23/Oct/2026
O El Niño forte amplia os riscos climáticos para a safra de soja 2026/27 e pode comprometer o calendário de semeadura do milho e do algodão cultivados na sequência. Eventuais atrasos no desenvolvimento ou na colheita da oleaginosa podem reduzir a janela disponível para a 2ª safra de 2027 e aumentar a exposição das culturas à diminuição das chuvas no outono. As previsões de precipitação irregular e temperaturas elevadas na Região Centro-Oeste e no Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) preocupam especialistas da Ampere Meteorologia e da EarthDaily Agro. Nas áreas de Mato Grosso, Goiás e Matopiba, onde a semeadura da soja ocorre principalmente entre outubro e novembro, a floração e o enchimento dos grãos devem se concentrar entre dezembro e fevereiro. As projeções para o período de novembro a janeiro indicam chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas, coincidindo com fases de maior demanda hídrica da cultura.
A combinação de déficit de umidade e calor pode comprometer o desenvolvimento das plantas e reduzir o potencial produtivo. O El Niño também pode favorecer bloqueios atmosféricos, prolongando os períodos secos durante etapas críticas da soja. Além disso, o fenômeno tende a retardar o estabelecimento da Monção Sul-Americana, sistema responsável por intensificar e regularizar as chuvas da primavera e do verão no Brasil Central. A alternância entre precipitações irregulares, dias secos e temperaturas elevadas dificulta a recuperação consistente da umidade do solo. No Matopiba, há possibilidade de agravamento da irregularidade das chuvas em novembro, principalmente no Tocantins e no sul do Maranhão. Para janeiro, a previsão indica precipitações mais intensas e abrangentes, especialmente no oeste da Bahia, com recuperação da umidade. As projeções para o trimestre de novembro a janeiro, contudo, não detalham a distribuição mensal das chuvas em todas as áreas produtoras.
O calendário de plantio também será determinante para a exposição ao risco climático. Não existe uma data única até a qual seja possível adiar a semeadura sem comprometer a produtividade, uma vez que a tolerância ao atraso depende do ciclo da cultivar, da região e da janela agronômica disponível. Na Região Sul do Brasil, o cenário é distinto, com previsão de chuvas frequentes e risco de umidade elevada também no sul de Mato Grosso do Sul e em São Paulo. O excesso de precipitação pode dificultar o manejo das lavouras e favorecer a ocorrência de doenças. A menor incidência de radiação solar durante o desenvolvimento da soja também representa um fator de atenção, embora precipitações acima da média não impliquem necessariamente perdas de produção. A distribuição regional da cultura influencia a capacidade de compensação entre as diferentes áreas produtoras. Segundo a Céleres, a participação da Região Sul na área brasileira de soja caiu de 47,4% em 1997/98 para 27,7% na projeção para 2026/27.
Com a redução dessa participação, eventuais ganhos de produtividade nas regiões historicamente favorecidas pelo El Niño teriam menor capacidade de compensar perdas no Centro-Norte do País. No cenário pessimista de ocorrência do fenômeno apresentado no informativo de outubro, a Céleres estima produção brasileira de soja de 169,8 milhões de toneladas, ante 183,5 milhões de toneladas no cenário-base. A diferença de 13,7 milhões de toneladas corresponde a uma simulação de risco, e não a uma quebra de safra já constatada. Nessa hipótese, as exportações recuariam de 115,5 milhões para 104,7 milhões de toneladas, enquanto o processamento doméstico diminuiria de 65 milhões para 62,9 milhões de toneladas. O histórico de episódios fortes do fenômeno indica efeitos distintos conforme a cultura. Nos quatro eventos analisados desde 1980 pela Ghia Multi Family Office, a produção de soja ficou, em média, 0,7% acima da tendência, enquanto a de algodão registrou resultado 25,9% inferior e a de milho, 11,1% abaixo.
O levantamento não considera as particularidades de cada episódio e deve ser interpretado como referência de risco, não como previsão para a safra 2026/27. A duração do El Niño amplia a preocupação com a 2ª safra de 2027. A StoneX projeta que o fenômeno permaneça entre forte e muito forte até o início de 2027, com probabilidade de 70% de retorno à neutralidade no trimestre de maio a julho. Mesmo com o enfraquecimento previsto, a transição não assegura condições hídricas favoráveis no momento necessário para o desenvolvimento das culturas subsequentes. Para abril e maio, a Ampere prevê chuvas abaixo da média nas principais regiões produtoras do Brasil Central, período em que parte das lavouras de milho estará nas fases de floração e enchimento dos grãos. Em Mato Grosso e Goiás, atrasos na soja podem postergar a liberação das áreas e ampliar a exposição do cereal à falta de água. No algodão, o risco é maior nas regiões em que a implantação da cultura depende da conclusão da colheita da oleaginosa.
No Paraná, a expectativa é de menor risco de restrição hídrica durante o outono, embora o excesso de umidade possa favorecer doenças e dificultar as operações agrícolas. Antes dessa etapa, a recorrência das chuvas durante a colheita da soja também pode atrasar a semeadura do milho, conforme as avaliações das consultorias. O enfraquecimento do El Niño, portanto, não garante condições favoráveis para a 2ª safra de 2027. Caso o plantio do milho ocorra tardiamente, sobretudo em Mato Grosso e Goiás, a menor disponibilidade de água poderá comprometer o desenvolvimento das lavouras. A evolução das chuvas, o ritmo da colheita da soja e a liberação das áreas serão fatores decisivos para determinar a exposição climática e o potencial produtivo das culturas ao longo de 2027. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.