04/Sep/2026
As tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos chineses vêm redesenhando o mapa de fornecedores do mercado norte-americano, mas sem reduzir proporcionalmente a dependência externa do país ou promover uma queda significativa do déficit comercial. O movimento indica principalmente uma reorganização das origens declaradas das mercadorias, enquanto o volume de bens importados pelos Estados Unidos permanece elevado e parte das cadeias produtivas continua conectada à indústria chinesa. O Vietnã é o principal exemplo dessa mudança. O país, que esteve envolvido em uma guerra contra os Estados Unidos entre 1955 e 1975, passou de fornecedor periférico a integrar o grupo dos cinco maiores fornecedores do mercado norte-americano. No 1º trimestre de 2000, as exportações vietnamitas de bens para os Estados Unidos somavam apenas US$ 208 milhões, equivalentes a 0,07% do total importado pelo país naquele período.
No 1º trimestre de 2026, conforme dados do Bureau of Economic Analysis (BEA), o Vietnã alcançou US$ 59 bilhões em vendas aos Estados Unidos, com participação de 6,80% nas importações norte-americanas e a 5ª posição entre os maiores fornecedores, atrás de México, Canadá, Taiwan e China. Esse avanço não ocorreu de forma linear ou espontânea e concentrou-se em duas fases associadas a períodos de intensificação das tarifas norte-americanas sobre produtos chineses. A primeira ocorreu após o início da guerra comercial em 2018. Entre 2018 e 2024, a participação do Vietnã nas importações dos Estados Unidos aumentou de 1,89% para 3,86%, movimento associado à transferência de encomendas e etapas de produção para países capazes de atender ao mercado norte-americano sem a incidência das tarifas aplicadas diretamente aos produtos chineses.
A segunda aceleração ocorreu no ciclo tarifário mais recente. A partir do 1º trimestre de 2025, a participação vietnamita avançou de 4,23% para 6,80% em apenas um ano. O movimento foi acompanhado pela perda de participação da China. No período, a fatia chinesa nas importações dos Estados Unidos recuou de 11,29% para 7,83%. Paralelamente, o déficit comercial de bens dos Estados Unidos com a China caiu de US$ 80 bilhões para US$ 40 bilhões no trimestre, com ajuste sazonal. Em sentido oposto, o déficit comercial norte-americano de bens com o Vietnã aumentou de US$ 39 bilhões para US$ 54 bilhões no mesmo intervalo. Dessa forma, parte relevante da redução do déficit bilateral dos Estados Unidos com a China foi compensada pelo aumento do déficit com o Vietnã, evidenciando que as tarifas podem estar promovendo uma redistribuição das rotas de comércio e dos países declarados como origem das mercadorias, sem provocar redução equivalente do consumo norte-americano de bens importados.
O déficit total de bens dos Estados Unidos passou de US$ 271 bilhões no 1º trimestre de 2024 para US$ 251 bilhões no período mais recente. Apesar da redução, considerada modesta e irregular, as importações totais aumentaram de US$ 787 bilhões para US$ 864 bilhões. A combinação entre aumento do valor importado e redução limitada do déficit indica que o ajuste comercial norte-americano ocorre mais pela realocação de fornecedores do que por uma retração significativa da demanda por produtos estrangeiros. Nesse contexto, as tarifas aplicadas à China alteram a composição geográfica das importações e estimulam a transferência de etapas industriais para países como o Vietnã, mas não eliminam a dependência dos Estados Unidos de cadeias produtivas externas. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.