11/Sep/2026
Segundo o ex-ministro da Agricultura e acionista do Grupo Amaggi, Blairo Maggi, o avanço das recuperações judiciais (RJs) no agronegócio e a perda de confiança entre produtores, bancos, tradings e fornecedores tendem a restringir a oferta de crédito e elevar o custo dos recursos para o setor. Há maior pressão financeira entre produtores do Centro-Oeste, especialmente em Mato Grosso, após um ciclo de forte expansão baseado em investimentos em terras, armazenagem e abertura de novas áreas. Cerca de um terço dos produtores está bastante pressionado financeiramente, enquanto outro terço se encontra em situação confortável. A diferença entre os grupos está relacionada, em parte, às decisões de investimento adotadas nos últimos anos. Produtores que preservaram caixa ou limitaram a expansão à própria capacidade financeira atravessam o atual ambiente com maior capacidade de absorção das dificuldades, enquanto aqueles que ampliaram patrimônio e capacidade produtiva durante o ciclo favorável enfrentam maior comprometimento financeiro.
A atividade agrícola pode continuar gerando recursos suficientes para financiar a operação corrente, mas, em determinados casos, não apresenta geração de caixa capaz de honrar integralmente as obrigações assumidas durante o período de expansão. Entre os investimentos realizados pelos produtores mais pressionados estão a construção de armazéns, a aquisição de terras e a abertura de novas áreas para produção. O cenário combina dificuldades financeiras, juros elevados e maior rigor na concessão e nas garantias de crédito. Entretanto, é preciso diferenciar os produtores que enfrentam dificuldades em razão de investimentos realizados diretamente na atividade daqueles casos em que recursos captados no mercado teriam sido direcionados à ampliação do patrimônio pessoal antes da entrada em recuperação judicial. Entre os exemplos mencionados estão a aquisição de imóveis e aeronaves. Situações dessa natureza não devem transferir aos credores e demais agentes do setor prejuízos decorrentes de decisões patrimoniais individuais.
A deterioração da confiança afeta não apenas os produtores em recuperação judicial, mas também as condições de financiamento para todo o agronegócio. Bancos, tradings e fornecedores tendem a buscar alternativas para preservar o relacionamento com clientes em dificuldade antes de interromper completamente o financiamento, utilizando renegociação, novas fontes de recursos e crédito adicional quando existe viabilidade econômica. Quando esse processo é rompido e os problemas financeiros se multiplicam, o resultado é uma retração da oferta de recursos e maior seletividade na concessão. O impacto imediato sobre a safra que começa a ser implantada tende a ser limitado, uma vez que parte relevante dos insumos e dos financiamentos necessários já foi contratada. O principal risco está nos próximos ciclos agrícolas, quando a maior percepção de risco poderá resultar em menor disponibilidade de crédito, exigência de garantias mais rígidas e aumento das taxas cobradas dos produtores. O Brasil dispõe de instrumentos legais capazes de direcionar recursos privados para o financiamento do agronegócio a custos potencialmente inferiores aos praticados atualmente.
A efetividade desses mecanismos, porém, depende de um ambiente de maior confiança entre credores e tomadores. O nível elevado dos juros também está associado ao desequilíbrio fiscal e à necessidade de financiamento do próprio governo, fatores que pressionam o custo de capital para toda a economia. O custo elevado do dinheiro afeta bancos, empresas, produtores rurais e demais agentes econômicos, incluindo aqueles que possuem operações de dívida contratadas. Nas recuperações judiciais, a previsibilidade na execução das garantias é considerada um elemento central para a manutenção do fluxo de capital ao agronegócio. Mato Grosso é apontado como referência positiva na interpretação e execução de garantias vinculadas à atividade agrícola, com entendimento de que operações formalizadas por Cédulas de Produto Rural (CPRs) devem ter suas garantias executadas conforme as condições estabelecidas. A segurança jurídica e a previsibilidade das regras são fatores determinantes para bancos, tradings, fornecedores e investidores que direcionam recursos ao setor agropecuário brasileiro. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.