13/May/2026
Empresas de diferentes setores, da aviação à moda, já começam a sentir os efeitos da escalada da guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro. O aumento do preço do petróleo pressiona os custos de combustíveis, matérias-primas e logística e afeta o planejamento e o caixa das companhias. O barril do Brent (referência mundial) opera acima de US$ 100,00. O cenário lembra os choques observados durante a pandemia de Covid-19, em meio a uma reorganização global de cadeias produtivas, alta da volatilidade e pressão sobre preços ao consumidor.
1. No segmento de calçados, uma comparação com a pandemia
A Vulcabras, Pedro Bartelle, afirma que os efeitos econômicos provocados pelo conflito se assemelham aos causados pela pandemia da Covid-19, sobretudo no início. O setor prevê falta de matéria-prima, o preço do contêiner saltou e os custos subiram: tudo isso começou com um efeito muito parecido com o da pandemia. As reuniões semanais de diretoria na companhia se tornaram mais frequentes agora, de maneira parecida com a época da crise sanitária, quando passaram a ser diárias. Foi preciso rever completamente a estratégia para 2026 diante da disparada nos custos de matérias-primas derivadas do petróleo. A empresa reajustou preços em até 15%, antecipou lançamentos e passou a priorizar produtos de faixa intermediária, apostando em uma migração do consumo para modelos mais baratos em meio ao cenário econômico mais pressionado.
2. No varejo de moda, preocupação com o custo de sintéticos
A pressão sobre derivados do petróleo também chegou ao varejo de moda. A C&A afirmou que a alta do petróleo tem pressionado os custos de materiais sintéticos utilizados pela companhia, como o poliéster. O impacto dos custos mais altos de insumos sintéticos tem sido parcialmente compensado pela valorização do Real frente ao dólar, o que ajuda os produtos importados. Apesar da pressão recente, a companhia mantém conversas positivas com fornecedores e não identifica, por ora, riscos mais relevantes para as margens.
3. Na aviação, disparada do combustível
Se no varejo o impacto aparece nos insumos, no setor aéreo a pressão é ainda mais direta, por causa da disparada do querosene de aviação (QAV). Em abril, a Petrobras reajustou em 55% o preço do combustível, mas permitiu que o percentual fosse dividido em até seis vezes a partir de julho. Neste mês, o reajuste foi de 18%, o que significa R$ 1,00 por litro. A Latam afirmou que o preço do combustível tem avançado acima das cotações do petróleo e atingido níveis inéditos. São preços nunca antes vistos na indústria de aviação para o QAV. A empresa criticou a proposta da Petrobras de parcelamento do aumento do QAV e disse que a medida não reduz os preços e ainda adiciona custo financeiro às companhias. Na Azul, embora a preocupação com o combustível também esteja no radar, a leitura é de que a valorização do Real frente ao dólar ajuda a aliviar parte da pressão. Isso acaba amenizando os impactos para as aéreas, já que grande parte dos custos está atrelada à moeda norte-americana, incluindo o querosene de aviação e dívidas. A companhia avalia cortes pontuais de voos e reajustes tarifários, mas busca preservar a conectividade em regiões estratégicas, priorizando ajustes operacionais em vez da eliminação total de rotas.
4. Desafios na mineração e na siderurgia
Para muitas empresas, além do aumento de custos, as questões macroeconômicas influenciadas pelas incertezas também causam turbulência no planejamento. A Usiminas, por exemplo, avalia o cenário econômico dos próximos trimestres como desafiador. A alta nos preços do petróleo e do gás natural, o avanço da inflação e a redução mais lenta dos juros compõem um ambiente de incerteza na visão da empresa. A companhia acredita ainda que o cenário é agravado pelo risco de disrupção nas cadeias de suprimentos, principalmente no transporte marítimo de mercadorias. A Gerdau afirmou que os principais fornecedores de insumos têm procurado a empresa para renegociar preços, em função dos efeitos da guerra. A pressão de custos será repassada. Há clientes com folga em seus balanços, mostrando margens maiores, o que possibilitaria esses repasses.
5. No varejo alimentar, pressão sobre preços
No varejo alimentar, o impacto já começa a aparecer, sobretudo nos produtos mais perecíveis e dependentes de logística rápida. A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) afirmou que a pressão tem sido mais intensa em frutas, verduras e outros itens frescos. O cenário preocupa. Não há perspectiva de acordo no curto prazo e, mesmo que ocorra, a normalização tende a demorar. A tendência é de que a pressão de custos se estenda para o segundo semestre, especialmente em regiões mais distantes dos centros produtores, onde o frete tem maior peso.
Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.