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24/Feb/2026

Redução de jornada esbarra na baixa produtividade

A tentativa de mudança da jornada de trabalho no Brasil esbarra em um grande desafio: caso o País queira acabar com o modelo 6x1 (seis dias de trabalho por um de folga) e adotar o 5x2 (cinco dias de trabalho e duas folgas), sem redução salarial, terá de melhorar a produtividade do trabalho. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que o custo da hora de trabalho deve aumentar 7,84% se a jornada for reduzida para 40 horas. Sem melhorar a eficiência, não será possível compensar o aumento do custo do trabalho por hora. Quando se olha o histórico brasileiro, é uma equação que pode ser difícil. A produtividade brasileira cresceu muito pouco nas últimas décadas. O tema da redução de jornada de trabalho é global e, nos locais em que prosperou sem grandes impactos para o dia a dia das empresas, o ganho de produtividade foi peça-chave. A proposta de mexer na jornada de trabalho é uma das bandeiras da campanha de reeleição do presidente Lula e, com a proximidade da eleição, ganhou tração no Congresso.

Para os empresários, há temor de perda de competitividade, pressão sobre margens e incerteza em relação à capacidade de manter o nível de produção. Entidades do setor industrial apontam graves prejuízos à economia se ocorrer alguma alteração na jornada de trabalho e falam em prejuízos bilionários. Por outro lado, alguns analistas defendem a redução da jornada com o argumento de que mais descanso pode melhorar saúde, engajamento e qualificação dos trabalhadores, gerando ganhos indiretos de eficiência. No centro da discussão está a pergunta que vai além da jornada: o País conseguirá transformar menos horas trabalhadas em mais valor produzido? Ao longo das últimas décadas, o Brasil tem tido dificuldade para melhorar a produtividade do trabalhador. Isso não quer dizer que o brasileiro trabalhe poucas horas. O que ocorre é que o trabalhador não conseguiu aumentar o quanto produz de forma significativa, mesmo com todos os avanços tecnológicos.

Segundo levantamento do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, ligado ao Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre), em 1981, o brasileiro produzia R$ 33,20 por hora. Em 2024, mais de 40 anos depois, esse valor cresceu pouco: R$ 42,40 por hora, em valores de 2021. A produtividade brasileira está estagnada desde a década de 80. É difícil acreditar que trabalhando menos horas a produtividade vai aumentar para compensar a redução das horas trabalhadas. Vários fatores explicam o lento crescimento da produtividade no Brasil. Eles passam pela má qualidade da educação, pela insegurança jurídica, por políticas industriais ineficientes, entre outros. Acelerar esse crescimento é importante porque as nações que conseguiram enriquecer foram as que construíram economias mais produtivas. Na era da IA, o desafio é outro: habilidades. É preciso treinar desde o jovem, que está na escola, até o seu pai, hoje empregado, a desenvolver novas habilidades para desempenhar funções cada vez mais digitalizadas.

Se mudar escala de trabalho resolvesse essa questão difícil, todos os países estariam a adotando. O mundo mudou, os problemas e as necessidades mudaram. E mudar a escala não os resolverá. Estudo divulgado este mês pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que o custo da hora de trabalho deve aumentar 7,84% se a jornada for reduzida para 40 horas. Setores como saúde, educação e serviços financeiros já têm pouca prevalência de jornada acima de 40 horas. Já comércio, indústria e agropecuária têm maior participação de trabalhadores que cumprem jornada de 44 horas. Portanto, o aumento no custo da hora de trabalho para esses setores diretamente seria maior. Quando se analisa o peso do trabalho nos custos operacionais das empresas, o impacto estimado é de 1% na indústria e no comércio e pode chegar a 6,6% para o setor de vigilância, segurança e investigação. Já o Insper tem uma visão positiva sobre o debate e entende que o Brasil está preparado para esse processo.

Há condições de reduzir a jornada para 40 horas e, provavelmente, não haverá grandes repercussões sobre o PIB ou desemprego. O País já promoveu uma redução em 1988, quando a Constituição derrubou a jornada de 48 horas semanais para 44 horas e não houve aumento do desemprego. A redução da jornada pode alterar a produtividade de várias maneiras. Os trabalhadores podem ficar mais produtivos por terem mais tempo para o lazer e para conviver com os filhos. Isso pode aumentar a produtividade. Nos últimos anos, vários países reduziram a jornada de trabalho e passaram a discutir menos dias de trabalho. No Reino Unido, ao testar a semana de quatro dias de trabalho, houve queda de 65% no número de dias de licença médica e redução de 57% na probabilidade de o funcionário pedir demissão. À medida que o trabalhador está mais descansado, isso reduz o absenteísmo. Pode ser que haja menor rotatividade e maior engajamento, porque o trabalhador, com mais tempo para o lazer, tende a se sentir mais feliz.

Em Portugal, a jornada de trabalho foi reduzida de 44 horas para 40 horas, em 1996. Depois da mudança, houve um aumento de 9,2% no custo do trabalho por hora, mas também um crescimento de 7,9% na produtividade por hora. Entre os fatores que contribuíram para o aumento da produtividade estão a melhora na qualidade do trabalho, com empregados mais descansados, e o processo de reorganização produtiva das companhias. Segundo o Centro de estudos UECE/REM (unidade de pesquisas econômicas e matemáticas), da Universidade ISEG, em Lisboa, as empresas otimizaram processos e aumentaram a intensidade de capital para manter a viabilidade econômica diante de custos trabalhistas mais elevados. Estudo buscou apurar como a reforma portuguesa impactou o emprego, a produção e a produtividade das empresas.

A redução da jornada deve vir acompanhada de incentivos à modernização tecnológica e à reorganização do trabalho, pois apenas o ganho de eficiência pode sustentar a viabilidade das empresas no longo prazo diante de custos mais altos. O exemplo de Portugal também deixou evidentes outros dois pontos: as vendas recuaram, indicando que as empresas não conseguiram manter o nível de atividade anterior, e houve uma diminuição no ritmo de contratações. A avaliação da redução da jornada em Portugal depende da perspectiva. Se olhar para a eficiência e a produtividade, o balanço é positivo, pois as empresas se tornaram mais produtivas por hora. No entanto, do ponto de vista do emprego e da produção, o estudo identificou efeitos adversos moderados. Em alguns países, como França e Bélgica, houve a redução de encargos sociais cobrados pelo governo para acompanhar a redução da jornada. No Brasil, no entanto, esse caminho parece mais difícil dada a atual restrição fiscal brasileira. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.