29/Jul/2026
O Brasil pode fortalecer a competitividade internacional das exportações de soja e carne bovina ao adotar um protocolo nacional unificado de rastreabilidade socioambiental, capaz de harmonizar os critérios hoje utilizados por diferentes iniciativas de monitoramento e facilitar o atendimento às exigências de mercados como China e União Europeia. Essa é a principal conclusão de estudo do WRI Brasil (World Resources Institute), organização internacional de pesquisa dedicada ao desenvolvimento sustentável. O documento propõe a criação de um marco de referência baseado na legislação brasileira e alinhado aos principais padrões internacionais para cadeias livres de desmatamento e conversão. Segundo a entidade, o País já dispõe de ferramentas sofisticadas para monitorar as cadeias de soja e carne bovina, mas a fragmentação entre protocolos, certificações, plataformas públicas e acordos voluntários reduz a transparência e dificulta a comprovação da conformidade socioambiental perante importadores.
A rastreabilidade completa e confiável da produção agropecuária deixou de ser apenas uma exigência regulatória para se tornar um diferencial competitivo. Cadeias produtivas rastreáveis e transparentes fortalecem a confiança dos mercados, reduzem incertezas para exportadores e importadores, possibilitam o acesso a mercados mais exigentes e contribuem para a estabilidade das relações comerciais de longo prazo. O levantamento avaliou 21 iniciativas de monitoramento e rastreabilidade (10 voltadas à soja e 11 à pecuária), considerando critérios como rastreabilidade, desmatamento, embargos ambientais, sobreposição com áreas protegidas, conformidade ambiental e combate ao trabalho análogo à escravidão. A conclusão é que divergências em datas de corte para desmatamento, escopo de monitoramento, mecanismos de verificação e controle de fornecedores indiretos enfraquecem a credibilidade dos sistemas e dificultam sua compreensão por compradores e investidores internacionais.
Em vez de propor novas exigências ambientais, o WRI Brasil recomenda integrar os critérios já adotados por programas públicos e privados em um protocolo nacional unificado. Isso ampliaria a integração entre bases de dados entre bases de dados, simplificaria auditorias, ampliaria a transparência e fortaleceria a credibilidade das exportações brasileiras de soja e carne bovina. O modelo também facilitaria a avaliação de riscos socioambientais por importadores, especialmente diante da entrada em vigor de legislações mais rigorosas, como a Regulamentação Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR). Entre as recomendações para a pecuária, o estudo destaca a necessidade de acelerar o monitoramento de fornecedores indiretos, considerado uma das principais lacunas atuais, e ampliar o uso das Guias de Trânsito Animal (GTAs) enquanto avançam os programas de identificação individual dos rebanhos.
Para a soja, a proposta é ampliar a rastreabilidade até a fazenda de origem por meio da integração entre tradings, cooperativas e plataformas estaduais, além da adoção de mecanismos de bloqueio para fornecedores que descumpram critérios socioambientais. O estudo também identifica as iniciativas consideradas mais robustas entre as analisadas. Na pecuária, o Protocolo de Monitoramento de Fornecedores de Gado da Amazônia (PMFGA) foi destacado pela ampla cobertura territorial e pela verificação da Autorização de Supressão de Vegetação (ASV). Na soja, o Protocolo Verde de Grãos do Pará (PVG) recebeu avaliação semelhante por incorporar esse mesmo mecanismo. As plataformas públicas SeloVerde dos Estados do Pará, Minas Gerais e Maranhão também foram apontadas como referências por integrarem informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR), alertas de desmatamento, registros de infrações ambientais e, em alguns casos, dados fiscais, ampliando a capacidade de rastreabilidade das cadeias produtivas.
O WRI Brasil ressalta que a proposta não cria novas exigências ambientais nem substitui os protocolos atualmente em vigor. A ideia é estabelecer um referencial comum que harmonize critérios de legalidade e sustentabilidade, reduzindo a complexidade enfrentada por produtores, empresas e compradores internacionais. Para isso, o estudo reúne dez recomendações prioritárias, entre elas o monitoramento por propriedade rural, o uso de bases oficiais de desmatamento, a ampliação do rastreamento de fornecedores indiretos, mecanismos de auditoria e transparência e regras claras para bloqueio e reintegração de fornecedores. A aproximação entre Brasil e China pode desempenhar papel estratégico nesse processo. O Brasil é o maior exportador mundial de soja e carne bovina, enquanto a China é a principal compradora dessas commodities brasileiras. Em 2024, as duas cadeias responderam por cerca de 60% do valor das exportações agropecuárias do País. A cooperação bilateral deveria priorizar um protocolo comum de rastreabilidade e integração de dados, fortalecendo a confiança nos produtos brasileiros e ampliando sua competitividade nos mercados globais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.