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11/Sep/2026

China busca autonomia na produção de alimentos

Segundo o ex-ministro da Agricultura e acionista do Grupo Amaggi, Blairo Maggi, a busca da China por maior autonomia na produção de alimentos representa um sinal de alerta para o agronegócio brasileiro, embora o país asiático ainda enfrente limitações para reduzir sua dependência externa de proteína vegetal, especialmente soja. O Brasil precisa ampliar mercados e preservar uma postura pragmática diante da disputa entre China e Estados Unidos. Uma eventual necessidade de escolha entre os dois blocos poderia gerar impactos relevantes sobre a produção e o comércio exterior brasileiro. A política agrícola chinesa já incorpora o objetivo de ampliar a segurança do abastecimento. O plano quinquenal da China para 2026 a 2030 prevê o reforço da segurança na oferta de produtos agrícolas, a ampliação da capacidade produtiva de milho e soja e o aperfeiçoamento dos mecanismos de apoio à cadeia da oleaginosa.

O documento também estabelece como meta fortalecer a capacidade doméstica de oferta de alimentos até 2030. A China apresenta condições de ampliar a produção doméstica em algumas proteínas animais, como aves e suínos, mas esse avanço não elimina a necessidade de importação de proteína vegetal destinada à alimentação dos rebanhos. Essa dependência é especialmente relevante para a soja, cuja produção doméstica chinesa não apresenta capacidade de expansão rápida suficiente para substituir integralmente as compras externas. Para aumentar de forma significativa a produção da oleaginosa, seria necessário deslocar áreas atualmente destinadas a outras culturas, criando limitações de ordem territorial e produtiva. Os dados recentes confirmam a elevada dependência chinesa do mercado internacional de soja. Em agosto, a China importou 12,14 milhões de toneladas da oleaginosa, queda de 1,1% ante igual mês de 2025, mas alta de 5,7% em relação a julho.

De janeiro a agosto, as compras externas somaram 74,11 milhões de toneladas, avanço de 1,1% na comparação anual. Segundo dados alfandegários chineses, a oferta recorde do Brasil e a fluidez dos embarques nos portos brasileiros contribuíram para sustentar as importações no período. Nesse contexto, o Brasil mantém uma vantagem estrutural no fornecimento de soja à China, mas a estratégia de Pequim de elevar a produção doméstica e diversificar fontes de abastecimento aumenta a necessidade de redução da concentração das exportações brasileiras em um único mercado. A expansão da produção chinesa pode ocorrer de forma gradual, sem eliminar no curto prazo a necessidade de importações, mas tende a representar um fator de risco para o crescimento das exportações brasileiras no horizonte de médio e longo prazo. A dimensão geopolítica da relação entre Brasil e China também ganhou importância nos últimos anos.

Durante sua gestão no Ministério da Agricultura, Maggi realizou oito viagens à China para tratar de questões relacionadas às exportações brasileiras e já identificava preocupações chinesas com o posicionamento do Brasil em temas estratégicos, como a Rota da Seda. A avaliação era de que a relação entre China e Estados Unidos poderia evoluir para uma estrutura de polarização ou bipolaridade, aumentando a pressão sobre países exportadores de commodities. A estratégia defendida para o Brasil é manter relações comerciais com as duas maiores potências e evitar alinhamentos que comprometam o acesso aos mercados. A prioridade deveria permanecer na ampliação do comércio, na produção e na garantia de fornecimento dos produtos brasileiros, sem vinculação às disputas geopolíticas entre China e Estados Unidos. A política adotada pelo governo Jair Bolsonaro em relação à China é avaliada como um erro estratégico nesse contexto, por ter associado a política externa brasileira à tentativa de aproximação com os Estados Unidos.

A experiência reforça a necessidade de preservar maior independência diplomática e comercial para evitar que conflitos entre grandes potências sejam transferidos para as cadeias produtivas brasileiras. Para o agronegócio, o movimento chinês de ampliação da autonomia alimentar não significa perda imediata do mercado, mas representa um sinal amarelo para o Brasil. A elevada dependência chinesa de soja importada permanece como uma oportunidade para o País, mas a estratégia de longo prazo deve combinar manutenção da competitividade no mercado asiático, abertura de novos destinos e redução da concentração das exportações. Uma eventual divisão do comércio mundial em blocos e a necessidade de escolha entre China e Estados Unidos poderiam elevar significativamente os riscos para a produção e o comércio exterior do agronegócio brasileiro. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.