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16/Sep/2026

El Niño: Pacífico em nível extremo eleva risco agrícola

O El Niño 2026/27 atingiu uma intensidade excepcional no Oceano Pacífico Equatorial, elevando os riscos climáticos para a agricultura brasileira ao longo da primavera e do verão. Dados semanais da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) mostram que o fenômeno alcançou simultaneamente o patamar de intensidade muito forte pelos dois principais indicadores utilizados atualmente, o Índice Oceânico Niño (ONI) e o Índice Oceânico Niño Relativo (RONI). Na região Niño 3.4, referência para o monitoramento do fenômeno, a anomalia de temperatura da superfície do mar chegou a +2,9°C pelo ONI e a +2,0°C pelo RONI. O nível atual coloca o episódio entre os mais intensos da era moderna. Pelo ONI, a anomalia de +2,9°C se aproxima dos máximos registrados em eventos históricos, como os +3,0°C observados em 2015/16 e os +2,6°C de 1982/83. A principal diferença em relação a episódios anteriores está na velocidade de intensificação: o patamar de Super El Niño foi alcançado ainda em julho, enquanto nos grandes eventos históricos essa condição normalmente ocorreu mais tarde.

A utilização simultânea do ONI e do RONI é particularmente relevante para a avaliação da intensidade. O ONI utiliza uma referência climatológica fixa, enquanto o RONI ajusta a comparação ao processo de aquecimento global dos oceanos tropicais. A classificação atual pelos dois indicadores reduz a possibilidade de que o diagnóstico de intensidade seja resultado apenas da tendência de aquecimento de longo prazo e confirma que o Pacífico apresenta uma anomalia excepcional também em termos relativos. Os modelos climáticos indicam que o fenômeno ainda pode ganhar força. As projeções concentram o pico entre novembro e dezembro, com a mediana dos modelos apontando para uma possível aproximação da anomalia de +4°C na região Niño 3.4. Caso esse cenário se confirme, o El Niño 2026/27 poderá superar com ampla margem o patamar informal utilizado para caracterizar um Super El Niño e se aproximar dos episódios mais extremos já registrados. Para o Brasil, entretanto, a intensidade térmica do Pacífico não deve ser interpretada como uma relação linear com a magnitude dos impactos.

O padrão efetivo de chuva e temperatura depende também da circulação atmosférica, dos ventos, da distribuição das águas quentes e da interação do El Niño com outros sistemas climáticos. Dessa forma, o principal risco para a agricultura está na alteração do regime de precipitações e no aumento da frequência de eventos extremos, e não simplesmente no valor da anomalia oceânica. Os sinais observados no Brasil já indicam maior contraste regional. O Norte apresenta tendência de redução das chuvas e níveis mais baixos dos rios, enquanto o Sul, o Mato Grosso do Sul e parte do Sudeste enfrentam maior risco de precipitações excessivas. Projeções para o trimestre de outubro a dezembro indicam chuva acima a muito acima do normal no Centro-Sul, reforçando a possibilidade de novos episódios de alagamentos, enchentes e interrupções logísticas. Para a agricultura, o cenário aumenta a importância da janela de plantio e da distribuição das chuvas, principalmente para soja e milho. Excesso de precipitação no Sul pode dificultar a implantação das lavouras, reduzir a eficiência das operações mecanizadas, aumentar a pressão sobre doenças e provocar perdas localizadas por encharcamento.

Em sentido oposto, déficits de chuva no Norte e em áreas do Matopiba podem comprometer a emergência e o desenvolvimento inicial das lavouras caso a irregularidade pluviométrica persista. O risco também se estende ao arroz, especialmente no Rio Grande do Sul, onde o excesso de chuva pode elevar os problemas de implantação, manejo e produtividade. Nas demais culturas, o comportamento regional das precipitações será determinante para definir o potencial produtivo. A combinação entre excesso de água em algumas regiões e deficiência hídrica em outras tende a aumentar a dispersão das produtividades e a volatilidade dos preços agrícolas. O avanço do El Niño também eleva os riscos para logística e infraestrutura. Chuvas persistentes podem afetar estradas, pontes, ferrovias e operações portuárias, aumentando custos de transporte e dificultando o escoamento da produção. Ao mesmo tempo, níveis mais baixos de rios em áreas do Norte podem reduzir a eficiência do transporte hidroviário. Para o agronegócio, portanto, o impacto climático pode ocorrer simultaneamente sobre produtividade, custos e capacidade de movimentação de grãos.

O cenário exige maior cautela nas projeções de produção da safra 2026/27. A Conab projeta inicialmente uma produção recorde de 366,62 milhões de toneladas, alta de 1,4% ante as 361,72 milhões de toneladas de 2025/26, com área de 85,35 milhões de hectares, crescimento de 2,3%, e produtividade média de 4.296 kg por hectare, queda de 0,9%. A expansão da área sustenta o crescimento da produção, mas a evolução do clima será determinante para confirmar ou revisar esse potencial. Entre as culturas mais expostas, o milho apresenta produção projetada em 147,99 milhões de toneladas, alta de 2,8%, apesar de queda de 2% na produtividade média, para 6.244 Kg por hectare. O arroz tem previsão de 10,76 milhões de toneladas, recuo de 2,9%, com produtividade 3,7% menor. O comportamento do clima no Sul será particularmente importante para essas culturas, enquanto a evolução das chuvas no Centro-Oeste e no Matopiba será decisiva para soja e milho. O principal efeito econômico do Super El Niño, portanto, tende a ser o aumento da dispersão dos resultados agrícolas e da volatilidade.

Mesmo com uma produção potencialmente recorde, episódios de excesso ou falta de chuva podem gerar perdas localizadas, alterações no calendário de plantio e colheita, maior necessidade de replantio e pressão sobre custos. Em um mercado global de grãos já sensível a estoques, demanda e tensões geopolíticas, qualquer redução relevante da produtividade brasileira pode ter reflexos sobre preços internos e internacionais. O cenário climático também reforça a importância do monitoramento semanal das condições do Pacífico e das previsões de curto e médio prazo. O fato de o fenômeno ter atingido intensidade muito forte pelos dois indicadores da NOAA confirma um quadro de elevado risco climático, mas não determina isoladamente a magnitude das perdas agrícolas. A variável decisiva para a safra 2026/27 será a forma como o aquecimento do Pacífico se traduzirá em chuva, temperatura e eventos extremos nas diferentes regiões produtoras do Brasil. Fonte: ABC+. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.