15/Jun/2026
O setor lácteo da China atravessa em 2026 um processo de ajuste estrutural marcado pelo aumento da autossuficiência, pela busca de maior eficiência produtiva e pela mudança no perfil de consumo. Segundo relatório semestral do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a China opera atualmente em um cenário de ampla oferta doméstica de leite cru, pressão sobre a rentabilidade dos produtores e redução da dependência de importações de commodities lácteas. A produção chinesa de leite fluido deverá permanecer estável em 40,90 milhões de toneladas em 2026. A estabilidade, porém, reflete uma transformação relevante na estrutura produtiva. A redução do rebanho leiteiro, impulsionada pela saída de pequenas propriedades e pelo descarte de animais menos produtivos, vem sendo compensada pelos ganhos de produtividade das grandes fazendas comerciais localizadas principalmente nas províncias de Inner Mongolia, Hebei e Xinjiang.
Nessas regiões, os rendimentos médios variam entre 12,8 e 12,9 toneladas por vaca ao ano, enquanto operações mais tecnificadas já superam 15 toneladas por animal. Apesar dos avanços produtivos, a rentabilidade permanece como principal desafio. Nos primeiros quatro meses de 2026, os preços pagos ao produtor ficaram próximos de RMB 3,00/Kg, equivalentes a aproximadamente US$ 0,44/Kg. Em regiões de elevada produção, como Inner Mongolia e Shanxi, os valores recuaram para menos de RMB 2,60/Kg, cerca de US$ 0,38/Kg, abaixo do custo médio de produção estimado em RMB 3,20/kg, ou aproximadamente US$ 0,47/Kg. Diante desse cenário, o foco dos produtores migrou da expansão da atividade para a redução de custos e o aumento da eficiência operacional. No aspecto sanitário, focos de febre aftosa registrados em Xinjiang e Gansu no final de março foram controlados por meio de medidas de contenção e restrições de movimentação animal, sem impactos significativos sobre a produção nacional.
A indústria chinesa também passa por mudanças importantes na destinação do leite cru. Tradicionalmente utilizado para produção de leite em pó integral como mecanismo de absorção dos excedentes, o leite passou a ser direcionado com maior intensidade para produtos de maior valor agregado, como manteiga, queijo e creme. Nesse contexto, a produção de leite em pó integral deverá recuar para 1,11 milhão de toneladas em 2026, refletindo a demanda mais fraca dos segmentos industrial e varejista, além do elevado nível de estoques. Por outro lado, a produção de leite em pó desnatado deverá alcançar 75 mil toneladas, impulsionada pelo crescimento da fabricação de manteiga, da qual é um subproduto. Os segmentos de queijo e manteiga apresentam as perspectivas mais favoráveis. A produção chinesa de queijo deverá atingir 36 mil toneladas em 2026, sustentada pelo aumento do consumo no canal de food service, especialmente em redes de fast-food, pizzarias, hamburguerias e padarias.
A produção de manteiga deverá alcançar 44 mil toneladas, impulsionada pela demanda da indústria de panificação, que vem ampliando o uso de gordura láctea em formulações premium. O aumento da oferta doméstica e a maior competitividade do leite produzido internamente têm provocado mudanças significativas no comércio internacional. As importações de leite fluido, compostas principalmente por leite UHT, seguem em trajetória de queda desde 2022. Após atingirem 636 mil toneladas em 2025, o menor volume desde 2017, deverão somar aproximadamente 640 mil toneladas em 2026. O avanço das cadeias de refrigeração fortaleceu a preferência dos consumidores pelo leite fresco produzido localmente. Nova Zelândia, Alemanha e Austrália permanecem como os principais fornecedores externos. As importações de leite em pó integral também deverão recuar diante da substituição por produtos domésticos mais competitivos.
No caso do leite em pó desnatado, as compras externas são projetadas em 195 mil toneladas em 2026, abaixo das 210 mil toneladas registradas em 2025, refletindo o crescimento da produção interna. Em sentido contrário, as importações de queijo deverão avançar para 235 mil toneladas. A demanda concentra-se em variedades específicas utilizadas pela indústria de alimentos e pelo food service, segmentos que ainda dependem de características técnicas e padrões de qualidade não amplamente disponíveis na produção doméstica. As importações de manteiga deverão permanecer estáveis em 162 mil toneladas. Embora a produção local atenda parte da demanda, os segmentos de panificação premium e hotelaria continuam demandando produtos importados de maior qualidade. O mercado de soro de leite segue sustentado pela expansão da suinocultura chinesa.
O aumento do abate e da produção de carne suína em 2026 mantém elevada a demanda pelo ingrediente utilizado na alimentação de leitões, preservando o fluxo de importações. No ambiente comercial, a China retirou, em novembro de 2025, tarifas adicionais de 10% a 15% que incidiam sobre 740 produtos agrícolas dos Estados Unidos, incluindo diversos lácteos. Apesar disso, exportadores norte-americanos continuam enfrentando limitações competitivas em razão da manutenção de tarifas recíprocas de 10% e da cautela dos importadores chineses diante da volatilidade das políticas comerciais recentes. Como resultado, a participação dos Estados Unidos no mercado lácteo chinês deverá permanecer restrita, especialmente em segmentos de maior valor agregado.
O fornecimento externo continua concentrado em parceiros tradicionais, com destaque para Nova Zelândia e União Europeia. O cenário de 2026 consolida uma nova etapa para o mercado lácteo chinês. O crescimento baseado em volume cede espaço para estratégias focadas em eficiência produtiva, agregação de valor e autossuficiência. Para os exportadores globais, a China deixa de atuar como grande absorvedora de excedentes de commodities lácteas e passa a concentrar oportunidades em segmentos especializados, como queijos funcionais, manteigas premium e ingredientes destinados à nutrição animal. Fonte: MilkPoint. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.