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27/Feb/2026

EUA: população têm visão negativa da economia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, buscou, em seu discurso do Estado da União na terça-feira (24/02), convencer os norte-americanos da ideia de uma economia em expansão, com queda de preços e aumento acelerado de empregos. O republicano abriu o discurso afirmando que os Estados Unidos estão vivendo sua “era dourada”. Mas, ele enfrenta um público cético, com uma visão muito mais sombria. Apenas 12 horas antes do discurso de Trump, o The Conference Board, um grupo de pesquisa de negócios, divulgou seu mais recente relatório de confiança do consumidor. Ele mostrou que a confiança geral na economia dos Estados Unidos permanece historicamente baixa e está apenas levemente acima do nível para o qual despencou no auge da recessão causada pela Covid-19. Em fevereiro, o índice subiu para 91,2, um número bem abaixo do pico de quatro anos alcançado em novembro de 2024, de 112,8.

Os norte-americanos continuam desanimados com os preços altos e veem poucas vagas de emprego disponíveis. Outras sondagens apontaram resultados semelhantes: apenas 39% dos norte-americanos aprovam a liderança econômica de Donald Trump, segundo a pesquisa mais recente do Associated Press-NORC Center for Public Affairs Research. E a pesquisa de sentimento do consumidor da Universidade de Michigan permanece em níveis típicos de recessão. Trump tentou superar esse pessimismo apontando dados econômicos que traçam um cenário mais positivo, uma tática que o presidente Joe Biden também tentou, com pouco sucesso. Mas, há discrepâncias entre as afirmações do presidente e a realidade econômica enfrentada por muitos norte-americanos. "A inflação está despencando, as rendas estão subindo rapidamente, a economia vibrante está mais forte do que nunca", disse Trump. Entenda a seguir se a economia dos Estados Unidos está mesmo em sua "era dourada".

1. Economia cresceu, mas lentamente

Para começar, a economia está crescendo, mas está longe de estar "em plena expansão". Ela cresceu 2,2% no ano passado, abaixo dos 2,8% no último ano de Biden e dos 2,9% em 2023. Certamente muitos norte-americanos ficaram profundamente insatisfeitos com os aumentos de preços sob Biden, que levaram a inflação a um pico de 9,1% em 2022, o maior em quatro décadas. Uma economia norte-americana realmente aquecida costuma se parecer mais com o fim da década de 1990, quando o crescimento superou 4% por quatro anos seguidos, ou com os anos 1980, quando ficou em 3,5% ou mais por seis anos consecutivos.

2. Consumidores ainda enfrentam preços altos

A inflação desacelerou no último ano, mas muitos norte-americanos ainda citam os preços elevados nas pesquisas como principal motivo de insatisfação com a economia. Trump observou corretamente que a inflação subjacente, que exclui as categorias voláteis de alimentos e energia, caiu para o menor nível em cinco anos em janeiro. No entanto, outras medidas mostram que a inflação permanece persistentemente elevada: um indicador de preços subjacentes acompanhado de perto pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) estava 3% mais alto em dezembro do que um ano antes, acima da meta de 2% do Fed. Esse indicador dá menos peso aos custos de moradia, que desaceleraram, do que a medida citada por Trump. Quase metade das pessoas que responderam à pesquisa de sentimento do consumidor da Universidade de Michigan em fevereiro mencionou espontaneamente os preços altos corroendo suas finanças pessoais. Trump destacou que o preço dos ovos caiu fortemente em relação ao pico, o que é verdade, mas a maioria dos itens essenciais dos quais os norte-americanos dependem (como alimentos, aluguel e eletricidade) permanece muito mais cara do que há cinco anos. Além disso, os preços de eletricidade subiram mais 6,3% apenas nos últimos 12 meses. As tarifas impostas por Trump também elevaram o custo de muitos itens importados, incluindo móveis, peças automotivas, ferramentas e roupas. E alimentos como carne moída, café e bananas subiram fortemente no último ano. Os preços da carne moída, por exemplo, aumentaram 17%.

3. Contratações quase pararam

Uma das razões para o pessimismo dos consumidores é provavelmente a forte desaceleração nas contratações no ano passado. Os empregadores adicionaram apenas 181 mil empregos em 2025, ou 15 mil por mês, tornando-o o pior ano para crescimento do emprego fora de uma recessão desde 2002. E, apesar da promessa de Trump de revitalizar a indústria norte-americana, as fábricas perderam 108 mil empregos em 2025, além dos 202 mil perdidos nos dois últimos anos do governo Biden. Somente montadoras e fábricas de autopeças cortaram quase 74 mil empregos nos últimos dois anos. As tarifas de Trump são parcialmente responsáveis, pois obrigam muitas fábricas a pagarem mais por matérias-primas e peças importadas. Mas, as altas taxas de juros também prejudicaram os fabricantes nos últimos anos. Além disso, muitos contrataram agressivamente, talvez até demais, em 2021 e 2022, quando a economia dos Estados Unidos se recuperava com força das restrições da pandemia. A automação, estimulada pela pandemia, também significa que muitas fábricas precisam de menos trabalhadores. Por outro lado, as contratações surpreenderam positivamente em janeiro, com 130 mil novos empregos, e as fábricas voltaram a criar vagas pelo primeiro mês em mais de um ano.

4. Benefícios das tarifas permanecem incertos

Donald Trump sugeriu que suas tarifas contribuíram diretamente para um boom econômico nos Estados Unidos, mas é provável que a maioria dos norte-americanos tenha visto poucos benefícios. "Daqui para a frente, fábricas, empregos, investimentos e trilhões e trilhões de dólares continuarão fluindo para os Estados Unidos da América", disse Trump. Em seu discurso, o presidente voltou a apresentar suas tarifas como indolores, insistindo que são pagas por países estrangeiros. Na realidade, elas são pagas por importadores norte-americanos, que muitas vezes tentam repassar o custo aos consumidores por meio de preços mais altos. Empresas estrangeiras podem sofrer perdas se tiverem que reduzir preços para manter vendas nos Estados Unidos. Mas, os preços de importação não caíram significativamente, sugerindo que os exportadores no exterior não estão sentindo tanto impacto. Um estudo da Universidade de Harvard constatou que os consumidores norte-americanos arcaram com 43% dos custos mais altos das tarifas, enquanto as empresas dos Estados Unidos absorveram a maior parte do restante. E, até agora, as amplas taxas de importação impostas por Trump não trouxeram muitos avanços em direção ao seu objetivo de reduzir o grande e antigo déficit comercial dos Estados Unidos (a diferença entre o que o país vende ao exterior e o que compra). O déficit comercial dos Estados Unidos em bens como automóveis e eletrodomésticos, foco das políticas protecionistas de Trump, atingiu um recorde de US$ 1,24 trilhão no ano passado, alta de 2% em relação a 2024. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.