13/Apr/2026
Desde o dia 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã, as rotas marítimas foram afetadas devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, corredor por onde passa um quinto do petróleo mundial. Esses desdobramentos têm impacto nos custos logísticos e rotas de exportação das empresas frigoríficas. Segundo o RB Investimentos, a região do Oriente Médio, onde ocorre a guerra, é uma das que mais enriqueceu ao longo das últimas décadas, se tornando interessante também para o crescimento das empresas frigoríficas brasileiras. Com a eclosão do conflito e o bloqueio do Estreito, a logística para a entrega das proteínas foi afetada, o que implica em um aumento de custo. Isso pode aparecer ao longo do semestre, ao longo do ano nos balanços das empresas.
Para Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mesmo que não haja fechamento completo de rotas estratégicas, o aumento do risco percebido eleva prêmios de seguro marítimo, encarece hedge logístico e reduz a previsibilidade das entregas, o que é sensível para produtos perecíveis, como a carne. Um atraso de 10 a 15 dias pode significar perda de valor comercial, necessidade de redirecionamento de carga ou renegociação de contratos com desconto”, analisa e acrescenta que em situações mais extremas, pode haver destruição parcial do valor do produto, especialmente em cargas de maior valor agregado. Com isso, empresas mais expostas ao Oriente Médio, especialmente no segmento Halal, de produtos preparados de acordo com as tradições islâmicas, tendem a sofrer mais.
Exportadoras de frango com forte presença na Arábia Saudita, Emirados Árabes e outros mercados da região são mais vulneráveis a esse tipo de disrupção, pois concentram volumes relevantes em rotas que passam por áreas de risco. Com essa dinâmica, países concorrentes como Estados Unidos e Austrália podem ganhar participação em determinados mercados, enquanto o Brasil pode redirecionar exportações para Ásia e China. Isso cria um efeito de “reprecificação geográfica” da proteína, no qual os preços relativos variam por região, gerando oportunidades de arbitragem para empresas com presença global. Assim, o conflito não apenas pressiona custos, mas também altera a geografia do comércio internacional de alimentos.
Deve haver pressão nos custos dessas empresas diante de fertilizantes mais caros, o que impacta no preço das rações usadas na cadeia de produção. Essa cadeira depende de insumos como milho e soja, em que os preços são sensíveis ao custo energético e logístico. Em um cenário em que o milho sobe, por exemplo, 10% a 15%, é comum observar compressões de margem de 3% a 5% em empresas de aves e suínos, onde a ração representa a maior parcela do custo total. Segundo a Soho Capital, esses desdobramentos afetam o crescimento das empresas. Exporta menos, tem receita menor ou perspectiva de redução na aceleração. Consequentemente, dilui menos custos fixos e piora a margem também pelos custos mais altos de operação.
As empresas MBRF e JBS são as mais impactadas nesse sentido, embora JBS tenha maior presença geográfica, o que reduz o baque. A Minerva sente bem menos ou quase nada, tendo alguma implicação relacionada ao custo mais alto, mas que não impacta o volume efetivo. A XP também indica que o resultado não deve ser igual para todas as empresas. Companhias com maior exposição ao Oriente Médio ou dependência maior de rotas afetadas podem sentir mais pressão de custos, sobretudo em frete e seguro, caso de MBRF, uma companhia com presença relevante no mercado Halal e no Oriente Médio. No caso de Minerva, o ponto parece ser mais o risco de uma pressão logística prolongada do que qualquer conclusão fechada sobre resultado. Isso porque, se fretes e seguros continuarem altos por mais tempo, embarques para mercados mais distantes podem ficar menos rentáveis.
Isso não significa necessariamente uma deterioração imediata, mas sugere um ambiente operacional mais desafiador enquanto a região não recuperar um padrão mais normal de circulação marítima. No comportamento das ações das empresas, há três fases: inicialmente há uma reação negativa, impulsionada pela incerteza, pela alta do petróleo e pelo aumento imediato dos custos logísticos, levando investidores a reduzirem exposição ao setor de forma generalizada. Após isso, há uma fase de estabilização, na qual o mercado percebe que a demanda permanece sólida e que as empresas começam a ajustar preços, rotas e estratégias comerciais. Por fim, há uma redistribuição de valor dentro do setor, com investidores migrando para empresas mais resilientes e "penalizando" aquelas mais expostas a gargalos específicos.
Esse movimento cria oportunidades táticas de investimento, especialmente para quem consegue antecipar quais empresas têm maior capacidade de absorver ou repassar os choques. Se o acordo de cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã durante duas semanas for bem-sucedido, o efeito de curto prazo viria da queda do preço do petróleo, que reduziria os custos de transporte e produção, melhorando as expectativas de margem e levando a uma reprecificação positiva das ações. Contudo, a normalização não ocorre instantaneamente. A redução das tensões, as cadeias de transporte levam meses para se reorganizar, uma vez que navios estão fora de posição, contratos já foram ajustados e há acúmulo de cargas. Assim, o frete tende a cair de forma gradual, e os ganhos de margem também devem ocorrer de forma progressiva.
Além disso, o cessar-fogo reduz o prêmio de risco embutido nos ativos, o que impacta diretamente os múltiplos de valuation. Isso significa que o mercado pode passar a aceitar múltiplos mais elevados para o setor, não necessariamente porque os lucros atuais aumentaram significativamente, mas porque a incerteza diminuiu. Por isso, o acordo de cessar-fogo ajuda, mas não resolve tudo. Isso porque o setor pode continuar convivendo por algum tempo com custos mais altos e rotas menos eficientes, e as empresas mais diversificadas ou mais preparadas operacionalmente tendem a lidar melhor do que aquelas mais dependentes de mercados ou corredores específicos. É uma leitura de sensibilidade e não uma conclusão definitiva, mas parece uma forma equilibrada de enxergar o cenário hoje. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.