29/Apr/2026
A sociobiodiversidade brasileira, expressão que articula diversidade biológica e diversidade cultural, tem ganhado centralidade no debate sobre desenvolvimento sustentável. Em um contexto de crise climática e aprofundamento das desigualdades sociais, as cadeias de valor associadas a espécies nativas, como juçara, cambuci, pinhão e macaúba, emergem não apenas como alternativas econômicas, mas como estratégias integradas de conservação ambiental, geração de renda e valorização de conhecimentos tradicionais. Apesar desse reconhecimento crescente, ainda operamos em um cenário de baixa visibilidade econômica dessas cadeias.
Diferentemente das commodities agrícolas consolidadas, os produtos da sociobiodiversidade permanecem, em sua grande maioria, à margem dos sistemas oficiais de informação. Justiça seja feita à iniciativa da Conab, que, desde 2017, iniciou a divulgação de estatísticas para produtos da sociobiodiversidade, atualmente compreendendo 17 produtos. A despeito dessa iniciativa, ainda há carência de informações consistentes sobre a oferta desses produtos e sua produtividade, de seus custos de produção e/ou de extrativismo, de preços (nos diversos segmentos da cadeia de valor) e das margens de comercialização.
Essa lacuna não é trivial: ela limita a capacidade de produtores tomarem decisões qualificadas, fragiliza a atuação de políticas públicas e reduz a atratividade dessas cadeias para investimentos estruturantes. É justamente nesse ponto que se insere o trabalho do Cepea, da Esalq/USP, em diálogo com instituições públicas do Estado de São Paulo, para a construção conjunta de um sistema de monitoramento econômico das cadeias da sociobiodiversidade, capaz de gerar dados primários, comparáveis e rastreáveis.
Mais do que produzir números, trata-se de tornar essas cadeias “visíveis” do ponto de vista econômico, permitindo analisar sua viabilidade, identificar seus gargalos e suas oportunidades, inclusive para dar subsídios para a política pública não somente no âmbito da política agrícola e ambiental, mas para a promoção de outras atividades econômicas relacionadas, tal como o turismo no meio rural. Essa agenda dialoga diretamente com um movimento mais amplo de fortalecimento da bioeconomia no Brasil. O Estado de São Paulo tem avançado na formulação de políticas públicas voltadas ao uso sustentável da biodiversidade, incorporando instrumentos de fomento, compras públicas e regulação ambiental.
No início de abril, foi lançado o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), com o desafio de posicionar a megabiodiversidade brasileira como vetor de oportunidades econômicas ao integrar inovação, tecnologia e indústria para promover desenvolvimento sustentável e inclusão social. As cadeias da sociobiodiversidade são, por natureza, complexas. Envolvem sistemas produtivos heterogêneos, forte dependência territorial, relações sociais específicas e, muitas vezes, mercados informais. Essa complexidade exige metodologias adaptadas e uma abordagem transdisciplinar, que combine economia aplicada, políticas públicas e conhecimento local. É um desafio técnico, mas também institucional.
O projeto de pesquisa intitulado “Monitoramento Econômico das Cadeias da Sociobioeconomia no Estado de São Paulo: subsídios à análise de políticas públicas” é desenvolvido pela pesquisadora colaboradora Dra. Nina Lys de Abreu Nunes, sob supervisão da Profa. Dra. Sílvia Helena Galvão de Miranda, e está vinculado ao Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), Universidade de São Paulo (USP). Com duração prevista de 12 meses, o projeto tem como objetivo estruturar e analisar dados econômicos relacionados às cadeias da sociobioeconomia no Estado de São Paulo, contribuindo para o aprimoramento de políticas públicas voltadas ao uso sustentável da biodiversidade.
A iniciativa se apoia na expertise institucional da Esalq e dialoga com metodologias consolidadas na área de economia agrícola, com destaque para aquelas desenvolvidas no âmbito do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). O financiamento é realizado por meio de bolsa concedida pela Fealq (Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz), com recursos oriundos do prêmio internacional XPRIZE, conquistado pelo Brazilian Team. O projeto tem início em abril de 2026, no estado de São Paulo, e busca fortalecer a produção de conhecimento aplicado, ampliando a disponibilidade de informações econômicas qualificadas para apoiar a tomada de decisão e a formulação de políticas públicas na área da bioeconomia. Fonte: Nina Lys Nunes e Sílvia Miranda. Cepea.