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26/Aug/2026

Brasil precisa diversificar mercados e fornecedores

Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Brasil precisa acelerar a diversificação de seus mercados e reduzir a dependência comercial da China diante de um cenário geopolítico em transformação, que ameaça o modelo de crescimento da agricultura brasileira construído nas últimas décadas. A disputa entre Estados Unidos e China passou a afetar diretamente as cadeias globais de alimentos e fertilizantes e reduziu a capacidade brasileira de controlar os riscos aos quais está exposto. A concentração das exportações brasileiras em um único mercado representa uma vulnerabilidade crescente, especialmente considerando que cerca de 30% de tudo o que o País vende ao exterior tem a China como destino. A agricultura brasileira viveu, nos últimos 25 anos, um ciclo de expansão sustentado pelo aumento da produção, pelo crescimento das exportações e pela entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001.

O crescimento contínuo da demanda mundial por proteínas favoreceu a expansão do agronegócio brasileiro e contribuiu para a geração de divisas necessárias à estabilização da economia. Esse ciclo começou a perder sustentação a partir de 2021. A invasão russa da Ucrânia, em 2022, e o agravamento da disputa entre Estados Unidos e China expuseram a vulnerabilidade brasileira decorrente da dependência externa de insumos agrícolas. A questão deixou de estar relacionada apenas ao aumento dos preços dos insumos e passou a envolver a própria ruptura do ambiente geopolítico que sustentou o crescimento do agronegócio. Cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados, e a disputa entre as duas maiores potências mundiais transformou as cadeias de alimentos e de insumos agrícolas em componentes de segurança nacional. Decisões relacionadas à regulação das cadeias de valor e ao acesso a insumos passaram a integrar uma disputa geopolítica que ganhou dimensão inexistente até poucos anos atrás.

Mesmo a manutenção de relações comerciais positivas do Brasil com China e Rússia não elimina os riscos associados à concentração de fornecedores e mercados. Como o País possui capacidade limitada de influenciar a disputa estratégica entre as grandes potências, a redução da exposição externa depende de medidas próprias, principalmente por meio da diversificação do comércio exterior. Nesse processo, outros mercados asiáticos aparecem como alternativas relevantes. O Brasil vem ampliando relações comerciais com Coreia do Sul, Indonésia, Índia, Singapura e Japão, além de avançar em negociações envolvendo o Mercosul. Esse movimento ainda é recente e precisa ser acompanhado pela preparação das empresas brasileiras para atuar nesses mercados. A falta de conhecimento especializado sobre os países asiáticos também representa um obstáculo. A limitada formação acadêmica e empresarial sobre mercados como China e Japão reduz a capacidade brasileira de compreender oportunidades, estabelecer estratégias comerciais e ampliar a presença nesses destinos.

O avanço das relações comerciais com o Vietnã é apontado como exemplo dessa transformação. No último ano, o comércio brasileiro com o país asiático superou o registrado com qualquer outro país latino-americano, com exceção de México e Argentina. A infraestrutura logística é outro gargalo. A crise dos fertilizantes evidenciou as dificuldades do Brasil para transportar insumos importados até as propriedades rurais, especialmente em razão das dimensões continentais do território. A redução da vulnerabilidade logística exige investimentos elevados em infraestrutura de transporte, com impactos diretos sobre a segurança de abastecimento e a competitividade da agricultura. O Brasil, portanto, não pode considerar que as condições que sustentaram a expansão do agronegócio durante as últimas duas décadas e meia permanecerão inalteradas. A mudança do ambiente geopolítico exige a construção de um novo ciclo de crescimento, com maior diversificação de mercados e fornecedores, investimentos em logística e adaptação das estratégias empresariais e governamentais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.