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28/Jul/2026

Safra 2026/27: entrevista com Bruno Lucchi - CNA

A safra 2026/27 será mais cara e menos rentável aos produtores, avalia a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A CNA projeta que eles manterão ou até mesmo reduzirão a área plantada com a pressão do maior custo de produção, acomodação dos preços dos produtos agrícolas e o risco de um "super El Niño". "É um momento crítico, com as variáveis climáticas intensas, no qual os produtores vão avaliar com cautela os investimentos na safra", disse o diretor técnico da confederação, Bruno Lucchi, em entrevista. A perspectiva de uma safra em ambiente adverso decorre da combinação de fatores que pressionam o desempenho do agronegócio: El Niño severo, endividamento recorde no agronegócio, restrição de crédito, aumento de custos e falta de reação dos preços das commodities, observa Lucchi. "O cenário até o momento não é bom. O desafio para essa próxima safra está muito mais complexo do que o visto nos ciclos anteriores, porque são muitas variáveis negativas ao mesmo tempo", apontou Lucchi. Segue a entrevista:

A nova safra começa com uma combinação de fatores adversos. Qual é o cenário traçado pela CNA para a safra 2026/27?

Bruno Lucchi: É um cenário desafiador. Há as questões climáticas, como o El Niño, que pode afetar a segunda safra, principalmente milho e algodão. Ao mesmo tempo, a política de seguro rural está sendo desconstruída justamente em um ano de maior risco climático. No crédito, o Plano Safra ficou aquém do valor disponibilizado no ciclo anterior. E, na rentabilidade, os preços dos principais produtos agrícolas estão lateralizados ou em queda, enquanto o custo de produção aumenta, principalmente com fertilizantes pressionados pelo conflito no Oriente Médio. O risco climático, somado à menor adubação, pode piorar o desempenho para a segunda safra. A safra de soja pode ficar próxima da atual, talvez um pouco menor, mas a segunda safra pode cair mais de 5%, o que afeta o volume de produção do próximo ano. Então, os produtores tendem a avaliar os investimentos na safra com cautela.

Nesse contexto, qual a expectativa da CNA para a área plantada na safra, dada a intenção de plantio dos produtores?

Bruno Lucchi: Não esperamos expansão na área plantada. A tendência é manter a área, com redução do pacote tecnológico em algumas regiões ou até mesmo redução pontual da área cultivada. Pode haver também substituição entre produtos, por exemplo troca do cultivo de milho para sorgo, que é mais resistente à seca.

Há pressão sobre o aumento de custo de produção, em virtude do conflito no Irã e impactos decorrentes em fertilizantes e combustíveis. É possível estimar o quanto a nova safra será mais cara que a anterior? Haverá uma alta generalizada nos custos?

Bruno Lucchi: O gastos dos produtores com insumos deve subir 9,8% ante a temporada passada, a depender do momento de compra. Os fertilizantes puxam a alta: estimamos aumento de pelo menos 15% no custo com adubos. Além disso, itens ligados ao transporte marítimo seguem pressionados pela instabilidade do petróleo. Estimamos aumento de pelo menos 15% com adubos no custo para a nova safra. Até o momento, cerca de 50% dos fertilizantes que serão utilizados na safra foram comprados pelos produtores, abaixo dos anos anteriores. O cenário é incerto, porque não sabemos como as cotações vão se comportar nos próximos meses e qual será a real duração do conflito no Irã. Não vemos risco de desabastecimento. Se houver queda na produtividade, em virtude do El Niño, haverá impacto também na menor diluição dos custos fixos. Há um cenário apertado de custo para o ano que vem e, com os Estados Unidos e Argentina colhendo safra cheia, a alta dos preços internacionais tende a ser limitada.

Poderemos ter então uma safra menor com preços estáveis?

Bruno Lucchi: Os efeitos do El Niño variam por país e período de plantio. Com os nossos concorrentes colhendo safra cheia, qualquer alta de preços deve ser marginal. Dificilmente haverá incremento expressivo. Ao mesmo tempo, não vemos espaço para queda dos preços, porque não haverá aumento generalizado da produção e os estoques internacionais estão diminuindo.

Nesse cenário de preços acomodados e pressão de custo, as margens de rentabilidade dos produtores devem continuar apertadas?

Bruno Lucchi: Sim. O custo deve crescer mais do que a receita na próxima safra, reduzindo a rentabilidade. O resultado vai depender da região e da intensidade do El Niño, com previsão de seca no Centro-Oeste e no Nordeste e chuvas no Sul do País. Hoje, as margens já estão muito estreitas. Em regiões mais críticas, a margem pode ficar negativa.

Com base no prognóstico dos episódios anteriores de El Niño no Brasil, quais são as culturas e regiões mais vulneráveis e o nível de exposição?

Bruno Lucchi: Na safra 2015/16 o El Niño teve um impacto muito forte no Matopiba, com seca severa e quebras expressivas. Tudo indica que o El Niño deste ano tende a ser mais semelhante ao que afetou a safra 2015/16 do que ao padrão da temporada 2022/23. Entretanto, o Matopiba adotou mais tecnologia na última década, com melhor perfil de solo e irrigação, o que pode mitigar as perdas. Os impactos variam conforme cada Estado e devem ficar mais claros a partir dos mapas de chuva e temperatura no próximo mês. Em cultivos, a segunda safra, sobretudo de milho e algodão, é a mais exposta ao El Niño.

O que pode ser feito para mitigar os efeitos do El Niño? O seguro rural é a principal ferramenta de gestão de risco nesse cenário?

Bruno Lucchi: O seguro dá a garantia econômica aos produtores. Em caso de perda, ajuda a compensar o prejuízo. Outras tecnologias, como a irrigação, são importantes para reduzir os impactos da seca extrema. O Brasil tem hoje 8 milhões de hectares irrigados e potencial para superar 20 milhões de hectares irrigados, mas há dificuldade de obtenção de outorga de água pelos produtores e de licenciamento ambiental.

Dado o provável El Niño severo e os cortes recentes no orçamento do seguro rural, a CNA vê espaço para recomposição da subvenção ao seguro neste ano?

Bruno Lucchi: O reforço ao orçamento ao seguro foi o principal pleito no âmbito do Plano Safra. Agora buscamos aprovar no Senado o projeto de lei da modernização do marco legal do seguro rural, que ajuda a blindar o orçamento e cria um fundo de catástrofe. Não vemos suplementação imediata ou aumento do seguro rural, mas esperamos uma resposta em breve para a recomposição do orçamento mínimo para que atenda o produtor que está contratando financiamentos para a safra. Até aqui, a área segurada não chega a 500 mil hectares, apesar do risco maior.

Outro componente importante para a safra é o crédito. Produtores acumulam endividamento recorde e os bancos, por sua vez, estão cada vez mais seletivos na concessão dos financiamentos. Haverá oferta suficiente para atender a demanda dos produtores?

Bruno Lucchi: A queda de 12% nas contratações do Plano Safra 2025/26 mostra um ambiente mais restritivo. Esperamos que com a Medida Provisória para a renegociação das dívidas rurais tenhamos mais produtores aptos ao crédito. Isso também vai depender da execução dos recursos que foram anunciados no Plano Safra. Além disso, o produtor recorre mais ao mercado privado, porque o Plano Safra não vai atender toda a demanda. Articulamos a estruturação de um fundo garantidor para avalizar as operações rurais e o produtor obter crédito a menor taxas de juros. Agora, essa questão financeira não se resolve nesta safra. Estimamos que haverá ainda pelo menos mais uma temporada para um cenário de ajuste.

Nesse contexto de alavancagem elevada dos produtores, juros também elevados, restrição de crédito, produtor tende a manter a cautela em investimento de bens, como vimos nas últimas safras?

Bruno Lucchi: O crédito para investimento recuou 18% no Plano Safra. Apesar da queda nas taxas de juros cobradas, ainda não há estímulo para retomada do investimento em larga escala. A maioria dos produtores ainda não vai conseguir retomar o ritmo de investimentos neste ano. O foco será no custeio.

Pensando em todas as questões e desafios da safra, no próximo ano, teremos uma menor contribuição do agronegócio para o PIB, para a balança comercial e um risco de aceleração da inflação de alimentos?

Bruno Lucchi: No ano passado, o PIB do agronegócio cresceu 12%, com 25% de participação no PIB Brasil. Para este ano, estimamos crescimento menor, de 0,7%, e queda na participação no PIB Brasil, para 23,8%. O resultado é afetado pela manutenção na área de produção e pela queda do preço dos principais produtos. Em 2027, se houver restrição de produção, pode haver uma menor produção de grãos e não confirmar essa participação tão forte do agro. A queda na produção de alimentos como um todo afeta a inflação, consequentemente. Por isso, a inflação tem de ser 'consertada' agora com políticas de estímulo à produção: pragmatismo no mercado internacional, crédito, gestão de risco e seguro rural. Não adianta querer consertar a inflação no ano que vem depois de o produtor ter plantado a área ou reduzido o pacote tecnológico.

Fonte: Broadcast Agro.