25/Aug/2026
A retirada do café solúvel brasileiro do tarifaço dos Estados Unidos ocorreu em um momento de expansão do consumo de bebidas prontas para consumo (ready-to-drink, ou RTD) e cold brew (café preparado em água fria) no mercado americano, criando oportunidades para o produto, avalia o presidente e CEO da National Coffee Association (NCA), a associação de café dos Estados Unidos, William "Bill" Murray, em entrevista. O cenário abre espaço para o Brasil ampliar sua presença como fornecedor de café solúvel. Entre janeiro e julho, as exportações do produto cresceram 10,9% ante igual período de 2025, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics).
Os Estados Unidos foram o principal destino, com 8,4 mil toneladas, embora o volume tenha recuado 12% na comparação anual. Em julho, porém, os embarques brasileiros de solúvel aos Estados Unidos cresceram 9,5%, para 1,3 mil toneladas. À medida que retirou o café solúvel sem aromatizante da lista de produtos sujeitos à nova tarifa foi anunciada na segunda quinzena de julho e entrou em vigor nos últimos dias do mesmo mês. Para Murray, a produção de solúvel próxima à origem da matéria-prima e sua utilização na fabricação de bebidas nos Estados Unidos exemplificam a interdependência da cadeia global do café.
"Muitas vezes, é mais eficiente produzir café solúvel perto de onde os grãos de café verde são cultivados, inclusive no Brasil", afirmou. O executivo também destacou o diferencial de preço do instantâneo. Segundo ele, o café solúvel custa aos norte-americanos cerca de US$ 0,06 a 0,07 por xícara, ante aproximadamente US$ 0,30 por xícara ou mais para o café torrado e moído. A NCA considera que o comércio sem tarifas tem papel importante para preservar a acessibilidade da bebida, consumida diariamente por dois terços dos adultos americanos. Segue a entrevista:
O que a decisão de manter o café brasileiro fora das tarifas dos EUA, e de incluir o café solúvel nas exceções, representou para a indústria americana? A NCA vê a medida como solução de longo prazo?
William Murray: A NCA aplaudiu a decisão estratégica do presidente (Donald) Trump de retirar as tarifas das importações de café, inclusive por adicionar o café solúvel sem aromatizante às exceções, em reconhecimento aos benefícios únicos do café para os consumidores americanos, as empresas do setor e a economia dos Estados Unidos. O país não pode cultivar café em quantidade suficiente para atender às suas necessidades. Por isso, as exceções estratégicas da administração contribuem para aliviar as pressões sobre o custo de vida e permitem que o café continue dando uma enorme contribuição aos empregos, à indústria e à economia americana. Embora seja impossível calcular o impacto exato de um único fator, como as tarifas, está claro que o comércio de café sem tarifas desempenha um papel fundamental na acessibilidade da bebida favorita dos norte-americanos.
A experiência com as tarifas alterou as estratégias das empresas americanas em relação à diversificação das origens? Brasil e EUA compartilham interesses na cadeia?
William Murray: A América precisa de café de todas as origens para atender à demanda e continuar fornecendo o café que os norte-americanos querem. Como maior produtor mundial de café, o Brasil tem um papel fundamental. Os países produtores e consumidores da bebida estão intrinsecamente ligados, e as tendências atuais exigem uma colaboração ainda mais profunda e duradoura em toda a cadeia de fornecimento. Não existe café sem agricultores e países produtores prósperos, assim como não existe mercado de café sem consumidores em todo o mundo. Todos dependemos uns dos outros, e os acontecimentos relacionados às tarifas no último ano ilustraram ainda mais essa interdependência.
A NCA vê espaço para ampliar as compras de café brasileiro pelos EUA? Qual é o papel do Brasil no fornecimento de solúvel?
William Murray: O café solúvel é um componente importante da economia americana do café e não está disponível a partir de fontes domésticas. A eficiência da produção de solúvel, inclusive no Brasil, permite que ele seja utilizado como um insumo econômico na fabricação de ready-to-drink e cold brew, além de fazer do instantâneo uma das formas de menor custo para os americanos consumirem a bebida. Esses produtos inovadores também são um ótimo exemplo de como a cadeia de fornecimento de café interconectada funciona melhor. Muitas vezes, é mais eficiente produzir café solúvel perto de onde os grãos de café verde são cultivados, inclusive no Brasil, e então o solúvel se torna um ingrediente fundamental na fabricação posterior nos Estados Unidos. É uma situação vantajosa para todos.
O avanço de bebidas ready-to-drink e do cold brew pode ampliar o mercado para o café solúvel nos EUA?
William Murray: Ready-to-drink e cold brew estão entre as bebidas que apresentam crescimento significativo no mercado de café dos EUA, à medida que os consumidores, especialmente os mais jovens, procuram novas opções que atendam a seus estilos de vida ocupados e gostos em evolução. O café solúvel custa aos norte-americanos cerca de US$ 0,06 a 0,07 por xícara, em comparação com aproximadamente US$ 0,30 ou mais por xícara para o café torrado e moído. Os consumidores de café instantâneo geralmente procuram especificamente opções econômicas e são altamente sensíveis aos preços. O café solúvel e as bebidas produzidas com café solúvel estão ganhando popularidade. Segundo os dados da NCA, 21% dos adultos norte-americanos consumiram cold brew na última semana, 19% dos consumidores de café do dia anterior consumiram café ready-to-drink e 11% dos adultos norte-americanos consomem café instantâneo.
Como a NCA avalia a oferta global de café nos próximos anos? Qual é hoje a principal preocupação em relação ao clima e à produção?
William Murray: Como todas as commodities, os preços do café dependem, em última instância, da oferta e da demanda. O relatório mais recente do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) sobre o mercado e o comércio mundial de café prevê que a oferta global está se recuperando após vários anos de redução dos excedentes. É claro que as tendências de oferta e demanda variam e são imprevisíveis.
Os preços internacionais continuam elevados. Quanto foi repassado ao consumidor norte-americano e quanto ainda é absorvido pela indústria?
William Murray: O preço do café pago pelos consumidores também depende de muitos outros fatores que variam ao longo do tempo, por exemplo, custos de transporte e tarifas, custos de ingredientes e embalagens, despesas gerais das empresas, como mão de obra, serviços públicos e aluguel, entre muitos outros. Embora seja impossível calcular o impacto exato de um único fator, como as tarifas, está claro que o comércio de café sem tarifas desempenha um papel fundamental na acessibilidade da bebida favorita dos norte-americanos.
O que sustenta a força do consumo de café nos Estados Unidos, mesmo diante das oscilações de oferta e preços?
William Murray: As tendências de oferta e demanda variam e são imprevisíveis, mas o café é a bebida favorita dos Estados Unidos há décadas, e não esperamos que essa popularidade profunda e duradoura mude. De acordo com o relatório National Coffee Data Trends (NCDT), da NCA, dois terços dos adultos americanos consomem café diariamente - mais do que qualquer outra bebida, incluindo água engarrafada. Há um café para cada orçamento, gosto e estilo de vida, além de muitas motivações para o interesse das pessoas pelo café, desde preferências por determinadas origens até sabores, torras, benefícios à saúde e outros fatores.
Fonte: Broadcast Agro.