29/Jul/2026
A suinocultura brasileira enfrenta um cenário de pressão sobre a rentabilidade em 2026, em razão do crescimento da produção em ritmo superior ao da capacidade de absorção pelo mercado interno e pelas exportações. O aumento da oferta de animais no primeiro semestre resultou em excesso de disponibilidade de carne suína, pressionando os preços do suíno vivo e reduzindo as margens dos produtores, especialmente dos sistemas independentes. Apesar da redução dos custos de produção em relação aos anos anteriores, a desvalorização dos animais foi suficiente para manter parte dos produtores operando abaixo do custo. Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), com base em informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), projeta produção brasileira de carne suína de 5,729 milhões de toneladas em 2026, crescimento de 1,28% em relação a 2025 e de 6,8% frente a 2024.
As exportações deverão alcançar 1,549 milhão de toneladas, avanço de 3,76%, enquanto a disponibilidade interna está estimada em 4,18 milhões de toneladas. Os dados do IBGE referentes ao primeiro trimestre mostram aceleração da oferta no início do ano. A produção aumentou 6,93% na comparação anual, o equivalente a 92,4 mil toneladas adicionais de carne suína. No mesmo período, as exportações cresceram 15,15%, absorvendo 44,1 mil toneladas desse incremento. Ainda assim, permaneceram 48,2 mil toneladas adicionais destinadas ao mercado doméstico, elevando em 4,63% a disponibilidade interna. Na avaliação da Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), o atual cenário decorre de um processo de expansão dos plantéis impulsionado pelo elevado nível de rentabilidade observado entre 2024 e 2025. O aumento do número de matrizes, os ganhos de produtividade e a elevação do peso de abate ampliaram a produção acima do inicialmente esperado.
A expectativa era de um aumento mais expressivo da oferta apenas em 2027, enquanto a intensidade da queda dos preços já em 2026 superou as projeções do setor. O avanço da produtividade também é evidenciado pelo aumento do peso médio das carcaças. Segundo o IBGE, esse indicador passou de 90,93 quilos em dezembro de 2025 para 93,54 quilos em março de 2026, refletindo maior permanência dos animais nas granjas e maior volume de carne produzido por animal abatido. A maior disponibilidade de oferta provocou forte retração das cotações. Conforme o Cepea, o preço médio do suíno vivo em São Paulo atingiu R$ 5,25 por quilo em junho, o menor valor real desde julho de 2006. A carcaça especial também registrou o menor patamar real desde 2018, resultado dos elevados estoques da indústria e da dificuldade de absorção do excedente pelo mercado interno. Embora o consumo doméstico continue em expansão, seu crescimento permanece insuficiente para acompanhar a velocidade da produção.
As estimativas do Cepea indicam aumento de 1,82% no consumo per capita de carne suína em 2026, alcançando 19,58 quilos por habitante. A evolução do consumo ocorre de forma gradual, sem mudanças abruptas nos hábitos alimentares capazes de absorver rapidamente o aumento da disponibilidade. No mercado internacional, o ambiente também permanece pressionado pelo aumento da oferta global. A recomposição do rebanho suíno da China após os surtos de peste suína africana elevou a produção local e reduziu a necessidade de importações pelo país, aumentando a disponibilidade mundial de carne suína e pressionando os preços internacionais. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que o preço médio da carne suína exportada pelo Brasil recuou 4,66% em junho, ampliando a dependência do crescimento do consumo doméstico e da abertura de novos mercados para sustentar o escoamento da produção.
Os efeitos desse cenário são mais intensos entre os produtores independentes, que permanecem totalmente expostos às oscilações do mercado doméstico, ao contrário dos sistemas integrados predominantes na Região Sul, nos quais parte da produção é destinada previamente às agroindústrias e às exportações. Segundo avaliação do Cepea, Estados como São Paulo e Minas Gerais concentram maior impacto sobre os produtores independentes em razão da maior exposição às variações de preços e da expansão da produtividade. A atual conjuntura difere da crise registrada entre 2022 e 2023. Naquele período, o setor enfrentou simultaneamente custos recordes de milho e farelo de soja e excesso de oferta. Em 2026, a principal dificuldade decorre do desequilíbrio entre produção e demanda, uma vez que os custos dos principais insumos recuaram significativamente. Levantamento da ABCS mostra que, em termos reais, o milho acumula queda de aproximadamente 40% desde 2021, enquanto o farelo de soja registra retração próxima de 39%.
No mesmo intervalo, entretanto, o preço do suíno recuou cerca de 36%, reduzindo o benefício proporcionado pela queda dos custos de alimentação. A recuperação do mercado tende a ocorrer de forma gradual em razão do próprio ciclo produtivo da atividade. Entre a inseminação das matrizes e o abate dos animais decorrem aproximadamente dez meses, limitando a velocidade dos ajustes na oferta quando as condições de mercado se alteram. Para o segundo semestre, a expectativa do setor é de melhora moderada, favorecida pelo aumento sazonal do consumo de carne suína e pela continuidade do crescimento das exportações. Ainda assim, a perspectiva é de absorção gradual do excedente de produção, sem expectativa de mudança estrutural do equilíbrio entre oferta e demanda no curto prazo. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.