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16/Mar/2026

Entrevista com Marcos Jank – Insper Agro Global

Depois da adaptação de tecnologias para produção no agronegócio para o clima e o solo brasileiros, as principais inovações devem vir de fora do setor. Essa é a visão de Marcos Jank, professor de agronegócios globais no Insper e um dos nomes mais respeitados da área. "Nas primeiras fases do desenvolvimento do agro, isso vinha de dentro do setor, com novas variedades de soja e os novos processos. Daqui para a frente, as maiores inovações vão vir de fora do agro. Será de fora para dentro. Virá de todo esse universo de inteligência artificial, de big data e de nanotecnologia", afirma. Segue a entrevista:

As inovações tecnológicas trouxeram ganhos palpáveis de produtividade ao setor?

Marcos Jank: a produtividade da agricultura brasileira saltou de 2,5% ao ano para 3,2% ao ano nos últimos 25 anos. A dos Estados Unidos, por exemplo, é 1% ao ano, e a média mundial é 1,5%. Estamos crescendo mais que o dobro dos Estados Unidos ou da Europa em produtividade, porque a gente consegue fazer sistemas integrados de produção. Não é mais como nos anos 70, que era basicamente soja ou boi. Começou a surgir então soja, milho, algodão, café, cana de açúcar, celulose, bovinos, suínos, aves, leite, tudo isso integrado ao sistema. Nosso sistema é o mais eficiente do mundo porque ele utiliza muito bem a fotossíntese. O Brasil hoje é o quarto maior produtor mundial e o terceiro maior exportador. Agora, se olharmos só na categoria das commodities, que são esses produtos cotados em bolsa, nós já somos o número um, passamos os Estados Unidos. Então, somos um player realmente global nessa área. Exportamos para 200 países e temos um papel muito importante na segurança alimentar global.

O fato de ser um País tropical forçou o agronegócio a ser inovador?

Marcos Jank: O Brasil avançou com tecnologias próprias. No caso dos trópicos, tivemos de adaptar essas tecnologias. Por isso, foi tão importante a ida de pesquisadores brasileiros aos Estados Unidos e à Europa nos anos 70 para aprender um modelo de produção intensiva. Eles trouxeram para cá o que estava sendo feito nos países temperados e adaptaram aos trópicos de forma muito melhor, porque nós temos mais fotossíntese. Nós temos a obrigação de produzir mais, porque nós temos muito mais sol e temos condições climáticas para plantar o ano inteiro. Tivemos uma integração muito interessante com bioenergia. Nos anos 70, numa crise semelhante ao que estamos vendo no Oriente Médio, decidimos utilizar o etanol na mobilidade no Brasil, e assim surgiu o carro a álcool, que depois virou o carro flex, e surgiu também a mistura de etanol na gasolina.

Falando de inovação e trabalho, há um temor dos trabalhadores em relação à substituição por soluções baseadas em inteligência artificial. No agronegócio, existe esse temor também?

Marcos Jank: A inteligência artificial veio para ficar. As duas coisas que estão mudando muito rapidamente no mundo são a geopolítica e a inteligência artificial. Nos eventos internacionais, essa agenda ganhou espaço enorme, inclusive substituindo até a agenda de sustentabilidade, que são pautas relacionadas. Até porque os Estados Unidos se posicionaram contra o Acordo de Paris. Isso mexe com toda a economia e não é diferente no agro. A inteligência artificial está sendo usada em larga escala na mecanização e na informatização. O agro brasileiro, pela sua característica inovadora, é um usuário de inteligência artificial. Mas o que mais tenho visto nas minhas viagens de campo é falta de mão de obra. Os empresários conseguem contratar pessoas qualificadas para trabalharem no agro. Um dos problemas é do governo: é o nível educacional ainda muito baixo em parte da população, que não consegue operar máquinas e lidar com as novas demandas do setor. Falta tratorista, eletricista e operador de máquina. Outra reclamação é da legislação. Agora, o que está em foco no agro é esse problema do fim da jornada de 6x1. Outra reclamação é que, como uma grande parcela de brasileiros vive de programas assistenciais, tipo o Bolsa Família, é mais difícil contratar no campo. As pessoas têm uma resistência a trabalhar no campo.

Qual deve ser o impacto do acordo Mercosul-UE para o agronegócio brasileiro?

Marcos Jank: O acordo Mercosul-UE é algo que ninguém esperava que fosse sair. Com essa nova geopolítica, na qual a Europa está apertada entre os Estados Unidos e a Rússia, ela precisa de aliados. Tanto que, depois que surgiu essa nova política, ela assinou vários acordos, até com a Índia. Conosco, fez acordos que estavam na gaveta. Infelizmente, não sabemos se o acordo vai ser implementado na sua totalidade, porque ele foi judicializado. Os franceses colocaram o acordo nas cortes da Europa e pode ser que ele não seja plenamente implementado, mas deve ser implementado na área de comércio de bens. Houve uma grande celeuma porque disseram que invadiríamos a Europa. Mas isso é falso. As nossas exportações para a Europa sempre foram regidas por cotas. A Europa hoje representa 15% do que exportamos e a China representa 35%.

Como o agronegócio consegue contornar os desafios trazidos pelas guerras e continuar se mantendo relevante no mercado global?

Marcos Jank: Uma coisa que as pessoas não percebem quando falamos sobre soja ou milho é quanta tecnologia existe nesses produtos. Para chegar numa produção eficiente de soja, de milho, de algodão, de carne bovina, suíno ou ovos, é preciso ter muita tecnologia. Seja em genética, no manejo, na alimentação ou nos fertilizantes e pesticidas. Um tema que vamos tratar no São Paulo Innovation Week é o avanço dessas tecnologias, por exemplo, na agricultura de precisão. Hoje em dia estamos falando de 60% a 70% de redução de uso de pesticidas a partir de aplicação localizada, onde a máquina identifica a praga, doença. Trata-se de uma combinação de produtos químicos e orgânicos, produtos biológicos, por exemplo, na área de controle de pragas.

A parceria comercial do Brasil com a China no agronegócio pode ser um risco diante da guerra tarifária de Trump?

Marcos Jank: Eles estão numa guerra tarifária com a China desde 2017, e não estão conseguindo exportar para a China. Nós roubamos a parcela de mercado dos Estados Unidos em mercados como soja, milho, algodão, carne bovina e carne de aves. Essa não é uma guerra de commodities agrícolas, é uma guerra hegemônica. Os produtores americanos estão furiosos que os Estados Unidos perderam o mercado e o Brasil ganhou. O Trump, por exemplo, iniciou recentemente uma investigação para olhar as relações do Brasil com a China. Ele pode tomar medidas que não sabemos quais serão. Fico mais preocupado com a pressão que os Estados Unidos estão fazendo na China, no Japão, na Coreia do Sul e na Índia.

Uma pergunta sobre futuro: olhando para o fim da década, qual tecnologia emergente que o sr. acredita que pode ser um divisor de águas para o agronegócio, tal qual foi o plantio direto?

Marcos Jank: Hoje temos dois grandes desafios. Um é aumentar a produtividade diminuindo o uso de recursos. Ou seja, produzir mais com menos insumos, como fertilizantes. Essa grande transformação vai acontecer em função de mais tecnologia. Nós vamos ter tecnologias aparecendo em várias áreas. Nós temos as tecnologias de georreferenciamento, de agricultura de precisão, de nanotecnologia, de biotecnologia, de inteligência artificial, de blockchains, de data lakes e de big data. Nas primeiras fases do desenvolvimento do agro, o desenvolvimento vinha de dentro do setor, com novas variedades de soja e os novos processos. Daqui para a frente, as maiores inovações vão vir de fora do agro. Será de fora para dentro. Virá de todo esse universo de inteligência artificial, de big data e de nanotecnologia. Isso é algo que está se consolidando no mundo inteiro.

Fonte: Broadcast Agro.