28/Oct/2026
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve fortalecer o papel da Petrobras como instrumento de desenvolvimento do País, com maior protagonismo na transição energética, sem abrir mão da exploração e produção de petróleo e gás natural nos próximos quatro anos. A avaliação é de José Sergio Gabrielli, presidente que permaneceu por mais tempo à frente da estatal, entre 2005 e 2012. Em entrevista, Gabrielli, que coordenou a elaboração do programa econômico da quarta campanha de Lula, fala que o fortalecimento da Petrobras também deve impulsionar os investimentos no País e viabilizar políticas tributárias para reduzir os impactos de crises internacionais sobre os preços domésticos dos combustíveis. Um exemplo, segundo ele, é o imposto de exportação adotado diante da alta do petróleo em meio à guerra dos Estados Unidos contra o Irã. Gabrielli afirma que a taxação deve ser mantida enquanto os preços internacionais do petróleo permanecerem em patamares elevados. "Mas se for para US$ 60,00/US$ 70,00 por barril, é outro cenário", disse o economista. Segue a entrevista:
Quais são os planos do governo reeleito para o setor de energia e qual a diferença em relação ao programa do partido adversário nessa eleição?
José Sergio Gabrielli: Se você pegar o programa dele (Flávio Bolsonaro), não tinha nenhuma proposta para a Petrobras, por exemplo. E um programa de energia que não considerava a Petrobras, é um programa completamente fora de sentido. O nosso programa, ao contrário, fortalece a Petrobras, aumenta o papel da Petrobras na transição energética, e viabiliza um processo tanto de investimentos, quanto de políticas tributárias, que minimizem o impacto sobre o preço doméstico das situações internacionais, como aplicado agora pelo governo.
O senhor se refere ao imposto de exportação?
José Sergio Gabrielli: Sim, você tem os 12% de imposto sobre exportações, que retira parte da margem da renda do petróleo para o Estado, e pega esse recurso e banca a redução da velocidade do preço doméstico. Uma guerra louca feita por Trump (Donald, presidente dos EUA) contra o Irã, no Estreito de Ormuz, fez com que o mundo inteiro entrasse em crise. E isso praticamente passa despercebido no Brasil. Vários países sofrendo e o Brasil passando ao lado.
Então o imposto de exportação veio para ficar?
José Sergio Gabrielli: Não. É claro que enquanto o petróleo estiver a US$ 115,00 por barril nós vamos manter essa política. Quando for para US$ 60,00/US$ 70,00 por barril, é outra coisa.
E quais são os planos para a Petrobras? Muda alguma coisa?
José Sergio Gabrielli: A Petrobras tem que aumentar o seu papel na transição energética. Isso significa que a Petrobras não necessariamente vai produzir energia eólica e solar, mas avançar em processos que permitam o avanço da descarbonização da indústria brasileira.
E como a estatal pode liderar a transição energética?
José Sergio Gabrielli: Isso significa que nós vamos avançar na produção de SAF (combustível de aviação sustentável), nós vamos avançar na produção de HVO (hidrogênio verde), nós vamos avançar na produção de biocombustíveis e vamos avançar nos derivados de hidrogênio mais tarde.
E o etanol? A empresa anunciou que iria entrar na produção, mas ainda não fez movimentos nesse sentido.
José Sergio Gabrielli: Quando eu falo biocombustíveis, eu incluo biodiesel e etanol. Claro que o etanol tem um papel importante, inclusive para a produção de SAF. A Petrobras, portanto, vai escolher projetos, evidentemente, que têm que ser rentáveis para ela, mas que avance a presença dela nesses setores. Para diversificar a atividade econômica e preparar ela para o futuro, para uma economia mais verde no futuro.
Quais outros pontos da política energética devem ter mais atenção nos próximos anos?
José Sergio Gabrielli: Vamos ter que dar uma olhada na estrutura da energia elétrica. A energia elétrica brasileira está vivendo um processo de muito aumento da capacidade geradora de energia eólica e solar, e esse aumento da capacidade, que ocorreu principalmente no Nordeste, não encontra demanda suficiente para manter essa energia intermitente funcionando.
E como resolver esse descasamento de oferta/demanda?
José Sergio Gabrielli: Nós temos que estimular a introdução de indústrias eletrointensivas que utilizam essa energia no Nordeste, o que significa estimular data centers, estimular hidrogênio, complexo de hidrogênio, que usa o hidrogênio, que são eletrointensivos, estimular a substituição na siderurgia do gás natural por hidrogênio e o avanço de produção de aço verde, produção de cimento verde, para aumentar a descarbonização da indústria, mesmo que nós consideremos que o problema de mudança climática no Brasil não vem da indústria, nem vem da energia.
Na sua avaliação, de onde vem os problemas das mudanças climáticas no País?
José Sergio Gabrielli: Os problemas fundamentais da mudança climática no Brasil vêm do desmatamento, que a gente já está controlando há quatro anos, vem reduzindo o desmatamento há quatro anos, e batemos, agora em 2026, o recorde de redução de desmatamento. E aí volta-se para o outro lado da questão, que é o lado da agroenergia. A agroenergia é a salvação do agronegócio.
E como o governo pretende estimular a agroenergia?
José Sergio Gabrielli: Você tem a política de aumentar o legado de biodiesel, de aumentar o legado de etanol na gasolina, de viabilizar a expansão do SAF. O que significa que você está preparando alternativas para o uso de produtos agrícolas que adicionem valor na economia brasileira.
Então, quais seriam os principais pontos da política energética do governo Lula 4?
José Sergio Gabrielli: Temos uma série de iniciativas legislativas que precisam agora ser coordenadas de tal maneira, que haja o mínimo de contradição entre essas diversas políticas energéticas. Então, nós vamos precisar ter uma maior gestão sobre os detalhamentos dessas políticas agora em 2027.
Isso significa fortalecer o Ministério de Minas e Energia?
José Sergio Gabrielli: Isso significa o fortalecimento do Ministério de Minas e Energia e a criação de mecanismos de fortalecimento do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
Como o senhor vê então o setor de energia nesses próximos quatro anos do governo Lula?
José Sergio Gabrielli: Intensificação da descarbonização; aumento do papel da importância da Petrobras como uma empresa âncora da transição energética brasileira; consolidação do desenvolvimento da Margem Equatorial e novas atividades exploratórias para manter a Petrobras na área petrolífera por mais tempo, ao mesmo tempo em que cresce na área de renováveis, e minimizar o impacto disso sobre os consumidores brasileiros.
Fonte: Broadcast Agro.