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01/Jun/2026

Combustíveis: operação mira em fintechs e fundos

O Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, e a Receita Federal deflagraram a Operação Fluxo Oculto, segunda fase da Operação Carbono Oculto, com foco em fintechs suspeitas de atuar como estruturas financeiras paralelas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação no setor de combustíveis. As investigações apontam que seis fintechs teriam movimentado mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025, sendo utilizadas em esquemas de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, blindagem patrimonial e ocultação de recursos ilícitos. Parte dessas instituições teria mantido irregularidades mesmo após a primeira fase da operação, realizada em 2025. Entre os casos analisados, uma das fintechs teria operado cerca de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo entre 2022 e 2024, segundo dados da investigação, sendo considerada peça relevante na estrutura financeira do esquema.

A apuração indica que os recursos obtidos eram direcionados a fundos de investimento, que somaram cerca de R$ 205 milhões em ativos, além de duas administradoras e duas gestoras associadas ao núcleo financeiro investigado. Os fundos teriam registrado crescimento superior a 200% em pouco mais de um ano e eram utilizados para movimentações entre distribuidoras, postos de combustíveis, empresas e estruturas de investimento. A Receita Federal aponta que as instituições de pagamento não eram obrigadas, até 2025, a enviar a declaração e-Financeira, o que limitava o rastreamento das operações. Na operação atual, três das fintechs teriam informado cerca de R$ 8 bilhões em movimentações em 2025, enquanto outras três foram autuadas por ausência de declaração. A operação cumpriu 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados, incluindo São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Entre os alvos estão empresas dos grupos Ceopag, Sispay, Smart Solutions, Yaw e Ello Gestora de Recursos, com atuação em diferentes centros financeiros e comerciais do país. As investigações apontam que o esquema utilizava estruturas empresariais para compensações financeiras entre distribuidoras e postos de combustíveis, movimentações entre empresas e fundos de investimento e pagamentos de despesas pessoais de operadores do sistema. Também há indícios de uso de familiares, pessoas em situação de vulnerabilidade e indivíduos privados de liberdade na abertura de empresas destinadas à ocultação de beneficiários finais. A Receita Federal identificou ainda movimentações de ao menos R$ 365 milhões em criptoativos associadas a empresas investigadas em esquemas de lavagem de dinheiro ligados a organizações criminosas.

A Operação Fluxo Oculto identificou a estrutura operacional financeira utilizada por organizações criminosas associadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC), baseada no uso de fintechs e instituições de pagamento em um modelo descrito por investigadores como “morfologia das fintechs”, inserido no chamado “andar de cima” da organização. O esquema utilizava insumos do setor de combustíveis, como nafta para adulteração, e operava por meio de um sistema de “contas bolsões”, considerado pelos investigadores um ponto cego no sistema de prevenção à lavagem de dinheiro. Essa estrutura dificulta a identificação dos titulares das contas, bem como a origem e o destino dos recursos, reduzindo a capacidade de individualização do capital financeiro no sistema bancário tradicional. Segundo a investigação, o modelo envolve a abertura serial de empresas de fachada e o uso de instituições de pagamento (IPs), que viabilizam movimentações financeiras sem status de banco.

Nesse arranjo, fintechs mantêm relação com instituições financeiras tradicionais para abertura de contas bancárias em nome das próprias empresas, permitindo a circulação de recursos de múltiplos clientes dentro de uma mesma estrutura operacional. Os investigadores apontam que o uso de depósitos em dinheiro vivo, considerado incomum para instituições de pagamento, e a utilização de múltiplas fintechs em cadeia geram uma dupla camada de ocultação financeira. Esse mecanismo dificulta o rastreamento das transações e a identificação dos beneficiários finais, já que o sistema financeiro tradicional enxerga apenas a instituição de pagamento como titular das movimentações. A “conta bolsão” é caracterizada como conta bancária de titularidade de uma empresa utilizada para processar pagamentos de diversos clientes sem segregação formal dos recursos. Já a “conta gráfica” corresponde ao registro interno das transações, incluindo origem, destino, remetente e beneficiário, mantido exclusivamente pela instituição de pagamento.

Esse modelo faz com que o vínculo direto entre valores movimentados e seus titulares finais não apareça de forma transparente no sistema financeiro. A estrutura consolida valores de múltiplos usuários em uma única conta, deixando a identificação efetiva dependente de registros internos das fintechs. Esse arranjo reduz a rastreabilidade das operações, dificulta bloqueios judiciais e compromete o rastreamento patrimonial, ampliando riscos associados à lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e blindagem de ativos. No campo regulatório, até 2025 as instituições de pagamento não eram obrigadas a enviar a declaração e-Financeira à Receita Federal, o que limitava o acesso de órgãos de controle às movimentações realizadas nesse segmento. Após mudanças impulsionadas por operações contra o crime organizado, mais de 450 instituições passaram a reportar dados, ampliando a base de informações disponíveis para fiscalização e investigação financeira. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.