01/Sep/2026
A dívida pública brasileira deve superar o tamanho da economia em oito anos, segundo as projeções mais recentes de economistas coletadas pelo Banco Central (BC). O Fundo Monetário Internacional (FMI), porém, projeta que a marca de 100% do Produto Interno Bruto (PIB) será atingida já em 2027. O FMI calcula a dívida pública brasileira em 95,4% do PIB, acima dos 82,5% considerados nas projeções mais acompanhadas pelo mercado brasileiro. A diferença decorre da metodologia utilizada, já que o conceito do FMI inclui os títulos do Tesouro na carteira do Banco Central. Apesar da diferença metodológica, os dois indicadores apontam para a mesma trajetória, de aumento da dívida até superar o tamanho da economia. Atualmente, esse quadro ocorre em países desenvolvidos e na China e, fora desse grupo, também na Ucrânia, que está em guerra há mais de quatro anos com a Rússia, e no Bahrein.
Nas projeções do Fiscal Monitor do FMI para 2027, a dívida bruta do governo geral corresponde a 200,1% do PIB no Japão, 172,7% em Singapura, 154,5% no Bahrein, 138,8% na Itália, 137,1% na Ucrânia, 130,3% na Grécia, 128,6% nos Estados Unidos, 120,5% na França, 112,5% na China, 111,5% na Bélgica, 109,5% no Canadá, 104,1% no Reino Unido e 100% no Brasil. Os países desenvolvidos e a China apresentam condições mais favoráveis para sustentar níveis elevados de endividamento, como moedas fortes, maior poupança doméstica e juros mais baixos. O Brasil não dispõe das mesmas vantagens. Além de elevada e crescente, a dívida brasileira apresenta custo elevado, o que aumenta a pressão sobre as contas públicas. A desaceleração da economia acrescenta um desafio ao processo de ajuste necessário para estabilizar a dívida, justamente em um momento em que a arrecadação tende a perder força e o Congresso Nacional não demonstra disposição para aprovar aumentos de impostos.
Nas condições atuais, economistas, de forma geral, estimam que seria necessário um superávit primário superior a 3% do PIB para estabilizar a trajetória da dívida. Isso representa uma sobra de aproximadamente R$ 400 bilhões nas contas do governo antes do pagamento de juros. As projeções de mercado apontam que a dívida bruta, atualmente em 82,5% do PIB, alcançará 100,1% em 2034. A projeção para o atingimento do patamar de 100% foi antecipada em um ano, pois anteriormente os economistas estimavam que esse nível seria alcançado em 2035. Em valores nominais, a dívida bruta, que já se aproxima de R$ 11 trilhões, avançaria para R$ 15 trilhões nos próximos oito anos. Governos estaduais e prefeituras representam apenas 4% da dívida incluída no cálculo.
Os 96% restantes correspondem ao endividamento do governo federal, incluindo as operações compromissadas do Banco Central. Pela mediana das expectativas dos economistas do mercado em 28 de agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral deve passar de 83,2% do PIB em 2026 para 87,2% em 2027, 90,1% em 2028, 92,5% em 2029, 95,0% em 2030, 96,2% em 2031, 97,2% em 2032, 99,4% em 2033, 100,1% em 2034 e 101,9% em 2035. Nos últimos anos, estímulos econômicos combinados a ajustes modestos nas despesas e à abertura de exceções que reduziram a credibilidade do arcabouço fiscal contribuíram para elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores para financiar a dívida brasileira. Os riscos fiscais também contribuíram para a manutenção de juros elevados nas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável pela definição da Selic.
Mais da metade da dívida pública, equivalente a 56,3%, está indexada à taxa básica de juros. O nível elevado da Selic aumenta o custo de carregamento da dívida. Em 2025, pela primeira vez, a conta de juros da dívida pública superou R$ 1 trilhão, equivalente a 8% do PIB. No cenário traçado atualmente pelos economistas, esse patamar tende a se tornar recorrente enquanto não houver um plano fiscal considerado crível e consistente. Segundo as projeções do FMI em seu relatório de acompanhamento fiscal atualizado em abril, o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve terminar com a dívida pública em 96,5% do PIB, aumento de 12,6% em quatro anos. Apenas sete países apresentaram avanço maior no período: Ucrânia, Bahrein, China, Kuwait, Finlândia, Singapura e Polônia, nessa ordem.
Entre as economias emergentes, a dívida pública média corresponde a 78,9% do PIB, 17,6% abaixo do Brasil. O cenário de juros elevados, dívida crescente, menor crescimento econômico e possibilidade de aumento dos juros nos Estados Unidos reforça a necessidade de uma condução mais conservadora das contas públicas. A combinação desses fatores aumenta o risco de elevação do prêmio exigido pelos investidores e de deterioração das condições de financiamento do governo brasileiro. A proximidade das eleições dificulta, contudo, o avanço do debate sobre reformas fiscais. Poucos candidatos demonstram disposição para defender medidas potencialmente impopulares, como cortes em políticas de proteção social. O governo atual sinaliza ao mercado que, em um eventual novo mandato, pretende reduzir de 2,5% para 1,5% o limite de crescimento das despesas dentro do arcabouço fiscal. Para o mercado, entretanto, a capacidade de execução dos programas tende a ser mais relevante do que as propostas apresentadas pelos candidatos.
A implementação dependerá não apenas dos projetos, mas também do capital político disponível. O enfrentamento da rigidez orçamentária e a capacidade de aprovar mudanças estruturais serão determinantes para que qualquer regra fiscal possa funcionar como âncora para a dívida pública. Entre os principais pontos de rigidez estão os aumentos automáticos de despesas provocados por mecanismos de indexação e vinculação em áreas como saúde, educação, Previdência e emendas parlamentares. Como alterações nesses mecanismos exigem mudanças na Constituição, o próximo presidente precisará demonstrar capacidade de articulação para formar e aprovar uma maioria qualificada de três quintos dos votos no Congresso Nacional. Uma alternativa considerada teoricamente mais simples seria alterar a fórmula que permite reajustes do salário-mínimo acima da inflação, já que benefícios assistenciais e previdenciários estão vinculados ao piso nacional.
O Morgan Stanley alertou que uma sinalização fiscal considerada fraca pode desencadear um ciclo de retroalimentação macrofiscal após as eleições. Nesse processo, a elevação do prêmio de risco provocaria depreciação do câmbio, reduziria a margem para cortes de juros pelo Banco Central, enfraqueceria a atividade econômica e agravaria a trajetória da dívida. Diante de um ambiente macroeconômico mais adverso, o espaço para ambiguidade na condução fiscal tende a diminuir. Embora o ajuste necessário seja substancial e politicamente difícil, o Brasil não precisaria adotar uma estratégia agressiva de correção das contas públicas, como a implementada na Argentina para recuperar a credibilidade junto ao mercado. Um ajuste estrutural da ordem de 3% do PIB, com estimativas de alguns economistas chegando a 4% do PIB, não precisaria ser alcançado em apenas um ano. Uma trajetória de ajuste ao longo de cinco anos, acompanhada de sinalização clara de avanço na direção do equilíbrio, poderia permitir ao mercado antecipar parte dos efeitos positivos da consolidação fiscal. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.