28/Oct/2026
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) coloca o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) diante do desafio de superar os conflitos internos da atual gestão e garantir recursos orçamentários e pessoal para manter as pesquisas oficiais e retomar projetos estratégicos a partir de 2027. Apesar do desgaste entre a direção e parte do corpo técnico, profissionais e ex-dirigentes mantêm a confiança nos procedimentos estatísticos do órgão e apontam avanços na reposição de servidores e na preservação de recursos para levantamentos como a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e o Censo Agropecuário. Durante o terceiro governo Lula, as divergências entre os servidores e o presidente do IBGE, Márcio Pochmann, foram agravadas por mudanças em cargos importantes, entre eles a coordenação de Contas Nacionais, responsável pela divulgação do Produto Interno Bruto (PIB).
A continuidade dos conflitos ampliou as críticas à condução administrativa do instituto, embora não tenha comprometido a divulgação das estatísticas oficiais. A reeleição também afastou, entre servidores e ex-dirigentes, o temor de uma retomada do modelo adotado durante o governo Jair Bolsonaro (PL), período marcado por restrições orçamentárias, atraso no Censo Demográfico e questionamentos sobre as estatísticas oficiais. A realização do Censo 2022, naquele contexto, dependeu de decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) para assegurar recursos à operação. O desafio imediato da próxima gestão será recompor as relações internas. Em agosto, servidores do Rio de Janeiro e da Bahia realizaram uma greve de aproximadamente 18 dias contra mudanças nas regras de trabalho dos novos funcionários, na progressão da carreira e na remuneração da indenização de campo. A paralisação não interrompeu a divulgação das estatísticas, mas aprofundou o desgaste da direção.
Os servidores também criticam decisões consideradas unilaterais, transferências avaliadas como arbitrárias e falta de diálogo e transparência. Após a greve, os trabalhadores iniciaram negociações com o governo para formalizar um acordo que compense os dias parados e evite descontos salariais. A conclusão do entendimento ainda enfrenta entraves. Uma fonte ouvida sob reserva avalia que a posição de Pochmann está fragilizada perante o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), ao qual o IBGE está subordinado, inclusive pela resistência em remunerar os dias de paralisação durante o período eleitoral. É necessário restabelecer um ambiente de trabalho com menos tensões para que o órgão cumpra suas atribuições. A avaliação reforça a preocupação de profissionais e ex-dirigentes com a preservação da capacidade técnica do instituto e com a necessidade de melhorar a relação entre a direção e as equipes responsáveis pelas pesquisas.
A recomposição do quadro de pessoal será um dos principais desafios a partir de 2027. O Concurso Nacional Unificado (CNU) não preencheu todas as vagas disponíveis, e o instituto precisará avaliar se mantém esse modelo de seleção ou realiza concursos próprios. Também preocupa a dependência de trabalhadores temporários em funções permanentes, em um cenário de aposentadorias e dificuldades para atrair e reter profissionais. Os salários pouco atrativos contribuíram para a saída de parte dos novos servidores, enquanto as aposentadorias continuam reduzindo o quadro funcional. A escassez de profissionais limita tanto a execução das atividades regulares quanto a capacidade de desenvolver metodologias e incorporar novas tecnologias. O problema pode comprometer a continuidade e a modernização das pesquisas se não houver medidas para recompor as equipes. O orçamento também será determinante para retomar projetos que enfrentam restrições financeiras.
Entre as prioridades está a realização contínua da Pesquisa de Orçamentos Familiares, que permitiria acompanhar com maior frequência as mudanças na estrutura de consumo das famílias brasileiras. A disponibilidade de recursos a partir de 2027 será importante para viabilizar esse tipo de iniciativa sem comprometer os levantamentos regulares. Outra prioridade é iniciar o quanto antes o planejamento do Censo Demográfico de 2030. A complexidade logística e operacional da pesquisa exige preparação antecipada e previsão orçamentária adequada. A experiência do Censo 2022 reforça a importância de assegurar recursos com antecedência para evitar atrasos e riscos à execução do levantamento. Além das questões administrativas e orçamentárias, ex-presidentes e servidores defendem mudanças nos critérios de escolha da presidência do IBGE, com maior peso para a experiência técnica e a capacidade de gestão. Entre as propostas estão a formação de uma lista tríplice, a escolha pela comunidade do instituto, em modelo semelhante ao de universidades federais, e a realização de concurso público para selecionar o dirigente.
Um mandato fixo de quatro anos, com início e término diferentes dos do mandato presidencial, à semelhança do modelo adotado pelo Banco Central, seria interessante. A proposta busca reduzir a influência das mudanças de governo sobre a condução do órgão estatístico. Outra sugestão é a realização de um concurso aberto a candidatos internos e externos, com pontuação adicional para profissionais que já conheçam a instituição. Formação acadêmica, currículo e capacidade de articulação também seriam considerados. A seleção deve priorizar experiência em gestão pública, habilidade para ouvir as equipes técnicas e disposição para compartilhar decisões com especialistas e representantes da sociedade. A capacidade de recompor o quadro de pessoal, assegurar financiamento para as pesquisas e restabelecer a confiança interna será central para manter a regularidade das estatísticas oficiais e preparar os próximos projetos estratégicos do instituto. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.