24/Feb/2026
O cenário da oferta de leite na União Europeia passa por mudanças, impulsionado, entre outros fatores, pela estabilização da produção. Segundo o Rabobank, o fim do sistema de cotas, que por anos regulou a produção de leite no bloco, levou a um crescimento acelerado da oferta. Desde o fim do sistema de cotas, todos os freios foram removidos e a produção aumentou rapidamente, especialmente no noroeste da Europa. Onze anos após o encerramento das cotas, esse crescimento começa a se estabilizar. Para os próximos cinco a dez anos, a expectativa é de um leve declínio na oferta de leite no noroeste europeu. Esse movimento pode gerar desafios para a indústria. Após o fim das cotas em 2015, muitos processadores investiram fortemente na ampliação da capacidade, prevendo aumento contínuo da oferta, o que de fato ocorreu entre 2015 e 2020.
Com a estabilização atual e a perspectiva de queda gradual, parte dessa capacidade poderá ficar ociosa. Entre os fatores que sustentam a expectativa de declínio estrutural do volume de leite está o ambiente regulatório da União Europeia. Normas ambientais relacionadas a nitrogênio, fosfato e emissões de carbono tendem a limitar a expansão da produção. Regras mais rígidas sobre descarte e produção de esterco, além da necessidade de licenças, também elevam os custos e restringem o crescimento. Outro ponto relevante é o perfil demográfico do setor. Uma base de produtores envelhecida é outro fator importante. O despovoamento em algumas regiões europeias agrava o cenário. Na Europa Oriental, há falta de mão de obra e muita migração para as partes ocidentais da União Europeia. Por exemplo, a Bulgária perdeu 20% de sua população desde 2000, e isso afeta a disponibilidade de mão de obra e a viabilidade do setor leiteiro nessas regiões.
A maior contração da oferta deve ocorrer nos países com regulamentações mais rígidas, justamente aqueles que mais cresceram após o fim das cotas. Holanda, Bélgica, Alemanha e Dinamarca respondem juntas por cerca de 35% a 40% da produção total de leite da Europa. No caso da França, a expectativa também é de queda, atribuída principalmente ao envelhecimento dos produtores. A redução do volume de leite tende a impactar diretamente os processadores, que precisarão ajustar sua estratégia junto aos fornecedores. Duas medidas são centrais para manter a competitividade: fortalecer o relacionamento com os produtores, oferecendo preços competitivos, e gerir os ativos com eficiência diante da menor oferta, assegurando níveis adequados de utilização das plantas industriais. A taxa de utilização é fundamental para o custo de produção de queijo, por exemplo.
No mercado global, a projeção é de retração. A oferta mundial de leite pode cair 5% nos próximos dez anos. Pode não parecer muito, mas uma grande parte dos produtos lácteos europeus é exportada e, com a demanda estável e a oferta diminuindo, haverá menos excedente disponível para os mercados de exportação, portanto, com a queda de 5% na oferta de leite, isso significará que a União Europeia terá aproximadamente 40% menos equivalentes de leite disponíveis para exportação, uma lacuna da qual outras regiões podem se beneficiar. Trata-se de um cenário de longo prazo, sujeito a mudanças ao longo do tempo. Mas, a realidade é uma contração sustentada no declínio estrutural do volume de leite na Europa. Isso criará outras oportunidades para outros exportadores, um efeito de transbordamento potencial no mercado de commodities, porque é uma lacuna significativa que precisará ser preenchida. Fonte: Dairy Global. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.