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16/Sep/2026

Brasil: crianças estão expostas às apostas online

A expansão das apostas online no Brasil, além de seus efeitos sobre adultos, como ludopatia, endividamento e perda de patrimônio, já alcança crianças e adolescentes. Pesquisa divulgada pela Frente Parlamentar Mista da Educação, do Congresso, em parceria com o Equidade.info, iniciativa do Lemann Center da Faculdade de Educação da Universidade Stanford, mostra que meninos começam a apostar muito cedo, em alguns casos aos 11 anos. O levantamento ouviu 1.912 estudantes, entre meninos e meninas, em 191 escolas de educação básica do País e identificou comportamento de alto risco. Entre os meninos, 27,8% disseram já ter feito apostas online, ante 12,6% entre as meninas. A proporção também aumenta conforme a idade. Entre os meninos matriculados nos anos finais do ensino fundamental, 19% relataram ter apostado, enquanto entre os estudantes do ensino médio o índice supera 40%.

Os dados evidenciam a vulnerabilidade de crianças e adolescentes diante das apostas, em uma fase marcada por menor capacidade de controle dos impulsos, maior atração por atividades que prometem recompensas rápidas e imaturidade biológica e emocional. Esse conjunto de fatores amplia a necessidade de proteção e vigilância sobre o acesso dos menores às plataformas de apostas. No Brasil, as apostas são proibidas para menores de 18 anos. O fato de 27,8% dos meninos e 12,6% das meninas entrevistados relatarem já ter realizado apostas demonstra, portanto, uma falha relevante na proteção desse público. O ECA Digital atribui às plataformas o dever de estabelecer mecanismos eficientes para impedir o acesso de crianças e adolescentes, tornando necessária uma fiscalização efetiva do cumprimento dessas obrigações.

A proteção, entretanto, também precisa começar dentro de casa. Os pais devem acompanhar o comportamento online dos filhos, monitorar os conteúdos acessados e impedir o contato com sites ilegais. Também é necessário evitar que menores utilizem perfis de adultos para acessar plataformas legalizadas. A eventual autorização ou facilitação desse acesso por responsáveis enfraquece as barreiras destinadas à proteção do público infantojuvenil. Mesmo com maior vigilância familiar, crianças e adolescentes permanecem expostos a estímulos externos. Entre os meninos, a proximidade com o futebol representa um fator adicional de preocupação. As plataformas de apostas estão presentes nas camisas de grandes clubes, patrocinam competições e utilizam atletas conhecidos em campanhas publicitárias, ampliando a exposição dos jovens a uma atividade que pode associar o esporte à expectativa de ganho rápido.

A participação de jogadores e outras figuras públicas nesse tipo de publicidade também aumenta a responsabilidade desses agentes sobre os efeitos de sua influência entre torcedores mais jovens. O problema está relacionado ao próprio funcionamento das apostas online, que combina a possibilidade de ganhos rápidos com o risco de comportamento compulsivo e a dificuldade de dimensionar as perdas. A pesquisa da Frente Parlamentar Mista da Educação e do Equidade.info reforça essa vulnerabilidade ao mostrar que a maior parte dos estudantes não sabe sequer se terá ganho ou perda financeira ao apostar. A falta de conhecimento sobre os riscos contribui para alimentar a percepção de que a atividade pode representar uma forma de obtenção fácil de dinheiro. O poder público precisa ampliar a resposta ao problema.

Uma das medidas centrais é a implementação de políticas eficazes de educação financeira, de modo que crianças e adolescentes compreendam que apostas não constituem investimento e envolvem risco de perda financeira. Paralelamente, os órgãos responsáveis precisam intensificar o combate às casas ilegais, com ações para identificar, retirar do ar e bloquear plataformas não autorizadas. A publicidade das apostas também exige revisão. A exposição permanente das bets em ambientes esportivos e na mídia contribui para normalizar a atividade e aproxima crianças e adolescentes de um produto potencialmente nocivo.

A proposta de proibição total da publicidade das apostas, tratada em projeto de lei suprapartidário em tramitação no Senado e com apoio de parlamentares de diferentes correntes políticas, coloca no centro do debate a necessidade de estabelecer limites semelhantes aos aplicados à divulgação de outros produtos com riscos relevantes à saúde e ao bem-estar. A proteção de crianças, adolescentes e jovens exige responsabilidade compartilhada entre famílias, Estado e empresas do setor. O artigo 227 da Constituição estabelece a obrigação de assegurar a esse público, com absoluta prioridade, direitos fundamentais e proteção contra formas de negligência e exploração. O avanço das apostas entre estudantes mostra que as barreiras existentes não são suficientes e que a prevenção precisa ser fortalecida antes que o contato precoce com a jogatina se transforme em dependência, endividamento e outros danos sociais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.