24/Feb/2026
Com a iminente quebra de patentes de princípios ativos como a semaglutida no Brasil prevista para o mês de março, o acesso a esses medicamentos deve se democratizar, ampliando um público que já movimentou cerca de R$ 10 bilhões no varejo farmacêutico em 2025. Se 2025 foi o ano em que o Brasil sentiu o primeiro grande choque do "efeito caneta" no varejo alimentar, 2026 promete ser o ano da resposta estratégica da indústria. Dados mostram que usuários das canetas reduziram o consumo calórico total em cerca de 20% a 25%, gerando uma queda visível no volume de vendas de alimentos por impulso. Por outro lado, houve a explosão dos lácteos proteicos (antes destinados a atletas, amadores ou não), que registraram crescimentos expressivos (algumas linhas chegando a +40%). O consumidor buscou iogurtes não apenas como sobremesa; agora vistos como suplemento para cumprir a meta de proteína e evitar a flacidez/sarcopenia (típica de quem emagrece rapidamente).
Relatórios da Scanntech do início de 2025 já mostravam que, enquanto categorias básicas estagnaram, produtos com o atributo "proteína" (como iogurtes e shakes) cresceram acima de 20% em volume, e itens com whey protein explodiram mais de 100%. Isso corrobora a projeção feita pelo Itaú BBA de que a 'economia do Ozempic' drenaria recursos de categorias supérfluas para itens de nutrição funcional. Com a iminente quebra de patentes de princípios ativos como a semaglutida no Brasil prevista para este mês de março, o acesso a esses medicamentos deve se democratizar, ampliando um público que já movimentou cerca de R$ 10 bilhões no varejo farmacêutico em 2025 (um salto de quase 90% nas importações em relação a 2024, segundo dados de consultorias financeiras como Itaú BBA). Pesquisas de varejo do final de 2025 (como dados da Abras e estudos de comportamento do consumidor) revelaram um fenômeno curioso.
Enquanto o volume total de compras de supermercado de lares com usuários de GLP-1 (agonistas utilizados nas canetas) caiu, o ticket médio em categorias específicas subiu. O consumidor "ozempicado" tornou-se um caçador de nutrição (tradução livre de nutritional sniper, termo recorrente em estudos e artigos dos Estados Unidos). Com o apetite suprimido, ele não tem espaço gástrico para calorias vazias. O dado que assusta: categorias de "impulso" e alto teor de açúcar (sorvetes tradicionais, doces de padaria) viram quedas de volume superiores a 10% em cestas desses consumidores. O dado que anima: houve uma migração clara para a densidade nutricional. É aqui que os lácteos ganham do frango e do ovo: na praticidade e densidade. Enquanto o consumo de ovos viu uma retração surpreendente em alguns nichos (pela dificuldade de ingestão em volumes maiores quando se está sem fome), iogurtes proteicos e bebidas lácteas fortificadas cresceram por serem de fácil digestão. Esqueça o marketing agressivo de "25g de proteína" estampado em letras garrafais pretas. A tendência para 2026 é a sofisticação da proteína.
Para o usuário de canetas, a perda rápida de peso vem acompanhada de um risco crítico: a perda de massa magra (o famoso "rosto de Ozempic" é, na verdade, perda muscular generalizada). Oportunidade: lácteos não são apenas "ricos em proteína"; eles são ricos em leucina e proteínas de rápida absorção (Whey), cruciais para frear o catabolismo muscular. Inovação: pense em iogurtes e leites (inclusive os fermentados) que informem explicitamente os benefícios para a perda de massa magra e o cálcio durante o emagrecimento. A comunicação também evolui, passando de puramente fitness para bem-estar nutricional, focando não apenas nos músculos, mas também em recuperação de colágeno, saúde intestinal e saúde mental (estudos já alertam para a “Ozempic Personality”. Relatos incluem irritabilidade, apatia emocional, desinteresse por hobbies e aumento da ansiedade, embora não seja um efeito colateral oficial). O Brasil de 2026 está mais velho. A expectativa de vida aumentou, e com ela, a prevalência da sarcopenia (perda de força muscular em pessoas idosas) e osteoporose. Curiosamente, a necessidade do consumidor maduro converge com a do usuário de canetas emagrecedoras: ambos precisam de alta proteína em pequeno volume.
A longevidade não se refere apenas aos sêniores. Várias pesquisas recentes mostram que as gerações Z e Y (ou Millennials) têm muito mais clara a necessidade de se alimentar bem e se exercitar para envelhecer bem. A saúde longeva (e integrada, ou seja, física, emocional e mental) agora é estilo de vida. Resistência anabólica: consumidores idosos precisam de doses maiores de proteína por refeição (cerca de 30 g) para ativar a síntese muscular, algo difícil de conseguir apenas com carne no jantar. Assim como os que praticam atividade física frequente (de qualquer geração). Oportunidade para queijos e manteigas: enriquecimento. Queijos curados já são naturalmente densos, mas há espaço para queijos frescos e cottage fortificados com cálcio + vitamina D + magnésio (o trio da saúde óssea), focados no público 60+. Em sabores, assim como em iogurtes, que desafiam a ‘ditadura’ morango-chocolate-baunilha com novas opções de aromas (incluindo collabs como Dadinho, Toddy etc.), também nestas outras categorias podem trazer mais indulgência. Para planejar o portfólio deste ano deve-se considerar quatro pilares:
- Textura: para quem usa canetas, a textura sólida pode ser repulsiva (náusea é um efeito colateral comum). Além disso, com a falta de ‘guloseimas’ no cardápio, usuários das canetas emagrecedoras buscarão indulgência de várias outras formas. Iogurtes com tecnologia de microgel (mais fluidos, menos "pesados", mas ainda proteicos) e bebidas lácteas claras (clear whey) tendem a performar melhor que os iogurtes gregos muito espessos.
- Collab com a proteína: as collabs são febre no Brasil no que tange a marcas, mas por que não em ingredientes? Proteína sozinha é commodity e já teve sua explosão em 2025. A ‘mina de ouro’ está em proteína + fibra. A constipação é um dos maiores efeitos colaterais das canetas emagrecedoras. Um lácteo que ofereça 15g de proteína + fibras prebióticas resolve dois problemas do consumidor em um único produto. Vários são os artigos que mencionam que “fibras são a nova proteína”.
- Saciedade: produtos com caseína (de lenta absorção) posicionados como "ceia noturna" para evitar a fome rebote ou para nutrir o músculo durante o sono dos idosos. E, de novo, as marcas parecem ter uma miopia e só enxergar este tipo de apelo/benefício em iogurtes. Mas, há oportunidade em outras categorias lácteas também
- Tamanho das porções: a miniaturização premium. Embalagens menores (100ml/80g), mas com a mesma carga nutricional de uma porção grande. O consumidor paga mais por não ter que jogar comida fora. Paga mais para poder levar de lanche da tarde, agora que a maioria das empresas voltou com o trabalho presencial, ou para depois da academia/ treino no parque.
A indústria de laticínios tem a chance de deixar de ser vista como vilã das gorduras ou apenas café da manhã, para se tornar uma parceira essencial na jornada de saúde do brasileiro. Seja para quem quer emagrecer com a ajuda da medicina, seja para quem quer envelhecer com autonomia, o leite (sozinho ou como ingrediente) tem a molécula certa. A inovação em 2026 é sobre refinar a entrega: mais denso, mais funcional, com mais sabor e indulgência, e mais fácil de consumir. Fonte: MilkPoint. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.