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08/Jun/2026

Cana enfrenta risco estrutural por corte na adubação

A deterioração da rentabilidade da produção de cana-de-açúcar no Brasil começa a gerar impactos que podem se estender por vários ciclos agrícolas. O avanço dos custos de produção, combinado com preços menos atrativos para açúcar e etanol, tem levado produtores a reduzir investimentos em fertilização, renovação de canaviais e tratos culturais, criando um risco estrutural para a oferta de matéria-prima nas safras 2027/28 e 2028/29. O movimento representa uma mudança importante na dinâmica da cadeia sucroenergética. Diferentemente de eventos climáticos pontuais, os efeitos da redução dos investimentos agronômicos tendem a se manifestar de forma gradual e prolongada. A diminuição da adubação compromete o desenvolvimento vegetativo das plantas, reduz o perfilhamento, limita o potencial produtivo das soqueiras e pode resultar em perdas tanto de produtividade agrícola quanto de qualidade industrial da matéria-prima, afetando indicadores como toneladas de cana-de-açúcar por hectare (TCH) e açúcar total recuperável (ATR). O cenário é consequência direta do estreitamento das margens dos produtores independentes.

Segundo estimativas da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), a rentabilidade do fornecedor de cana já vinha pressionada antes da recente escalada dos custos de produção. Após a alta dos fertilizantes, combustíveis e fretes, as perdas operacionais aumentaram significativamente, reduzindo a capacidade de investimento nas lavouras. Em alguns casos, a redução da aplicação de fertilizantes alcançou até 60%, evidenciando o grau de restrição financeira enfrentado pelos produtores. A situação é agravada pela relação de troca desfavorável entre cana e insumos. Os fertilizantes nitrogenados e fosfatados, amplamente utilizados na cultura, registraram forte valorização após os impactos geopolíticos sobre o mercado internacional. A ureia, por exemplo, chegou a subir de US$ 480,00 para US$ 850,00 por tonelada antes de recuar parcialmente. Ainda assim, os custos permanecem elevados diante de uma expectativa de receita considerada insuficiente para justificar novos investimentos. Além da adubação, a renovação dos canaviais também vem sendo afetada. Em condições normais, entre 20% e 25% das áreas deveriam passar por replantio anualmente para manter níveis adequados de produtividade.

No entanto, o elevado custo da renovação, estimado entre R$ 17 mil e R$ 18 mil por hectare, somado ao alto custo do capital e à remuneração mais atrativa de aplicações financeiras, tem levado muitos produtores a postergar esse processo. A consequência é a formação de um passivo produtivo que poderá se refletir nos próximos anos. Mesmo que os preços do açúcar ou do etanol apresentem recuperação futura, os efeitos da menor adubação e da renovação insuficiente não são revertidos de forma imediata. O canavial responde com defasagem aos investimentos agronômicos, o que significa que decisões tomadas hoje influenciarão diretamente o potencial produtivo das próximas safras. Do ponto de vista do mercado, a redução da oferta futura de cana pode alterar as perspectivas atualmente mais baixistas para açúcar e etanol. Caso a deterioração dos canaviais se confirme em escala relevante, a menor disponibilidade de matéria-prima poderá limitar a produção do Centro-Sul e contribuir para um reequilíbrio entre oferta e demanda nos ciclos seguintes.

Esse movimento tende a ser acompanhado com atenção por usinas, tradings, distribuidores de combustíveis e investidores do setor sucroenergético. Embora as usinas geralmente apresentem maior capacidade financeira e acesso ao crédito, a situação dos fornecedores independentes merece atenção especial. Eles respondem por cerca de 40% da oferta de cana no Centro-Sul e exercem papel relevante na sustentação do abastecimento da indústria. Uma deterioração prolongada da rentabilidade desse segmento pode gerar impactos que vão além da porteira, afetando a disponibilidade de matéria-prima, a eficiência industrial e a competitividade do setor nos próximos anos. O principal desafio para a cadeia sucroenergética será evitar que uma crise de margens se transforme em uma crise de produtividade. A evolução dos preços do açúcar, do etanol, dos fertilizantes e do crédito rural ao longo dos próximos meses será determinante para definir se o atual ajuste de custos permanecerá como uma medida temporária ou se resultará em uma redução estrutural da capacidade produtiva dos canaviais brasileiros. Fonte: The AgriBiz. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.