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14/Sep/2026

El Niño amplia pressão sobre inflação de alimentos

O El Niño passou a integrar o cenário-base das projeções de inflação do mercado e deve contribuir para manter o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) próximo de 5% em 2026, além de ampliar as pressões inflacionárias em 2027. O principal canal de transmissão do fenômeno climático é a alimentação, diante dos efeitos sobre chuvas e temperaturas nas principais regiões produtoras, com aumento do risco de perdas, piora da qualidade e choques de oferta em culturas como soja, café e milho, além de outros alimentos in natura, com potencial de repasse relativamente rápido ao varejo. Com o El Niño incorporado às projeções, Itaú Unibanco estima alta de 5,1% do IPCA em 2026, Bradesco projeta 5,0% e Santander, 4,9%. O índice acumula alta de 4,22% em 12 meses até agosto, enquanto a alimentação no domicílio registra avanço de 2,8% no mesmo intervalo. Esse comportamento ocorreu em um período de alívio temporário dos preços dos alimentos e da tarifa de energia, com expectativa de reversão parcial nos próximos meses diante do agravamento das condições climáticas.

O Barclays projeta alta de 4,9% para o IPCA em 2026 e de 4% em 2027. As estimativas incorporam riscos de alta associados a um El Niño muito forte. Para 2026, o fenômeno representa cerca de 20 pontos-base da projeção, principalmente pela expectativa de alimentos mais caros no último trimestre. Dependendo da intensidade dos impactos climáticos, essa contribuição pode chegar ao dobro. O último episódio de El Niño de maior intensidade, entre o quarto trimestre de 2015 e o primeiro trimestre de 2016, foi acompanhado por alta de 11,4% da alimentação no domicílio. Naquele período, a desvalorização do real, associada a uma crise política, também contribuiu para intensificar o movimento dos preços. A 4intelligence projeta alta de 5,09% para o IPCA de 2026, com 43 pontos-base explicados pelo El Niño. A alimentação no domicílio é considerada o principal canal de transmissão, com previsão de alta de 7,2% no ano, forte aceleração ante o avanço de 1,4% registrado em 2025, resultado historicamente baixo.

No início do ano, a estimativa para a inflação da alimentação no domicílio variava entre 4,5% e 5%. Sem os efeitos do fenômeno climático, a projeção da 4intelligence para o IPCA de 2026 ficaria em torno de 4,66%. A avaliação é de que o El Niño poderá provocar impactos relevantes na formação de preços e elevar o índice para acima de 5%, dependendo da intensidade e da duração dos efeitos sobre a oferta de alimentos. Além do impacto sobre a produção agrícola, a aproximação da principal temporada de plantio, entre setembro e outubro, amplia a preocupação com a disponibilidade e os preços dos fertilizantes. Segundo Secemski, os volumes importados estão abaixo da média histórica recente, o que aumenta o risco de escassez e de picos de preços dos insumos. Um El Niño muito forte nos próximos meses pode agravar esse quadro e ampliar simultaneamente as pressões sobre alimentos e energia. A Warren Investimentos também projeta que o El Niño será determinante para manter o IPCA de 2026 ao redor de 5,0%.

A instituição estima alta de 7,2% para a alimentação no domicílio no fechamento do ano, com os efeitos concentrados principalmente em novembro e dezembro. Além dos alimentos, a estabilização do petróleo em patamar elevado representa risco adicional para bens industriais e combustíveis no segundo semestre. O comportamento do IPCA de setembro será relevante para medir tanto a dissipação do choque do petróleo quanto o início dos efeitos do El Niño sobre os alimentos. Apesar das pressões esperadas em alimentos, bens industriais e combustíveis, as projeções permanecem, por enquanto, dentro de uma faixa considerada administrável pelos analistas. A desaceleração da atividade econômica também contribui para moderar a inflação de serviços, funcionando como fator de compensação parcial aos efeitos dos choques de oferta. Para 2027, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê intensificação do El Niño nos próximos meses, com possibilidade de o fenômeno atingir nível muito forte até o fim de 2026 e manter efeitos climáticos severos ao longo de 2027.

A probabilidade de persistência do evento até fevereiro de 2027 é estimada em quase 100%, em razão do aquecimento atípico das águas do Oceano Pacífico Tropical. A 4intelligence projeta alta de 4,5% do IPCA em 2027, com contribuição de 38 pontos-base do El Niño. Esse impacto pode chegar a 51 pontos-base, embora a perda de tração da atividade econômica possa reduzir as pressões sobre outros componentes do índice. Entre os fatores de incerteza adicional está uma eventual mudança na jornada de trabalho, como o fim da escala 6x1, que pode produzir efeitos inflacionários no curto prazo. A alimentação no domicílio permanece como principal foco de risco para 2027. A 4intelligence estima que a inflação desse grupo pode alcançar 10% em 12 meses até fevereiro de 2027. Na Warren Investimentos, a projeção para o IPCA de 2027 é de alta de 5,2%, com o El Niño respondendo por 60 pontos-base da estimativa, que também incorpora possíveis efeitos de alterações na escala 6x1.

A instituição projeta alta de 9,7% para a alimentação no domicílio em 2027 e prevê um choque climático distribuído ao longo do ano, com maior intensidade no primeiro e no último trimestre. Os efeitos do El Niño sobre a inflação podem se estender também ao setor de energia. Levantamento da Moody’s aponta que o fenômeno, embora tenha impactos distintos entre as regiões, amplia a exposição de países dependentes da geração hidrelétrica, como o Brasil, diante do risco de menor disponibilidade de água. Em episódios de El Niño, os preços de energia tendem a apresentar maior volatilidade, dependendo da disponibilidade e das cotações do gás natural, frequentemente utilizado como alternativa para geração elétrica. A combinação entre riscos climáticos sobre alimentos, menor disponibilidade hídrica e custos de energia mantém o fenômeno como um dos principais fatores de pressão para a inflação brasileira entre o fim de 2026 e ao longo de 2027. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.