30/Jul/2026
Após um ciclo de forte valorização impulsionado pelos preços elevados do açúcar entre 2022 e 2024, o mercado brasileiro de fusões e aquisições no setor sucroenergético passou a adotar uma postura mais seletiva na precificação dos ativos. Embora as transações continuem ocorrendo, o valuation das usinas vem sendo ajustado para refletir um ambiente de margens mais estreitas, maior custo de capital e perspectivas menos favoráveis para os preços internacionais do açúcar. Levantamento baseado nas operações realizadas entre 2022 e 2026 indica que o valor de mercado das usinas atualmente oscila entre R$ 220,00 e R$ 330,00 por tonelada de capacidade anual de moagem. A amplitude dessa faixa demonstra que a precificação deixou de seguir parâmetros homogêneos e passou a depender cada vez mais da qualidade operacional, da estrutura financeira e da capacidade de geração de caixa de cada ativo.
O mercado avalia que o cenário atual representa uma normalização após um período excepcionalmente favorável ao setor. Durante o pico do ciclo de alta do açúcar, diversas usinas negociaram com múltiplos elevados, sustentados pela forte rentabilidade operacional, elevada geração de caixa e perspectivas positivas para a demanda global por açúcar e etanol. Com a reversão parcial desse ambiente, investidores passaram a exigir retornos mais elevados e maior disciplina financeira nas aquisições. Nesse contexto, características operacionais ganharam maior peso na formação dos preços. Ativos com elevada produtividade agrícola, maior concentração de cana própria ou contratos estáveis de fornecimento, logística eficiente, capacidade de flexibilidade entre produção de açúcar e etanol, geração de bioeletricidade e menores níveis de endividamento continuam negociando próximos ao teto da faixa de valuation.
Por outro lado, usinas com baixa eficiência operacional, necessidade elevada de investimentos ou estrutura financeira fragilizada tendem a sofrer descontos mais expressivos. Outro fator que influencia a precificação é o custo do capital. A manutenção de taxas de juros elevadas aumenta a taxa de desconto utilizada pelos investidores nos modelos de fluxo de caixa descontado, reduzindo o valor presente dos ativos e tornando as aquisições mais criteriosas. Esse ambiente também limita a disposição para operações altamente alavancadas, favorecendo grupos com maior liquidez financeira. Apesar da redução dos múltiplos, especialistas avaliam que o setor continua atraente no horizonte de médio e longo prazos. A perspectiva de expansão da demanda por combustíveis renováveis, a consolidação do mercado de CBios, o avanço do etanol de segunda geração (E2G), a cogeração de energia e o potencial de captura de carbono ampliam as fontes de receita das usinas e reduzem a dependência exclusiva do ciclo do açúcar. Esses fatores sustentam o interesse estratégico de investidores industriais e financeiros pelo segmento.
Além disso, o movimento recente de queda nas cotações internacionais do açúcar não elimina a expectativa de um mercado global relativamente ajustado nos próximos ciclos. Projeções de consultorias continuam apontando déficits mundiais de açúcar em 2026/27, embora inferiores aos observados durante o auge do ciclo de preços elevados, enquanto riscos climáticos associados ao El Niño permanecem no radar dos agentes do mercado. Na avaliação do mercado, o atual momento representa uma transição entre um ambiente de valorização generalizada e uma fase em que a criação de valor dependerá cada vez mais da eficiência operacional, da disciplina financeira e da capacidade de adaptação das empresas às novas fontes de receita do setor sucroenergético. Em vez de múltiplos elevados para todo o segmento, a tendência é de maior diferenciação entre ativos premium e usinas com menor competitividade operacional. Fonte: The AgriBiz. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.