de preços mais elevada.
Durante o seminário da Coface, um dos pontos mais abordados foi o crescimento do investimento em Inteligência Artificial. A IA pode recolocar o crescimento global de volta ao potencial?
Jean-Christophe Caffet: Eu acredito que sim, mas isso precisa se concretizar. É uma intuição que ainda precisa ser confirmada pelos fatos. Ainda é uma história em desenvolvimento. No caso da IA, certamente ela sustentou o crescimento do PIB nos Estados Unidos. Apenas os investimentos diretos em IA nos EUA responderam por quase um quinto do crescimento do PIB americano no ano passado. Quando se soma a isso os investimentos em rede elétrica e infraestrutura associada à IA e os efeitos na riqueza por conta da grande elevação das ações ligadas à IA na bolsa americana, é uma parte ainda mais significativa de todo o crescimento do PIB nos EUA. Não vemos o mesmo na Europa, nem em outras partes do mundo, por enquanto. No fim das contas, quando, e se, a IA cumprir suas promessas, teremos um impulso no PIB e na produtividade. Isso deve ajudar o crescimento a convergir gradualmente para os níveis anteriores. Mas, neste momento, ainda é cedo para avaliar.
Alguns economistas alertam para uma possível bolha da IA. Qual a avaliação do senhor?
Jean-Christophe Caffet: É muito difícil avaliar se é uma bolha ou não. Quando se observam os números das grandes empresas de tecnologia, a maioria é altamente lucrativa. No caso de empresas como Meta e Apple, por exemplo, os lucros são enormes. Então é difícil dizer que há uma bolha com base nas métricas tradicionais de valuation. Mas há partes do mercado onde existem excessos de valorização, especialmente em empresas que não entregam o que prometem, que não têm lucro operacional e que, em alguns casos, estão cada vez mais endividadas. Existem dúvidas, sobretudo se elas desenvolvem soluções de IA que, no fim das contas, serão ou não as vencedoras em relação a outras soluções. Portanto, pode haver alguns nichos do mercado que se tornem altamente vulneráveis no futuro próximo.
E o impacto da IA sobre os empregos?
Jean-Christophe Caffet: Eu sou muito otimista com o fato de a IA aumentar a produtividade e o PIB global, de maneira geral. Mas esse otimismo é menor, eu não diria ainda que é um pessimismo, quando falamos sobre o impacto do mercado de trabalho. Porque a IA é claramente uma substituta para muitos postos de trabalho.
Em relação aos EUA, em breve o "Liberation Day" de Donald Trump completará um ano. O impacto das tarifas já foi absorvido ou está por vir?
Jean-Christophe Caffet: Ainda está por vir. Por enquanto, a maior parte do custo das tarifas foi absorvida pelas empresas americanas. Mantemos a mesma avaliação desde a última conferência da Coface, em agosto: o custo tem sido arcado pelos agentes domésticos nos EUA. Mas o repasse aos consumidores, via aumento da inflação, ainda está para acontecer. Tivemos apenas cerca de um terço do efeito de repasse até agora. E sabemos, com base em estudos empíricos do passado, que 100% do custo associado às tarifas costuma ser repassado aos consumidores. Portanto, o consumidor americano deverá sentir esse impacto em algum momento.
Essa incerteza com os EUA levou ao aumento do fluxo de investimentos para países emergentes, como o Brasil. Até quando esse momento positivo para emergentes pode durar?
Jean-Christophe Caffet: Eu diria que há uma desconfiança em relação ao dólar americano, e isso veio para ficar. O dólar deve continuar se depreciando frente às principais moedas, mesmo as mais fracas, como a moeda única europeia, que considero fraca diante dos desenvolvimentos estruturais na Europa. Portanto, espera-se que continue se depreciando também frente ao real brasileiro e às moedas emergentes. É uma boa notícia para os emergentes, sem dúvida, pois representa um afrouxamento das condições financeiras globais, especialmente para países muito endividados em moeda estrangeira - o que não é o caso do Brasil. É sempre mais fácil para o resto do mundo quando o dólar está mais barato, porque isso permite comprar commodities a preços mais baixos.
Recentemente, o Brasil ganhou destaque por retomar as tratativas para a assinatura do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. Mas aqui na França há muita preocupação com o acordo. Essa preocupação dos franceses é justa?
Jean-Christophe Caffet: Os franceses não são muito favoráveis ao liberalismo comercial ou ao liberalismo em geral. Na minha visão, essas preocupações com o acordo não são bem fundamentadas, porque há cláusulas que protegem os agricultores franceses contra o que eles chamam de concorrência desleal, especialmente do Brasil, sobretudo no setor de carnes. É um bom acordo para todas as partes envolvidas: para o Brasil, certamente, para a Europa e até para a França. Apesar das críticas, o acordo deve avançar, especialmente porque há maioria de Estados favoráveis. Claro que as coisas podem mudar da noite para o dia. A Itália, por exemplo, pode mudar de posição. Mas, na situação atual, tudo indica que o acordo seguirá adiante.
Fonte: Broadcast Agro.