ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

20/Oct/2026

Crédito Rural: juros altos elevam a inadimplência

A inadimplência do crédito rural contratado por pessoas físicas alcançou 9,7% do saldo em agosto de 2026, o maior percentual da série histórica do Banco Central. O avanço não é explicado apenas pela relação entre o endividamento e a renda da agropecuária, mas também pelo encarecimento do financiamento, pela maior participação de operações com taxas livres de mercado e pela concentração das dificuldades financeiras em segmentos mais pressionados, principalmente o de grãos. O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP comparou dados do Banco Central, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Banco Mundial referentes ao período de 2013 a 2026. Em 2025, a dívida rural correspondia a 94% da renda anual da agropecuária, proporção dentro da faixa de 87% a 109% observada entre 2013 e 2019, quando a inadimplência média era de 2,1%. Em 2014, mesmo com a relação entre dívida e renda em 109%, a inadimplência estava em 1,3%. Para os autores, a diferença entre os períodos está no custo do endividamento, na composição das fontes de financiamento e na distribuição das dívidas.

O custo do crédito é um dos principais fatores de pressão. A taxa média dos financiamentos rurais para pessoas físicas aumentou de 6,3% ao ano em 2021 para 12,2% em 2025, acompanhando a elevação da taxa básica de juros (Selic). Segundo as estimativas dos pesquisadores, a despesa anual com juros sobre a carteira quase triplicou nesse intervalo, passando de aproximadamente R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, em valores de 2025. O comprometimento da renda da agropecuária com juros avançou de 3,9% para 11,4%. Outro fator é a mudança na composição das fontes de financiamento. Os recursos privados contratados a taxas livres, como os vinculados às Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), representavam 5% das contratações em 2013, alcançaram 47% em 2023 e correspondiam a 40% em 2025. Essas operações acompanham mais diretamente as condições de mercado e as variações da Selic, ampliando a exposição dos produtores ao custo financeiro. A inadimplência está concentrada justamente nessa parcela do crédito.

Em agosto, a taxa nas operações contratadas a mercado alcançou 17,6%, ante 3,8% nas linhas com taxas controladas. Embora representassem cerca de 43% do saldo de crédito rural das pessoas físicas, as operações a taxas de mercado concentravam aproximadamente 77% do valor em atraso, conforme as estimativas do estudo. A concentração indica que a deterioração está mais acentuada na modalidade cuja participação aumentou nos últimos anos. A pressão sobre a capacidade de pagamento também está relacionada à redução das margens na produção de grãos. Entre 2021 e 2025, os preços reais do grupo recuaram 28%. Ao mesmo tempo, o custo relativo dos fertilizantes aumentou: em 2025, uma tonelada de fosfato diamônico (DAP) equivalia a 29,1 sacas de soja, ante média de 16,7 sacas entre 2010 e 2019, indicando uma relação de troca menos favorável ao produtor. A taxa de inadimplência de 9,7% representa apenas parte da deterioração da carteira, pois considera operações de pessoas físicas com parcelas vencidas há mais de 90 dias.

Uma medida mais abrangente do Banco Central, que inclui também contratos em atraso, renegociados e prorrogados, apontava R$ 205 bilhões em operações problemáticas em agosto, equivalentes a 23,8% da carteira ativa de crédito rural. Desse montante, R$ 105 bilhões correspondiam a operações renegociadas, R$ 31 bilhões a contratos prorrogados, R$ 48 bilhões a valores inadimplentes e R$ 21 bilhões a parcelas em atraso. Assim, aproximadamente três quartos do saldo classificado como problemático não apareciam na taxa convencional de inadimplência, o que evidencia a necessidade de considerar também as renegociações e prorrogações na avaliação das condições financeiras do setor. A situação apresenta diferenças regionais importantes. No Rio Grande do Sul, 39,2% da carteira de crédito rural estava classificada como problemática em agosto, mas a inadimplência correspondia a 3,2%. Renegociações e prorrogações representavam 32,7% da carteira, em grande parte relacionadas às medidas adotadas após as enchentes de maio de 2024.

Nesse caso, o choque climático concentrado no tempo foi seguido por prorrogações e renegociações dos compromissos financeiros. Nos Estados produtores de grãos do Centro-Oeste e do Matopiba, a deterioração aparece de forma mais direta na inadimplência. A taxa alcançou 8,8% em Goiás, 7,4% em Mato Grosso do Sul e 6,3% em Mato Grosso. No Maranhão e no Tocantins, superou 15%, indicando maior comprometimento da capacidade de pagamento em determinadas regiões produtoras. Entre 2021 e 2024, o investimento agropecuário cresceu 44%, enquanto a renda recuou 14%. Em 2025, o crédito rural financiou 36% dos investimentos, e os 64% restantes foram cobertos por recursos próprios, Cédulas de Produto Rural (CPR), financiamento de fornecedores e operações de leasing. As estatísticas disponíveis, porém, não permitem determinar quanto desse financiamento alternativo corresponde a endividamento. Uma das hipóteses consideradas pelos pesquisadores é que parte das dívidas de investimento contratadas durante o período de margens mais elevadas, entre 2020 e 2022, começou a vencer quando a rentabilidade da produção de grãos diminuiu e os juros aumentaram.

O estudo ressalva que os dados não permitem comprovar uma relação direta de causa e efeito. A capacidade de pagamento dos investimentos depende da geração de caixa operacional e, quando as margens diminuem, até financiamentos contratados em condições mais favoráveis podem deixar de caber no fluxo financeiro das propriedades. As medidas públicas de renegociação tiveram alcance limitado até o momento. A Medida Provisória 1.376/2026 havia viabilizado a renegociação de R$ 5,98 bilhões até 5 de outubro, aproximadamente 5% dos R$ 120 bilhões estimados pelo governo. Desse total, apenas 1,3% correspondia a dívidas de investimento, enquanto 80% dos valores renegociados estavam concentrados no Rio Grande do Sul. Para o Cepea, o principal desafio da política pública é diferenciar as situações de endividamento, considerando as causas e as condições financeiras de cada produtor, em vez de adotar uma abordagem uniforme. O estudo também destaca lacunas de informação sobre inadimplência por finalidade do financiamento, renegociações realizadas diretamente entre credores e produtores e dívidas que não integram o sistema financeiro. Fonte: Cepea. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.