10/Jul/2026
A forte valorização dos contratos futuros de café nas bolsas internacionais resulta da combinação entre fatores climáticos, atraso na colheita brasileira e intensa movimentação de fundos de investimento, embora esse cenário ainda não altere as expectativas de produção recorde no Brasil em 2026/27. A avaliação predominante entre analistas é de que a alta recente foi potencializada por fatores técnicos e financeiros, além dos fundamentos ligados à oferta de curto prazo. Entre os fatores que sustentaram o movimento estão as chuvas atípicas registradas nas regiões produtoras brasileiras, que retardaram o avanço da colheita, reduziram o ritmo de comercialização pelos produtores e elevaram as preocupações quanto à qualidade dos grãos. Paralelamente, investidores passaram a incorporar riscos relacionados à possibilidade de formação de um super El Niño, cenário que pode provocar clima mais quente e seco no Sudeste Asiático e manter volumes elevados de chuva em áreas produtoras brasileiras.
A combinação desses fatores, somada aos baixos estoques nos países consumidores e à menor disponibilidade de café para venda, mantém elevada a volatilidade do mercado. No principal polo produtor de café arábica do Brasil, no Sul de Minas Gerais, o atraso da colheita reduziu o volume ofertado ao mercado físico. Além da menor comercialização, agentes do setor observam preocupação com possíveis perdas de qualidade decorrentes da umidade excessiva, novas previsões de chuva e riscos pontuais de frio nas áreas cafeeiras. Levantamento da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé) confirma esse cenário. Até 3 de julho, a colheita havia alcançado 30,9% da área atendida pela cooperativa. No mesmo período, os índices registrados foram de 40,4% em 2025, 51,6% em 2024, 42,7% em 2023, 33,3% em 2022, 35,6% em 2021 e 43,9% em 2020. Segundo a cooperativa, as chuvas de junho provocaram maior queda de frutos, aumentando o contato dos grãos com o solo e elevando os riscos de redução da qualidade.
Em regiões mais quentes, a alta umidade também favorece perdas qualitativas nos frutos ainda presos às plantas e amplia a incidência de doenças, embora reduza a pressão de pragas como o bicho-mineiro. A Cooxupé considera, entretanto, que ainda é prematuro mensurar eventuais perdas produtivas ou qualitativas, avaliação que somente poderá ser concluída após o encerramento da colheita. Dados da StoneX mostram que, até 6 de julho, a colheita brasileira alcançava 55% da área cultivada, abaixo dos 64% registrados no mesmo período da safra anterior. No café arábica, o atraso é ainda maior, com avanço de 45%, ante 54% no ano passado. Apesar desse quadro, a consultoria mantém a projeção de safra recorde de 75,3 milhões de sacas na temporada 2026/27, das quais 50,2 milhões de sacas de 60 Kg correspondem ao café arábica, volume 37% superior ao do ciclo anterior. Nos mercados futuros, o movimento de valorização foi intensificado pelo reposicionamento dos fundos de investimento e pela cobertura de posições vendidas.
Dados do relatório Commitment of Traders (COT), referentes à semana encerrada em 30 de junho e divulgados em 7 de julho, mostram que os investidores não comerciais elevaram a posição líquida comprada em 201,15%, para 8.149 contratos, equivalentes a 2.310.205 sacas. No mesmo período, os participantes comerciais ampliaram a posição líquida vendida em 26,11%, para 37.458 contratos, equivalentes a 10.619.177 sacas de 60 Kg. Segundo a StoneX, os fundamentos justificam parte da valorização observada, mas não explicam integralmente a intensidade do movimento. Entre os fatores de curto prazo estão o atraso da colheita, as preocupações com a qualidade dos grãos, os baixos estoques certificados da ICE e os riscos associados ao El Niño. Entretanto, a superação da marca de 300 centavos de dólar por libra-peso desencadeou sucessivos acionamentos de ordens automáticas de proteção e cobertura de posições vendidas, ampliando significativamente a alta.
Esse movimento ficou evidente no pregão de 6 de julho, quando o contrato com vencimento em setembro de 2026 avançou 16,18%, atingindo máxima de 357,00 centavos de dólar por libra-peso, configurando um dos maiores ganhos diários desde o início da divulgação histórica das variações pela Bolsa de Nova York. A Datagro avalia que a recuperação inicial dos preços, até aproximadamente 280,00 centavos de dólar por libra-peso, era compatível com fundamentos como atraso da safra brasileira, estoques globais reduzidos e preocupações com a qualidade dos cafés finos. A partir desse nível, entretanto, o mercado passou a apresentar predominância de fatores técnicos. O pregão de 30 de junho registrou o maior volume negociado em 2026, com 94.118 contratos, acompanhado de forte movimentação de operações Trade at Settlement (TAS), utilizadas principalmente por grandes investidores para ajustes de posições.
Os dados do COT também indicaram aumento de aproximadamente 5,4 mil contratos na posição líquida comprada dos fundos, reforçando a predominância do fluxo financeiro na recente valorização. Os estoques certificados da ICE permanecem como importante fator de sustentação no curto prazo. Segundo a StoneX, os atuais diferenciais de preços não incentivam produtores e exportadores a certificarem novos lotes, enquanto consumidores seguem retirando café desses estoques, especialmente de cafés de melhor qualidade, segmento que permanece mais restrito. Além do Brasil, o mercado acompanha as condições climáticas no Vietnã, maior produtor mundial de café robusta. A possibilidade de um El Niño mais intenso no Sudeste Asiático mantém as atenções voltadas para o desenvolvimento da próxima safra vietnamita, especialmente diante de previsões de precipitações abaixo da média nas próximas semanas.
Para o Brasil, contudo, eventuais impactos climáticos relevantes tendem a se concentrar sobre a próxima temporada, sendo pouco provável uma revisão significativa da estimativa da atual safra. Embora o mercado permaneça sensível às previsões meteorológicas e ao comportamento dos investidores, a expectativa estrutural continua apontando para aumento da oferta brasileira à medida que a colheita avance. A correção registrada após o pico recente dos preços reforça essa avaliação. Depois de encerrar o pregão de 6 de julho a 349,95 centavos de dólar por libra-peso, os contratos devolveram parte dos ganhos e fecharam em 309,80 centavos de dólar por libra-peso na sessão seguinte, comportamento considerado compatível com um movimento amplificado pelo fluxo financeiro em um ambiente de fundamentos ainda favoráveis à expansão da oferta. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.