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03/Sep/2026

RS: entrevista com Domingos Velho Lopes-Farsul

Após seis safras com perdas acumuladas e endividamento crescente decorrentes de eventos climáticos adversos, o Rio Grande do Sul aposta na próxima temporada como início da retomada do setor. A expectativa se deve sobretudo à esperada maior produção na safra de verão, que tende a ser beneficiada pelo efeito favorável do El Niño. A recuperação, sobretudo a financeira, no entanto, pode levar até dez anos, avalia o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Rio Grande do Sul (Farsul), Domingos Velho Lopes. “Estamos falando de algo próximo a dez safras para recuperação, porque foi uma perda gigantesca, de mais de 40 milhões de toneladas, chegando a um prejuízo de R$ 300 bilhões ao PIB gaúcho”, disse. Segue a entrevista:

Após seis safras consecutivas afetadas pelo clima adverso, que resultaram em endividamento dos produtores rurais gaúchos, qual é o cenário do agronegócio gaúcho para a próxima safra diante dessa crise?

Domingos Velho Lopes: Vivemos um momento de muita insegurança econômica do produtor rural gaúcho, da agricultura familiar à agricultura empresarial. Desde a safra colhida em 2020, o Estado registrou quatro grandes estiagens e duas enchentes. No acumulado desse período, o Estado perdeu 40 milhões de toneladas, representando uma perda de mais de R$ 300 bilhões no PIB gaúcho desde 2020. Diferentemente de outros Estados, onde a tempestade perfeita decorreu de juros altos, preços baixos das commodities e custos elevados, no Rio Grande do Sul há ainda o agravante da não colheita em razão de efeitos climáticos severos. Por isso, o Estado tem o maior endividamento do País. Nosso desafio hoje é recolocar esses produtores novamente no crédito e retomar a elevada produtividade da produção gaúcha para que tenham um resultado financeiro positivo.

A Emater divulgou ontem (1º) as primeiras estimativas da safra de verão, com perspectiva de aumento de 8% na produção, a 36 milhões de toneladas de grãos de verão, em meio aos efeitos favoráveis do El Niño. Essa safra maior vai possibilitar o início da retomada da agropecuária gaúcha?

Domingos Velho Lopes: Os preços das commodities estão se ajustando, com uma elevação recente. Em virtude do perfil do solo, da permeabilidade e da cobertura vegetal, o El Niño geralmente fomenta a produtividade no Rio Grande do Sul porque chove nos momentos de estiagem, o que confere bom desempenho às lavouras de soja, milho e sorgo - os cultivos de verão. Já no arroz, é preciso ter cuidado com o risco de inundação das áreas. Em geral, em anos de El Niño, o Rio Grande do Sul tem desempenho produtivo melhor.

Dada essa tendência de uma safra maior em termos de produção e a reação dos preços das commodities, qual é a expectativa para a rentabilidade da próxima safra, considerando que há pressão do custo de produção?

Domingos Velho Lopes: O custo de produção para a safra está elevadíssimo. O preço dos fertilizantes e dos combustíveis, em razão dos impactos no fluxo do Estreito de Ormuz, gerou uma elevação de custos. Alertamos os produtores de que não é um ano de grandes investimentos. Será uma safra de manutenção de caixa. Esse cenário, aliado aos juros altos, decorrentes de uma gestão fiscal federal irresponsável, que gasta mais do que arrecada, traz dificuldades adicionais para a rentabilidade da safra. Vemos que os produtores estão procurando as áreas mais produtivas, aquelas mais expostas aos efeitos das chuvas do El Niño, para ter boa produtividade com o mínimo de custo, escolhendo as melhores áreas, fazendo um plantio adequado e buscando boas negociações na compra de insumos. Mas juros livres na ordem de 20% na tomada de financiamento com recursos livres dificultam as margens finais da safra, apesar da tendência de boa colheita.

E na pecuária, qual desempenho é esperado no Rio Grande do Sul considerando a conjuntura de preços e demanda? A partir de 3 de setembro, o Brasil deixa de exportar carnes para a União Europeia em virtude do controle de uso de antimicrobianos. Quais são os impactos esperados para o Estado?

Domingos Velho Lopes: O setor de proteína animal vive um momento de excelência, passando pela cadeia de suínos, aves, pecuária de corte e cadeia leiteira. Vivemos um momento de bons preços, com alta demanda, inclusive externa. O mercado europeu tem importante valor agregado e, portanto, essa restrição nos preocupa. Entretanto, é um mercado com participação muito pequena no share das exportações gaúchas. Acreditamos que haverá substituição por outros países, porque a demanda por proteína em nível internacional só aumenta e quem tem condições de atender essa demanda é o Brasil. Dessa forma, teremos a manutenção do bom momento da pecuária.

Essa expectativa de recuperação na safra 2026/27 será suficiente para compensar os prejuízos acumulados nos últimos seis anos? Quantos ciclos são necessários para a recuperação do agronegócio gaúcho?

Domingos Velho Lopes: Temos uma rentabilidade de 5% a 10%. Portanto, estamos falando de algo próximo a dez safras para recuperação, porque foi uma perda gigantesca. Há produtores que estavam mais capitalizados e, portanto, o efeito é menor. Porém, há produtores que estavam totalmente descapitalizados, principalmente aqueles que têm arrendamento.

Em meio a essa crise, o agronegócio gaúcho solicitou a renegociação das dívidas rurais. A Medida Provisória editada pelo governo federal, com linha de crédito para alongamento das dívidas, será suficiente para reestruturar a capacidade financeira dos produtores rurais?

Domingos Velho Lopes: A inadimplência vai crescer. Estimamos que apenas cerca de 12% dos contratos em atraso são elegíveis para a renegociação via Medida Provisória. Precisamos de uma readequação, por parte do Executivo, da MP, seja editando uma nova, seja buscando um melhor enquadramento dos produtores na medida atual. Atuamos em duas frentes: com o Executivo e junto ao Congresso Nacional, por meio de emendas à MP, a fim de termos um enquadramento de 80% a 90% dos produtores. Da forma como está, a MP não traz alívio para o agricultor gaúcho em virtude do enquadramento. Ela não resolve e deixa muitos produtores fora do crédito.

Dada a atual situação do agronegócio gaúcho, que vem se arrastando nos últimos anos, quais são as prioridades do setor para o próximo governo, tanto estadual quanto federal, no ciclo 2027-2030?

Domingos Velho Lopes: Primeiramente, a reinserção dos produtores rurais gaúchos no crédito. Em nível nacional, precisamos melhorar a nossa comunicação, porque temos uma agricultura pujante, somos o maior exportador líquido de alimentos do mundo e não conseguimos transformar isso em ativo, em uma boa imagem do produtor rural. Precisamos dar ênfase a essa reaproximação campo-cidade. Além disso, o fortalecimento do seguro rural é vital. Se houvesse uma subvenção de seguro rural entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões, esse endividamento de mais de R$ 150 bilhões no crédito rural não existiria no Brasil. Esse é um erro estratégico do governo federal. No Rio Grande do Sul, temos fundo para a pecuária, para sinistros sanitários, e seguro para a cadeia do fumo. Há uma conversa em andamento das entidades do setor junto ao governo do Estado para a criação de um fundo de resseguro. É um assunto que precisa ser amadurecido, porque acreditamos em fundos com gestão privada. Esse é um caminho que deve ser foco das entidades e dos governos sérios, que querem o desenvolvimento da agricultura e da pecuária sob segurança produtiva.

Fonte: Broadcast Agro.