26/Oct/2026
A baixa produtividade constitui um dos principais entraves ao crescimento econômico e à convergência de renda do Brasil em relação às economias mais desenvolvidas. Em meados da década de 1980, o Brasil e a Coreia do Sul apresentavam níveis próximos de produtividade por hora trabalhada. Em 2023, entretanto, a economia sul-coreana produzia cerca de 2,7 vezes mais por hora, enquanto a produtividade do Uruguai era quase o dobro da brasileira. A diferença reflete trajetórias distintas entre economias emergentes, especialmente as do Leste Asiático, que avançaram de forma consistente, enquanto o Brasil não conseguiu sustentar o processo de convergência. O desempenho da agropecuária demonstra que a economia brasileira tem capacidade para registrar ganhos expressivos de eficiência, embora esses avanços não tenham se disseminado de maneira uniforme. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), entre 1995 e 2024, a produtividade por hora trabalhada na agropecuária cresceu, em média, 5,8% ao ano, enquanto a produtividade da indústria de transformação recuou 0,9% ao ano.
O contraste evidencia a dificuldade de ampliar os ganhos de eficiência para outros setores da economia. Parte das limitações está relacionada às regras que condicionam as decisões empresariais e à estrutura de proteção comercial. Embora tarifas de importação sejam frequentemente justificadas como mecanismos de defesa da produção nacional, o encarecimento de máquinas, equipamentos e componentes importados pode elevar os custos de empresas que dependem desses insumos para investir, modernizar operações e competir. Estudos sobre a abertura comercial brasileira na década de 1990 indicam que a redução das tarifas incidentes sobre insumos contribuiu para elevar a produtividade das empresas, demonstrando que a proteção concedida a determinados segmentos pode impor custos a outras etapas das cadeias produtivas.
As restrições à concorrência também estão presentes no ambiente regulatório. Indicadores da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam barreiras elevadas à entrada de empresas e à competição no Brasil. Exigências regulatórias injustificadas, tratamentos diferenciados e vantagens prolongadas podem distorcer as condições de mercado, dificultando a entrada de novos concorrentes e a expansão de empresas mais eficientes. Nesse ambiente, negócios estabelecidos podem preservar posições protegidas, mesmo quando apresentam desempenho inferior ao de potenciais concorrentes. Os efeitos dessas distorções ultrapassam os resultados individuais das empresas e comprometem a produtividade agregada da economia. Quando uma firma eficiente amplia suas operações, alcança mais consumidores e pressiona concorrentes a melhorar o desempenho.
Novos negócios também introduzem tecnologias, métodos de gestão e formas de organização da produção, enquanto capital e mão de obra podem migrar para atividades de maior valor agregado. Dessa forma, os ganhos nacionais dependem tanto da eficiência interna das empresas quanto da capacidade de expansão daquelas que apresentam melhores resultados. Barreiras à entrada e restrições à concorrência limitam esse processo de realocação de recursos. A redução dos entraves regulatórios, contudo, precisa ser acompanhada de condições que permitam às empresas aproveitar as oportunidades de modernização. A incorporação de máquinas e tecnologias depende de trabalhadores qualificados, gestão eficiente e pesquisa capaz de adaptar soluções às necessidades produtivas. Educação de qualidade, infraestrutura e segurança jurídica constituem responsabilidades do Estado para criar condições favoráveis ao investimento privado.
Esses bens públicos devem ser diferenciados de subsídios e benefícios seletivos concedidos sem comprovação de resultados, cuja eficácia precisa ser avaliada em função dos benefícios econômicos, dos custos e das alternativas disponíveis. As mudanças também envolvem custos de transição que podem se concentrar em determinadas regiões e grupos de trabalhadores. Estudos sobre a abertura comercial dos anos 1990 identificaram localidades nas quais os efeitos negativos relativos sobre emprego e renda persistiram por décadas. A mudança nas tarifas e nas regras de mercado pode ocorrer mais rapidamente do que a criação de novas oportunidades de trabalho, dificultando a recolocação de trabalhadores e a recuperação da renda familiar. Por isso, as reformas precisam contemplar mecanismos temporários de proteção e programas efetivos de reinserção profissional, com formação vinculada à demanda do mercado de trabalho e avaliação dos resultados.
A proteção às famílias afetadas exige enfrentar os custos sociais da transição sem perpetuar empresas improdutivas e privilégios como instrumentos permanentes de assistência. A retomada do crescimento sustentado da produtividade brasileira depende, portanto, da revisão dos incentivos econômicos, da redução de barreiras à concorrência e da avaliação criteriosa de subsídios e mecanismos de proteção. Vantagens injustificadas precisam ser revistas, enquanto o acesso a insumos, máquinas e tecnologias deve favorecer os investimentos e a modernização produtiva. Ao Estado cabe assegurar os bens públicos necessários para que empresas e trabalhadores aproveitem essas oportunidades. Um ambiente no qual os negócios cresçam pela capacidade de atender melhor aos consumidores tende a ampliar os ganhos de eficiência e sua conversão em renda, competitividade e oportunidades econômicas, criando condições para reduzir a distância entre o Brasil e as economias mais prósperas. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.