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16/Jun/2026

Entrevista com Dario Durigan - ministro da Fazenda

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, ao tratar do tema tarifas norte-americanas contra o Brasil, disse que o País não vai ceder. O ministro avaliou que os Estados Unidos têm frentes abertas com muitos países e "não têm pernas" para rodar uma agenda engajada com todos eles. No caso do Brasil, avalia o ministro, o presidente norte-americano, Donald Trump, faz movimentos fortes esperando que o País ceda. "Mas nós não vamos ceder", disse Durigan. De acordo com ele, pode ser que já haja alguma decisão tomada no âmbito da política e que isso incomoda o presidente brasileiro, Luiz Inácio da Silva. Durigan entende que há demandas setoriais legítimas que precisam ser debatidas, mas que, depois da eleição, com uma eventual vitória de Lula, o Brasil terá caminho aberto com os Estados Unidos para acertar a questão tarifária e outros temas. Segue a entrevista:

Na questão das taxas, como está sendo conduzida a negociação com os EUA? A impressão é de que já há uma decisão tomada.

Dario Durigan: Pode ser que tenha uma decisão tomada na política e é isso que incomoda muito o presidente Lula e a mim. O que eu digo é que tem uma pauta setorial legítima para discutir. Por exemplo, eles reclamam muito do etanol. Quando exportamos açúcar para os EUA, tem uma cota e depois uma tributação proibitiva. No caso do etanol, a alíquota é do Mercosul e a Argentina não está tendo o tratamento tarifário que nós estamos tendo.

E tem como fazer essa questão internamente, no âmbito do Mercosul?

Dario Durigan: Sim, temos espaço para fazermos esse debate, um alinhamento. Eu acho natural e saudável que o debate aconteça. Os EUA reclamam muito da nossa agenda para big techs. Falam que tem uma moratória na OMC, que não topamos, e uma taxa digital pode aparecer. É esse o debate? Vamos fazer o debate. O que nos incomoda é fazerem uma punição ao Brasil para depois discutir. "Vamos colocar 40% e depois a gente abre uma agenda setorial."

Qual foi a proposta do Lula?

Dario Durigan: Que os EUA abram uma agenda de discussão com o Brasil para os dois debaterem quais pontos incomodam o governo norte-americano. Lula pediu que Trump expusesse os incômodos dele para que fossem discutidos setorialmente. A gente faz isso com o mundo inteiro, não tem problema. Mas o que acontece com os EUA e nos incomoda muito é que todas as justificativas deles para as tarifas giram em torno da China. Eu participei do G-7 agora e o principal painel do G-7 foi o "Global Imbalances". A demanda é: a China tem que parar de exportar e despejar produtos baratos no resto do mundo. A China tem que fortalecer o seu mercado interno, tem que consumir mais o que produz e não ficar exportando. A Europa precisa fazer um esforço fiscal para conseguir se manter de pé sem dependência externa e os EUA precisam diminuir o seu déficit de transações correntes. O que estou dizendo nessa história para os americanos é que, nessa história, o Brasil é como os EUA. Nós temos déficit com vocês e vocês são como se fossem a China. O dólar sai do Brasil para pagar serviços de tecnologia, produtos farmacêuticos e bens de capital, e o que a gente exporta para vocês é açúcar, café e suco de laranja. A Embraer exporta aviões, mas com um monte de peças norte-americanas.

Mas deve haver alguma coisa por trás desse impasse, não?

Dario Durigan: O que está acontecendo, e a gente viu no ano passado, é a diminuição do peso dos EUA na nossa balança comercial. Era de 25% quando Lula assumiu em 2003, foi para 12% em 2023 e agora está em 9%. Tende a cair porque eles estão impedindo que a gente siga fluindo com o comércio bilateral. Temos insistido nisso e não há outra coisa a se fazer. Se existe uma motivação política de criar um bloco de direita na América do Sul e, para isso, precisa trocar o governo brasileiro, não tem o que fazer a não ser ir para a OMC e fazer a política da diplomacia.

Mas isso não melhorou?

Dario Durigan: Eu acho que avançou. O Trump tem uma deferência ao Lula. Em vários momentos em que estávamos conversando na Casa Branca, a chefe de gabinete do Trump entrou dizendo: "agora é a hora de a imprensa entrar". Aí o Trump disse: "espera porque não sei se o presidente Lula concorda". E o Lula disse que não concordava porque ainda tinha assuntos na agenda para conversar. Tem um respeito do Trump pelo presidente Lula.

No final nem houve abertura da reunião para a imprensa.

Dario Durigan: Não, mas o Lula tratou de tudo com o Trump. Com relação aos EUA, o que me parece é que eles têm muitas frentes abertas no mundo e não têm pernas para rodar uma agenda engajada de fato, mandar propostas, contrapropostas. E com o Brasil na cabeça deles... Tem Europa, tem Índia, Vietnã, China, México, Canadá... Não conseguem sentar com o Brasil. Fazem um movimento forte esperando que o Brasil ceda. Mas nós não vamos ceder, e estamos dando mostras.

O senhor disse que sentiu avanços. É uma percepção vinda das sinalizações nessas conversas?

Dario Durigan: Passada a eleição, acho que desanuvia. No cenário em que Lula ganha a eleição, teremos caminho aberto com os EUA. Vamos dizer que temos quatro anos no Brasil e vocês têm dois anos nos EUA. Vamos fazer negócios aqui. Aliás, Lula já fala isso para o Trump e ele fica mexido. Lula diz: "Trump, você tem 80 anos e eu também tenho 80 anos, somos as duas maiores democracias do Ocidente, temos que ter responsabilidade, vamos fazer o negócio direito?" Trump escuta e fica todo animado.

Fonte: Broadcast Agro.