21/Oct/2026
O sistema de cooperativas financeiras Sicoob abriu uma nova frente na gestão de passivos, depois de captar quase R$ 1 bilhão em Letras Financeiras (LFs). A operação marcou o primeiro grande "cartão de visitas" da instituição na ‘Faria Lima’ e desmonta a barreira que historicamente afastou o setor cooperativo do mercado de capitais. Durante o processo, o Sicoob apresentou o modelo de negócios para 75 gestoras de recursos e distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMs) em roadshows presenciais. A oferta havia sido inicialmente estruturada em cerca de R$ 800 milhões, mas encontrou demanda mais de quatro vezes superior, de R$ 3,23 bilhões.
No fim, a emissão atingiu R$ 973,3 milhões, em duas séries com vencimentos em dois e três anos. Com o apetite dos investidores, a rede cooperativa já estuda explorar instrumentos mais sofisticados para alçar voos maiores na estratégia de diversificação de funding. "O nosso sistema tem crescido bastante e o negócio ganhou uma complexidade que não nos permite mais depender apenas de uma ou outra linha de funding", afirma o diretor Administrativo e Financeiro do Sicoob, Janderson Facchin. Tradicionalmente, as cooperativas de crédito no Brasil captam recursos por mecanismos típicos de varejo. O principal deles é o Recibo de Depósito de Cooperativas (RDC), equivalentes aos Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) dos bancos tradicionais.
Os títulos são emitidos diretamente para os associados e oferecem rentabilidade atrelada ao CDI ou prefixada. O setor extrai liquidez ainda do elevado volume de depósitos à vista e caderneta de poupança dos cooperados. Com forte atuação no agronegócio, as instituições cooperativas também emitem as Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) para ajudar no financiamento da safra e custeio dos produtores locais. O leque de opções sustenta um perfil de liquidez robusto, diante da capilaridade do modelo cooperativo. No Sicoob, são mais de 10,2 milhões cooperados e um saldo captado em RDC de R$ 346 bilhões, de acordo com Facchin.
Essa base abre acesso a uma captação a custos baixos, sem a necessidade de desembolsar prêmios altos a fundos de investimentos. No entanto, os veículos tradicionais de financiamento tendem a ser de curto prazo ou liquidez diária, o que produz desafios para atender às demandas de crédito de prazo mais longo, como o do agronegócio e o imobiliário. Justamente para alongar prazos na administração dos passivos, o Sicoob começa a recorrer ao mercado de capitais. Na primeira etapa da nova estratégia, a instituição deve continuar optando pelas letras financeiras, mas outras alternativas já estão em discussão.
O sistema cooperativo mantém conversas com entidades multilaterais, como o International Finance Corporation (IFC, ligado ao Banco Mundial) e o banco de desenvolvimento da Alemanha DEG. No futuro, até a emissão de Bonds no mercado internacional poderão ser avaliadas, embora ainda não haja um mandato do Conselho para esse tipo de operação. A evolução será feita de maneira gradual, porque o Sicoob dispõe de uma posição de capital forte, explica Facchin. "Hoje a gente tem muito mais depósito do que crédito. Isso me gera uma liquidez muito grande e me dá a tranquilidade de montar uma estratégia de longo prazo, executando com o tempo, sem a necessidade de pegar recurso às pressas para colocar liquidez no sistema", afirma. Fonte: Broadcast Agro.