15/Sep/2026
O Brasil pode aproveitar um momento único da economia mundial para atrair investimentos estrangeiros e crescer gastando pouco, conciliando ajuste fiscal e investimentos. Segundo o ex-diretor do Banco Central Luiz Awazu, coautor do estudo "Crescimento liderado pelo investimento na transição ecológica do Brasil", com um valor relativamente modesto, de R$ 25 bilhões por ano, metade das emendas parlamentares previstas para este ano, por exemplo, já seria possível mobilizar cerca de R$ 100 bilhões em investimentos relacionados à transição ecológica. O espaço no Orçamento viria de um ajuste fiscal gradual, com redução de gastos e diminuição das isenções de impostos, as chamadas despesas tributárias.
O governo usaria os recursos para viabilizar projetos promissores, capazes de elevar a sofisticação da cadeia produtiva brasileira, mas que não sairiam do papel sem esse apoio. Segundo ele, os investimentos poderiam começar pelos segmentos de ferro e aço de baixo carbono e de biocombustíveis avançados. "O Brasil tem ativos valorizados nessa nova economia: energia limpa competitiva, água, biodiversidade, agricultura avançada, biomassa, minerais críticos, grande mercado interno e relativa neutralidade geopolítica. O desafio é transformar vantagens passivas em atração de investimento, tecnologia e novas cadeias", diz Awazu, que também foi vice-presidente do Banco de Compensações Internacionais (BIS) e hoje é professor da London School of Economics. Segue a entrevista:
O senhor é um dos autores de um estudo que propõe destinar de R$ 25 bilhões a R$ 50 bilhões por ano para mobilizar investimento privado. Como isso seria possível?
Luiz Awazu: A tese central é que o Brasil precisa voltar a crescer pelo investimento. Responsabilidade fiscal é indispensável, mas não é uma estratégia completa de desenvolvimento. E estimular só consumo sem ampliar capacidade produtiva e produtividade gera inflação, importações, juros altos e novas dificuldades fiscais. Propomos uma terceira trajetória: consolidação fiscal gradual e crível, enquanto se mobiliza investimento privado para transformar a estrutura produtiva. A transição ecológica, a fragmentação geopolítica e a transformação tecnológica estão reorganizando produção, comércio e capital e trazem uma oportunidade histórica.
Por quê?
Luiz Awazu: O Brasil tem ativos valorizados nessa nova economia - energia limpa competitiva, água, biodiversidade, agricultura avançada, biomassa, minerais críticos, grande mercado interno e relativa neutralidade geopolítica. O desafio é transformar vantagens passivas em atração de investimento, tecnologia e novas cadeias. Como o espaço fiscal é limitado, o Estado não financiaria tudo. Usaria recursos públicos de forma seletiva e catalítica, preparando projetos, construindo infraestrutura comum, oferecendo garantias, reduzindo riscos cambiais e regulatórios e mobilizando volumes muito maiores de capital privado e investimento direto estrangeiro. Instrumentos como o orçamento verde, o Fundo Clima, o BNDES e o Eco Invest ilustram essa arquitetura.
Qual a lógica econômica dessa engenharia e o impacto fiscal?
Luiz Awazu: A lógica macroeconômica consiste em criar um círculo virtuoso. A consolidação fiscal gradual reduz a incerteza; os instrumentos públicos atraem investimento privado, que aumenta a produtividade, as exportações e a capacidade produtiva. O crescimento amplia a arrecadação; e a melhora das perspectivas econômicas reduz gradualmente os prêmios de risco e o custo do capital. Isso reforça a sustentabilidade da dívida e abre novo espaço para investir. Os R$ 25 bilhões a R$ 50 bilhões não seriam nova despesa sem fonte, viriam do espaço criado por um ajuste fiscal gradual e de melhor qualidade. A revisão permanente de gastos e de despesas tributárias e os ganhos de eficiência poderiam gerar economias de 0,2% a 0,4% do PIB. Uma parte reduziria déficit e dívida; outra financiaria instrumentos catalíticos para destravar investimento e crescimento.
Qual é o argumento econômico principal para afirmar que a transição ecológica abre uma janela rara para o Brasil?
Luiz Awazu: A transição está mudando preços relativos e a geografia da produção. Energia limpa, água, biomassa, biodiversidade e minerais críticos viraram ativos estratégicos. O Brasil reúne tudo isso em escala e já tem matriz elétrica quase toda renovável. A janela consiste em converter essa vantagem inicial em investimento, tecnologia e capacidade industrial antes que outros países ocupem essas cadeias.
Quais segmentos industriais tendem a se relocalizar para países com energia limpa e barata? Onde o Brasil é competitivo?
Luiz Awazu: A relocalização ocorre sobretudo nas etapas intensivas em energia: ferro e aço de baixo carbono, alumínio, fertilizantes, amônia, metanol, químicos básicos, hidrogênio e derivados, combustíveis sustentáveis e processamento de minerais críticos. O Brasil é mais competitivo quando combina eletricidade renovável, biomassa ou minerais com portos, logística, água e contratos de longo prazo.
Se tivesse que escolher dois pontos de entrada setoriais para essa estratégia em 2026-2027, quais seriam?
Luiz Awazu: Primeiro, biocombustíveis avançados e SAF: o Brasil já tem biomassa, etanol, tecnologia, empresas e infraestrutura, e pode avançar com menor risco e maior rapidez. Segundo, ferro e aço de baixo carbono. O País combina minério de alta qualidade, experiência siderúrgica e energia renovável, num contexto em que mercados externos começam a penalizar produtos com alta emissão.
O estudo sugere que cada R$ 1 público mobilizaria cerca de R$ 4,50. O que sustenta essa premissa?
Luiz Awazu: É uma razão de alavancagem observada ou utilizada em instrumentos como o Eco Invest. O Fundo Clima, por exemplo, pode ter alavancagem menor. A média depende da combinação de instrumentos, que podem ser garantias, primeiras perdas limitadas, financiamento misto, crédito de longo prazo, hedge cambial, cofinanciamento multilateral e contratos de compra. As hipóteses críticas são a existência de projetos rentáveis, regras estáveis, demanda assegurada, boa governança e participação realmente adicional do capital privado.
Como garantir que esse gasto não vire subsídio permanente nem substitua investimento privado?
Luiz Awazu: O apoio deve ser temporário, decrescente e condicionado a resultados, com adicionalidade comprovada. Exigir participação mínima de capital privado, compartilhamento real de riscos e data de encerramento. O Estado reduz riscos iniciais, não garante rentabilidade para sempre.
Quem tomaria as decisões sobre os gastos e como evitar captura política? Qual é a regra para interromper o apoio?
Luiz Awazu: Uma unidade técnica independente, com participação de ministérios econômicos e setoriais, BNDES, especialistas externos e órgãos de controle. As decisões seriam publicadas e teriam critérios comparáveis: capital privado mobilizado, produtividade, exportações, empregos qualificados, redução de emissões, desenvolvimento de fornecedores e risco fiscal. E os recursos seriam liberados por etapas. Sem licenças, contratos, capital privado ou metas no prazo, suspende-se automaticamente o próximo desembolso. Persistindo o descumprimento, o apoio é encerrado e os recursos, realocados.
Quanto o sucesso depende de acesso a mercados externos e certificação?
Luiz Awazu: Muito. Projetos grandes precisam de compradores e contratos longos. Barreiras ou certificações incompatíveis podem inviabilizar mesmo com custo competitivo. O Brasil deve negociar reconhecimento de certificações e rastreabilidade com União Europeia, Estados Unidos e Ásia e diversificar mercados.
Se pudesse escolher três mudanças regulatórias ou operacionais concretas para reduzir risco e acelerar projetos em 2026-2027, quais seriam?
Luiz Awazu: Primeiro, uma janela única de licenciamento e aprovação, com coordenação e prazos públicos, sem reduzir exigências ambientais. Em segundo lugar, organizar fila de conexão à rede elétrica, regras estáveis para transmissão e curtailment e calendário confiável de expansão. Terceiro, padronizar contratos, garantias, certificações e hedge cambial para acelerar análise e financiamento.
Como enxerga a crise recente no STF?
Luiz Awazu: É grave porque segurança jurídica e credibilidade institucional afetam o risco-país e o custo do capital. Conflitos públicos e dúvidas sobre imparcialidade podem pesar se a crise se prolongar ou interferir em decisões econômicas e no processo eleitoral. Mas o risco é relativo: também aumentou a incerteza nos EUA com as políticas comerciais, fiscais e geopolíticas do governo Trump. Isso pode reduzir a distância entre o risco atribuído às economias avançadas e a países emergentes que demonstrem estabilidade institucional e boas oportunidades de investimento.
A crise pode afetar investimentos?
Luiz Awazu: As instituições estão respondendo, e o efeito sobre investimentos tende a ser limitado. Tenho confiança na democracia brasileira. Desde a Constituição de 1988 o país superou crises e preservou a ordem constitucional e a alternância de poder. A crise exige transparência, apuração imparcial, decisões colegiadas e regras claras. Também é um momento que exige unidade nacional para resolver divergências dentro da Constituição e proteger a soberania diante de pressões externas. Unidade não significa ausência de divergências nem tolerância com erros institucionais. Significa resolver nossas diferenças dentro da Constituição, defender conjuntamente as instituições democráticas e não permitir que influências externas enfraqueçam a capacidade do país de decidir livremente seu próprio futuro.
Fonte: Broadcast Agro.