20/Oct/2026
Segundo o Rabobank, a recuperação das margens agrícolas globais deve continuar lenta e desigual em 2027, diante da oferta elevada de grãos, dos custos de produção ainda pressionados e dos riscos climáticos associados ao El Niño. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, já está presente e deve persistir durante a maior parte do primeiro semestre de 2027, ampliando as incertezas sobre as safras. Com base em projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o El Niño não implica necessariamente perdas de produtividade, mas aumenta os riscos para as lavouras e pode levar os produtores a ajustar o planejamento e as estratégias de proteção. A perspectiva de recuperação das margens é mais favorável na Europa, caso as produtividades retornem aos padrões habituais. Na Austrália, por outro lado, os produtores devem continuar enfrentando custos elevados e maior exposição aos riscos climáticos.
O setor agrícola ainda atravessa uma fase de ajuste após o ciclo de forte rentabilidade registrado entre 2020 e 2023. Os preços elevados naquele período estimularam a expansão da oferta, contribuindo posteriormente para a redução das margens. Em resposta, produtores passaram a conter despesas, adiar investimentos e reduzir áreas destinadas a culturas menos rentáveis. Esse movimento faz parte de um ciclo de ajuste em que margens menores tendem a restringir a produção e, com o tempo, podem limitar a oferta e favorecer a recuperação dos preços. Entretanto, o Rabobank não identifica sinais de que essa reversão ocorrerá de maneira sincronizada entre países e culturas em 2027. A produção mundial de grãos e oleaginosas, incluindo a soja, está projetada no segundo maior nível já registrado. Os estoques permanecem elevados em termos históricos, embora algumas relações entre estoques e consumo estejam diminuindo. Esse quadro limita a possibilidade de altas prolongadas das commodities, mesmo diante de problemas pontuais de oferta.
Clima, geopolítica e redução dos estoques podem provocar movimentos de valorização nos próximos meses, mas a ampla disponibilidade global de produtos agrícolas dificulta uma recuperação sustentada. Na Europa, 2026 deve representar o ponto mais baixo do atual ciclo de margens agrícolas. As perdas de produtividade decorrentes da seca e o aumento dos custos dos insumos devem superar o efeito positivo da recuperação recente dos preços agrícolas. A produtividade do milho europeu está projetada em 6,61 toneladas por hectare, abaixo da média de cinco anos, de 7,08 toneladas por hectare. Na França, a estimativa é de 6,50 toneladas por hectare, ante a média histórica de 9,07 toneladas. A produtividade do trigo mole francês deve alcançar 6,80 toneladas por hectare, volume 4% inferior à média de cinco anos. Para a colza, cultura da qual se extrai o óleo de canola, a projeção é de 3,30 toneladas por hectare, próxima dos níveis históricos. No leste europeu, as condições são mais favoráveis, com as produtividades do trigo e do girassol na Romênia acima das respectivas médias de cinco anos.
Para 2027, a projeção é de recuperação de aproximadamente 16% a 35% nas margens agrícolas europeias em relação a 2026, condicionada à normalização das produtividades. A melhora deve ser impulsionada principalmente pela receita, estimada em alta de cerca de 10%, enquanto os custos dos insumos devem recuar menos de 5%. Nesse cenário, a rentabilidade retornaria para perto da média de cinco anos, embora os riscos climáticos e geopolíticos continuem relevantes. Na Austrália, as perspectivas são menos favoráveis. As margens agrícolas entraram em 2026 abaixo dos níveis históricos, pressionadas pela elevada produção global e pelo encarecimento dos fertilizantes, do diesel e do transporte. Como resposta, alguns produtores reduziram a aplicação de fertilizantes e transferiram áreas de trigo para culturas menos intensivas em insumos. Outros anteciparam compras de fertilizantes e ampliaram os estoques de diesel para reduzir os riscos de abastecimento, medidas que elevam a necessidade de capital de giro.
As condições favoráveis em Victoria e na Austrália do Sul, assim como a produção acima da média na Austrália Ocidental, contribuem para diluir os custos por tonelada produzida. Entretanto, a elevada oferta local pode pressionar os preços recebidos pelos agricultores e reduzir os benefícios da maior produtividade. Em Queensland e no norte de Nova Gales do Sul, a precipitação abaixo da média aumenta a vulnerabilidade das margens. Para 2027, o Rabobank espera que os custos elevados de fertilizantes, diesel e frete continuem comprimindo a rentabilidade australiana. O El Niño representa um risco adicional para as regiões do leste do país, onde as condições climáticas podem afetar o desempenho das lavouras. No mercado global, o banco avalia que a combinação de riscos climáticos, tensões geopolíticas e redução dos estoques pode provocar altas pontuais nas commodities agrícolas. Entretanto, a oferta mundial ainda elevada limita a possibilidade de valorização prolongada. Mercados específicos de soja podem apresentar estabilização ou melhora, mas uma recuperação simultânea e abrangente das margens agrícolas globais permanece improvável em 2027. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.