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22/Jun/2026

Leite: produção mundial dá sinais de desaceleração

Após um período de forte expansão, a produção global de leite começa a apresentar sinais de desaceleração, indicando um movimento de reequilíbrio entre oferta e demanda nos principais mercados exportadores. O crescimento da produção nas regiões que compõem o grupo Big-7 (Estados Unidos, União Europeia, Nova Zelândia, Austrália, Brasil, Argentina e Uruguai) atingiu seu pico no final de 2025, após quatro trimestres consecutivos de expansão superior a 2%. A produção anual do grupo avançou 5,2% no quarto trimestre de 2025, um dos maiores crescimentos já registrados. Entretanto, a trajetória passou a perder força a partir do segundo trimestre, com expectativa de desaceleração gradual ao longo de 2026. Embora a oferta mundial de leite permaneça ligeiramente acima dos níveis observados no ano anterior durante a primeira parte do ano, projeções indicam possível retração da produção no quarto trimestre, o que representaria o primeiro resultado negativo desde o segundo trimestre de 2024.

As estimativas apontam crescimento global da produção de leite de 1% em 2026, após avanço de 3,1% em 2025. Para 2027, as projeções preliminares indicam recuo de 0,2%, configurando a primeira contração anual desde 2022. Os Estados Unidos seguem como principal vetor de crescimento da oferta mundial. Em abril, a produção de leite norte-americana aumentou 2,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, mantendo uma sequência de expansão superior a um ano. As projeções indicam crescimento adicional de 2% em 2026 frente a 2025, sustentado pela ampliação do rebanho e pelo aumento da produtividade. O rebanho leiteiro dos Estados Unidos atingiu 9,645 milhões de cabeças em abril, o maior nível desde a década de 1990 e 190 mil animais acima do registrado um ano antes. O movimento reflete margens favoráveis, investimentos em processamento industrial e a rentabilidade dos cruzamentos entre bovinos leiteiros e de corte, que estimulam a permanência dos animais na atividade.

A produtividade também segue avançando. Em abril, a produção por vaca cresceu 0,7% na comparação anual, enquanto o teor médio de gordura alcançou 4,39% em março. As margens entre leite e ração permanecem favoráveis, com o indicador Dairy Margin Coverage atingindo US$ 9,57 por hundredweight em março, o maior valor desde o final de 2025. Na União Europeia e no Reino Unido, a produção permanece elevada, porém em trajetória de estabilização. A demanda continua sustentada por preços mais baixos do leite e pelo desempenho consistente de produtos como queijo e soro, que mantêm elevada utilização industrial. Apesar disso, custos de produção e pressão sobre as margens das propriedades limitam avanços mais expressivos da oferta. Na China, o mercado caminha para maior equilíbrio entre oferta e demanda. A produção permanece relativamente estável, enquanto o consumo apresenta recuperação gradual. Esse cenário pode resultar em aumento moderado das importações ao longo de 2026, proporcionando maior previsibilidade aos fluxos internacionais de lácteos.

Na América do Sul, o ambiente é mais desafiador. Os custos de produção seguem elevados em relação aos preços recebidos pelos produtores, reduzindo os estímulos à expansão da atividade. Além disso, o risco climático ganha relevância na segunda metade do ano, diante da possibilidade de um evento El Niño mais intenso, capaz de elevar a ocorrência de eventos extremos e inundações nas principais regiões produtoras do Sul do continente. A combinação de margens mais apertadas e maior volatilidade climática tende a restringir a oferta ao longo de 2026. Na Austrália, a nova temporada começa com estabilidade produtiva, mas enfrenta limitações para crescimento mais significativo. Margens reduzidas e incertezas climáticas seguem restringindo investimentos. Como a produção depende fortemente de sistemas baseados em pastagens, alterações nos regimes de chuva podem afetar diretamente o desempenho do setor.

A Nova Zelândia, após uma temporada excepcional entre 2025 e 2026, deve registrar desempenho mais moderado no ciclo 2026-2027. Embora a produção permaneça historicamente elevada, fatores econômicos menos favoráveis, margens mais estreitas e riscos climáticos tendem a limitar novos avanços. Nos Estados Unidos, a expansão da capacidade industrial continua estimulando a produção de derivados. Em março, a produção de queijo e manteiga aumentou 1,2% em relação ao ano anterior, impulsionada pela entrada de novas unidades de processamento e ampliação da capacidade instalada. Os produtos voltados ao segmento proteico mantêm crescimento expressivo. A produção de soro de leite em pó avançou 3,6%, enquanto a de isolado proteico de soro cresceu quase 12%, refletindo a demanda crescente por ingredientes proteicos. No primeiro trimestre de 2026, a demanda por lácteos nos Estados Unidos aumentou 4%, impulsionada por crescimento de 10,6% nas exportações. As perspectivas para o setor indicam que o principal foco do mercado global passa a ser a rentabilidade das propriedades rurais.

O aumento potencial dos custos de produção, especialmente com energia, fertilizantes e juros, pode pressionar as margens ao longo da segunda metade de 2026 e durante 2027. As tensões geopolíticas envolvendo o Oriente Médio e o Estreito de Ormuz também ampliam as incertezas sobre os custos futuros. Pelo lado da demanda, o consumo de proteínas continua oferecendo suporte ao mercado lácteo, especialmente para produtos derivados do soro de leite. Entretanto, a inflação dos alimentos pode alterar o comportamento dos consumidores e pressionar as margens do varejo. O clima surge como um dos principais fatores de risco para os próximos anos. A possibilidade de um El Niño mais intenso pode afetar a produção de leite em importantes regiões exportadoras da América do Sul, Austrália e Nova Zelândia, ampliando a volatilidade do mercado. O cenário aponta para o encerramento de um ciclo de crescimento impulsionado pela expansão da oferta e o início de uma fase mais equilibrada, em que a interação entre produção, demanda, custos e condições climáticas deverá determinar os rumos do mercado global de lácteos. Fonte: Dairy Herd Management. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.