24/Mar/2026
O vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, afirma que os benefícios para a importação de carros da China foram pactuados com o governo para viabilizar os investimentos da montadora chinesa de automóveis híbridos e elétricos na fábrica de Camaçari, na Bahia. Segundo o executivo, a empresa reiterou em encontro recente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a importância de o governo cumprir o que foi combinado. "Se o governo cumpre com aquilo que foi pactuado para ter um investimento, acreditamos piamente que vai cumprir", disse. Segue a entrevista:
A BYD tem buscado renovar cotas de importação ou outros benefícios com o setor público?
Alexandre Baldy: Não é 'buscar renovar'. Na verdade, é cumprir aquilo que foi o plano da empresa apresentado para o governo com toda a transparência. Só buscamos aquilo que foi apresentado e absorvido pelo setor público como possível. Não queremos nada além nem diferente, somente aquilo que foi entendido como viável para que pudéssemos implementar uma fábrica. Fábrica de carros, em qualquer parte do mundo, é extremamente complexa. Uma fábrica de carros de novas tecnologias é ainda mais. No processo de industrialização, existem transições. Então, é só cumprir com aquilo que foi desde sempre apresentado.
Mas o que o governo liberou foi uma cota de importação válida por seis meses, até janeiro...
Alexandre Baldy: Quando tratamos especificamente de importação do regime transitório de SKD (esquema de produção em que os carros chegam à fábrica parcialmente montados), pedimos 36 meses e pactuamos 12 meses. O governo liberou seis meses para entender se os nossos investimentos estavam sendo realizados. Nós estivemos com o presidente da República na semana passada reiterando a importância de tudo que foi pactuado.
Então, essa demanda já foi levada ao governo?
Alexandre Baldy: Ela é reiteradamente colocada porque é algo que foi pactuado. Não é uma novidade. É um tema que foi pactuado. Para um investidor estrangeiro investir no Brasil quase R$ 6 bilhões, existe a necessidade de você ter políticas públicas transparentes e sólidas.
E qual é a perspectiva de o governo atender?
Alexandre Baldy: Se o governo cumpre com aquilo que foi pactuado para ter um investimento, acreditamos piamente que vai cumprir.
Além de incentivos para a fábrica e introdução da tecnologia, o que mais a BYD tem discutido com o setor público?
Alexandre Baldy: A complexidade do investimento exige que existam políticas públicas. É a primeira fábrica de carros de novas energias, de novas tecnologias no Brasil. Não é a mesma coisa que produzir um carro comum. Existem inúmeras localizações (de componentes) que serão necessárias. O Brasil não fabrica bateria, por exemplo. Então, nós estamos falando de uma transição que não é somente para a BYD, é para todos.
A BYD acaba de anunciar encomendas de 100 mil carros da Argentina e do México para a fábrica do Brasil...
Alexandre Baldy: Foi confirmado com a Stella (Stella Li, vice-presidente executiva global e CEO da BYD Américas e Europa) um pedido de 50 mil carros do México e 50 mil da Argentina. Para exportá-los, temos de atingir o mínimo de conteúdo local de 35%, exigido nas regras do Mercosul ou dos acordos bilaterais, como o com o México.
Como o sr. reage a manifestações de montadoras tradicionais contra incentivos à importação de carros híbridos e elétricos, sob o argumento de que pode fazer mais sentido trazer carros de fora do que ter uma fábrica aqui no Brasil?
Alexandre Baldy: Acredito que isso é mais para confundir a população. A Fiat hoje importa Leapmotor (uma marca chinesa), a General Motors hoje importa (da China) o Spark (utilitário-esportivo) e agora o Captiva. Qual a diferença de eu importar uma Hilux (picape da Toyota) da Argentina ou fabricar uma S10 (da GM) no Brasil? Estou estimulando emprego na Argentina? Então, esse discurso é extremamente oportunista.
O sr. disse que vai avançar para 50% de conteúdo local, é um compromisso...
Alexandre Baldy: Não é só um compromisso, é uma garantia de competitividade.
A BYD vai ser competitiva produzindo no Brasil, em vez de trazer carros da China?
Alexandre Baldy: Mas é lógico. Quando toma a decisão de fabricar no Brasil, ela tem de se tornar cada vez mais verticalizada para ser competitiva. Estamos falando do mercado latino-americano todo. Tenho de ser competitivo fabricando aqui e vendendo aqui.
Quanto já foi investido na fábrica de Camaçari?
Alexandre Baldy: A fábrica tem uma projeção de investimentos de R$ 5,5 bilhões, e hoje já deve ter materializado em torno de R$ 2,5 bilhões. Quem vai lá percebe a grandiosidade do projeto e o tamanho do investimento.
A BYD anunciou que vai contratar mais de 3 mil trabalhadores em Camaçari. Será aberto um novo turno de produção?
Alexandre Baldy: Exatamente. Estamos abrindo o segundo turno. Temos 3,2 mil funcionários hoje em um turno. E já estamos contratando 3 mil para o segundo turno, que deve começar no máximo em 60 dias na fábrica de Camaçari.
Fonte: Broadcast Agro.