09/Jul/2026
O interesse de investidores internacionais da indústria automotiva em mecanismos de comprovação da origem sustentável do couro brasileiro abriu uma nova frente de atuação para a certificação Beef on Track (BoT), desenvolvida pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Um grupo formado por sete dos maiores investidores ligados aos cinco principais fabricantes mundiais de bancos de couro para automóveis avalia a realização de um projeto-piloto utilizando a ferramenta para rastrear o couro empregado na fabricação de assentos de veículos. A iniciativa ganha relevância diante do fato de que aproximadamente 80% do couro produzido no Brasil é destinado ao mercado externo. A certificação foi apresentada durante a London Climate Action Week, realizada em 24 de junho, a convite da Rainforest Foundation Norway (RFN), organização que assessora investidores em estratégias de investimento ativo voltadas à redução de riscos socioambientais nas cadeias globais de suprimentos.
Nesse contexto, o Beef on Track foi apresentado como a única ferramenta atualmente disponível para certificação em larga escala, no Brasil, de carne bovina e couro produzidos sem desmatamento, trabalho análogo ao escravo, ocupação irregular de terras públicas e outras irregularidades socioambientais. O interesse dos investidores decorre da possibilidade de reduzir riscos reputacionais ao longo da cadeia de fornecimento da indústria automotiva, especialmente no segmento de bancos de couro, principal destino mundial dessa matéria-prima. Caso o projeto avance, a expectativa é que fabricantes de assentos automotivos e curtumes passem a exigir de seus fornecedores mecanismos de rastreabilidade e comprovação de conformidade socioambiental. O movimento ocorre pouco mais de um mês após a entrada da certificação Beef on Track no mercado chinês.
Em junho, a Tianjin Meat Association (TMA), entidade que reúne cerca de 100 importadores chineses de carne bovina, iniciou um projeto-piloto utilizando a certificação e reafirmou a intenção de adquirir 50 mil toneladas de carne certificada ao longo deste ano. Paralelamente, outro polo importador localizado na província de Henan negocia adesão ao sistema, com potencial de compras de até 150 mil toneladas de carne certificada. O avanço demonstra o crescimento do interesse por atributos socioambientais também entre compradores chineses, especialmente junto ao segmento de maior renda da população. Segundo o Imaflora, a adoção do Beef on Track pelo mercado financeiro não teria como objetivo financiar diretamente o desenvolvimento da certificação, mas criar incentivos econômicos para que toda a cadeia produtiva amplie os mecanismos de rastreabilidade.
Nesse modelo, investidores poderiam incorporar critérios socioambientais às suas decisões, estimulando fabricantes de componentes automotivos, curtumes e frigoríficos a exigir maior transparência de seus fornecedores. Entre os diferenciais da ferramenta está o baixo custo de implementação, uma vez que utiliza sistemas de monitoramento e protocolos já existentes no País, como o programa Boi na Linha, desenvolvido pelo Imaflora em parceria com a Amigos da Terra e empregado pelo Ministério Público Federal nas auditorias do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne na Amazônia. O processo de certificação pode ser realizado diretamente nos frigoríficos, verificando se os sistemas de compra impedem a aquisição de animais oriundos de áreas com desmatamento, trabalho análogo ao escravo ou outras irregularidades socioambientais, sem necessidade de criação de novas estruturas de controle.
O Imaflora reconhece que a rastreabilidade completa da pecuária brasileira ainda enfrenta desafios, principalmente em relação aos fornecedores indiretos. A proposta da certificação prevê uma implementação gradual, iniciando pelos fornecedores diretos, dos quais aproximadamente 60% já são monitorados pelos frigoríficos na Amazônia, e estabelecendo metas para ampliar progressivamente a cobertura dos fornecedores indiretos, associando a evolução da rastreabilidade a incentivos comerciais e remuneração diferenciada para produtores em conformidade. Ainda existe resistência de parte dos frigoríficos em ampliar o monitoramento dos fornecedores indiretos. Entretanto, a crescente exigência de investidores internacionais e compradores globais por maior transparência e redução dos riscos socioambientais poderá acelerar a adoção de sistemas de rastreabilidade em toda a cadeia pecuária brasileira, ampliando a competitividade da carne bovina e do couro nacionais nos mercados internacionais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.