10/Feb/2026
As exportações brasileiras de carne bovina mantiveram trajetória de crescimento consistente e alcançaram 3,50 milhões de toneladas em 2025, volume 20,9% superior ao registrado em 2024. O faturamento somou US$ 18,03 bilhões, avanço de 40,1% na comparação anual, consolidando o Brasil como o maior fornecedor de proteína animal ao mercado chinês. A China respondeu por 48,0% do volume total exportado, com compras de 1,68 milhão de toneladas, movimentando US$ 8,90 bilhões no ano.
Esse desempenho ocorreu em paralelo a um avanço estrutural da pecuária brasileira. O aumento da produtividade por animal, a intensificação sustentável dos sistemas produtivos e a melhoria da eficiência zootécnica permitiram expandir a produção de carne sem crescimento proporcional da área ocupada. A combinação entre tecnologia, manejo e práticas ambientais consolidou um modelo capaz de produzir mais em menos espaço, preservando extensas áreas de vegetação nativa dentro das propriedades rurais. O Brasil mantém uma das maiores áreas de preservação ambiental do mundo no interior das fazendas, com reservas legais e áreas de proteção permanente superiores às exigidas na maioria dos países produtores.
A China, principal destino da carne bovina brasileira, opera suas importações de forma planejada e estratégica. O país não atua de maneira oportunista no mercado internacional de alimentos. As decisões de compra estão diretamente ligadas a objetivos de segurança alimentar, estabilidade de abastecimento e previsibilidade de preços. Em 2025, a dependência estrutural da China em relação à soja e à carne bovina importadas tornou-se ainda mais evidente, reforçando a centralidade do Brasil como fornecedor confiável em volume, regularidade e qualidade.
Do ponto de vista macroeconômico, a China permanece como um dos principais motores do comércio global. O crescimento econômico foi estimado em 4,9% em 2025 e projetado em 4,4% para 2026, refletindo desafios estruturais, como o envelhecimento populacional e a desaceleração do setor imobiliário, mas também a adoção de políticas fiscais de suporte à atividade. O comércio exterior chinês registrou superávit recorde de US$ 1,08 trilhão nos primeiros onze meses de 2025, impulsionado por exportações de US$ 3,4 trilhões e importações de US$ 2,3 trilhões, reforçando sua capacidade financeira e influência global.
No comércio agroalimentar, a China está vinculada às regras multilaterais da Organização Mundial do Comércio (OMC) e aos acordos sanitários e fitossanitários internacionais. As exigências aplicadas à carne bovina importada devem estar baseadas em critérios técnicos e científicos, com previsibilidade regulatória e comunicação prévia de mudanças em protocolos sanitários, habilitações de plantas e procedimentos de certificação. Esse ambiente regulado é fundamental para o planejamento da cadeia produtiva brasileira, reduzindo riscos logísticos, financeiros e comerciais.
Ao mesmo tempo, a China utiliza instrumentos legítimos de política comercial, como salvaguardas, controles administrativos e ajustes tarifários, para administrar volumes importados e proteger sua produção interna. A adoção de medidas de salvaguarda sobre a carne bovina importada, com vigência a partir de 2026, reforça a necessidade de diversificação de mercados por parte do Brasil, ao mesmo tempo em que mantém elevada a importância de canais complementares na Ásia.
Nesse contexto, Hong Kong exerce papel estratégico. Tratado como mercado distinto da China continental, apresenta regras de importação mais flexíveis, processos aduaneiros mais ágeis e maior diversidade de cortes e produtos de maior valor agregado. Além de destino final, Hong Kong funciona como hub logístico e comercial, influenciando formação de preços, tendências de consumo e redistribuição regional. Para o Brasil, esse canal reduz riscos regulatórios e amplia a presença no ecossistema asiático de carne bovina.
A relação Brasil–China extrapola o comércio de alimentos. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009 e uma das principais fontes de investimento estrangeiro direto, com presença relevante em setores como energia, logística, transportes, telecomunicações e finanças. No agronegócio, a demanda chinesa por proteína animal está associada à urbanização, ao aumento da renda e à transformação dos hábitos alimentares. O consumo se torna mais segmentado, com maior demanda por conveniência, qualidade e cortes específicos, cenário no qual a carne bovina brasileira, majoritariamente produzida a pasto, apresenta elevada compatibilidade culinária e competitiva.
No médio e longo prazo, a tendência é de aprofundamento da cooperação entre a indústria brasileira de carne bovina e o mercado chinês. As importações devem permanecer em patamares elevados, funcionando como elemento de estabilização para o setor global. A adaptação da oferta brasileira às especificidades do consumo chinês, o desenvolvimento de produtos segmentados e a ampliação de canais de distribuição tendem a elevar o valor agregado das exportações e reduzir a exposição a ciclos de volatilidade.
Em um ambiente internacional marcado por disputas comerciais, protecionismo e incertezas geopolíticas, a China consolida-se como eixo central do comércio global de alimentos. Para o Brasil, compreender a lógica estratégica chinesa, cumprir rigorosamente os requisitos sanitários e regulatórios e manter planejamento de longo prazo são fatores decisivos para sustentar competitividade, previsibilidade e crescimento no mercado internacional de carne bovina.
Fonte: Secex, Abiec e OMC. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.