30/Apr/2026
Se o fenômeno El Niño for mais intenso do que o esperado no segundo semestre, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pode bater 5,5% em 2026, em um cenário mais adverso. Este não deve ser, porém, o cenário mais provável, uma vez que o IPCA fechado do ano deve ficar mais próximo de 5%. A avaliação é do economista sênior da 4intelligence e especialista em inflação, Fabio Romão. Nessa conta, os alimentos já estão sendo penalizados pelos custos indiretos do conflito no Oriente Médio, via encarecimento do frete e aumento dos fertilizantes.
O El Niño no segundo semestre, que ainda carrega indefinições quanto à real intensidade, acentuaria a pressão sobre os alimentos, sobretudo os in natura, segundo o economista. “Além disso, há o ciclo do gado, que pressiona a carne bovina”, acrescenta. Romão ainda chama atenção para a dinâmica dos preços administrados e dos serviços, pressionados pelos efeitos do conflito e pelo mercado de trabalho aquecido, respectivamente. Apesar do cenário desafiador, a leitura é de que o Banco Central deve seguir em uma trajetória de cortes de 0,25% na taxa Selic, levando o juro básico a 13,5% no fim do ano. Segue a entrevista:
No início do ano, o mercado estava com uma leitura benigna para a trajetória da inflação no ano. Mesmo antes do início do conflito no Irã, a impressão era de que, mesmo com a perspectiva benigna, as leituras iniciais do ano vinham surpreendendo para cima. Qual sua avaliação da dinâmica que vimos até agora?
Fabio Romão: Não faz muito tempo que o mercado projetava inflação abaixo de 4% para este ano. O que mudou foi o conflito entre Estados Unidos e Irã. Desde 28 de fevereiro, podemos dizer que um novo cenário se estabeleceu. Esse evento impactou fortemente as expectativas de preços, especialmente de alimentos e transportes. No caso dos transportes, o impacto é evidente, devido ao petróleo, tanto na precificação quanto, em alguns casos, na escassez, como ocorreu com o diesel. Embora o diesel tenha peso direto reduzido no IPCA, seu impacto indireto é significativo, pois influencia a formação de preços de diversos produtos.
E em relação aos alimentos?
Fabio Romão: No caso dos alimentos, anteriormente, boa parte do mercado projetava algo em torno de 3,5% para alimentação no domicílio. Atualmente, nossa projeção para alimentação no domicílio está em 5,4%, um aumento de quase dois pontos porcentuais em um curto período. Este número não é ainda mais elevado porque o câmbio pode ajudar, além da perspectiva de boas safras. É pouco provável repetir o aumento expressivo do ano passado, que esteve muito associado ao câmbio e à safra. Historicamente, a mediana de inflação de alimentos no domicílio entre 2011 e 2025 é de 7,8%, um nível elevado. Esse grupo costuma crescer acima da inflação geral há vários anos.
Já vimos uma alimentação no domicílio pressionada no IPCA-15 de abril e temos a expectativa de risco climático via El Niño no segundo semestre. Qual a expectativa para o cenário à frente? E quais itens merecem maior atenção?
Fabio Romão: De fato, há o risco do El Niño. Parte desse efeito já está incorporado na projeção, mas não totalmente. Dependendo da intensidade, pode adicionar entre 0,7 e 1 ponto porcentual ao IPCA do ano. No cenário mais provável, mantemos projeção de 5%, mas, em um cenário adverso, poderíamos chegar a 5,5%. Além disso, há o ciclo do gado, que pressiona a carne bovina. Isso gera efeito de substituição, elevando a demanda por outras proteínas, como aves, suínos e ovos, o que também pressiona seus preços. Portanto, o principal ponto de atenção são as proteínas e os alimentos in natura, especialmente devido a fatores climáticos.
E quanto ao cenário para os preços administrados para o ano?
Fabio Romão: Os preços administrados, que antes contribuiriam para conter a inflação, agora tendem a ficar próximos ao nível do ano passado. Projetamos 4,97% para este ano, contra 5,29% no ano anterior. A energia dificilmente repetirá a alta de mais de 12% do ano passado, mas ainda assim projetamos cerca de 6,2%, acima do IPCA geral. Assim, o que antes ajudaria a reduzir a inflação, agora tem efeito neutro.
O núcleo de serviços deve seguir em nível elevado no ano?
Fabio Romão: Os serviços continuam pressionados. Mesmo com alguma possibilidade de desaceleração no final do ano, fatores como o mercado de trabalho aquecido sustentam esses reajustes. Por outro lado, o endividamento das famílias pode limitar esse movimento. Ainda assim, tanto os serviços quanto seus núcleos devem permanecer em níveis elevados ao longo do ano, influenciados pelo aumento de custos ao longo da cadeia, como energia, mão de obra e combustíveis.
As expectativas de inflação devem seguir em deterioração? Há risco de uma desancoragem maior?
Fabio Romão: Não acredito em deterioração no mesmo ritmo recente, que foi muito intenso. No entanto, na margem, as expectativas devem continuar subindo. É possível que o IPCA deste ano se aproxime de 5% e, por inércia, isso deve impactar os anos seguintes. Na 4intelligence, revisamos a projeção do IPCA 2026 para 5% e, consequentemente, a de 2027 para 4,2%.
Com esse cenário para a inflação, faz sentido o Banco Central seguir com cortes na Selic?
Fabio Romão: Sim, mas de forma gradual. O nível atual de juros é restritivo, o que permite algum espaço para cortes. Nossa avaliação é de reduções de 0,25% ao longo do ano, com a taxa encerrando em 13,5%.
Fonte: Broadcast Agro.