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27/Aug/2026

Boi: margens nos EUA não indicam virada do ciclo

Segundo o BTG Pactual, a recente recuperação dos spreads da carne bovina nos Estados Unidos não deve ser interpretada como uma virada estrutural do ciclo pecuário. A melhora das margens dos frigoríficos reflete principalmente um movimento sazonal antes do feriado do Dia do Trabalho, realizado na primeira segunda-feira de setembro, em um mercado que ainda enfrenta restrição de oferta de gado. Os spreads entre os preços dos cortes bovinos e do gado, considerados pelo BTG Pactual o principal indicador antecedente das margens dos frigoríficos, recuperaram-se com força nas últimas semanas. O movimento, porém, coincide com um padrão sazonal recorrente. Em levantamento de 22 anos, os preços da carne bovina subiram em 17 dos 22 anos nos 30 dias anteriores ao Dia do Trabalho, com alta média de 3,9%. Após o feriado, os preços recuaram em 17 dos 22 anos seguintes, com queda média de 4,8%.

O pico costuma ocorrer cerca de duas semanas antes do feriado, em linha com a antecipação das compras pelos varejistas. A recuperação atual ocorre após uma temporada de churrascos excepcionalmente fraca e apresenta mais características de sazonalidade do que de mudança estrutural. O fechamento da unidade da Tyson em Joslin, com capacidade de aproximadamente 3 mil cabeças por dia, em 13 de agosto, também contribuiu para a alta dos preços, embora o movimento já tivesse começado antes do anúncio. Do lado da oferta, as condições das pastagens nos Estados Unidos pioraram significativamente em agosto. Atualmente, 48% das áreas de pastagens e pastos do país estão classificadas como ruins ou muito ruins, ante 31% um ano antes. A deterioração das pastagens pode favorecer temporariamente as margens dos frigoríficos ao estimular a venda antecipada dos animais, mas tende a dificultar a reconstrução do rebanho. Parte dos fatores de sustentação de curto prazo também deve perder força.

As compras associadas ao feriado tendem a arrefecer com o encerramento da janela sazonal. Além disso, a medida anunciada recentemente que permite a entrada, sem tarifa, de até 300 mil toneladas de carne bovina destinadas à produção de carne moída, caso seja integralmente implementada e utilizada, tende a elevar a oferta e pressionar os preços domésticos. A maior disponibilidade de gado mexicano também pode proporcionar algum alívio, embora de forma gradual. No quadro mais amplo, o ciclo do gado nos Estados Unidos continua desafiador. Os frigoríficos já reagiram à escassez de bovinos com reduções de capacidade. O fechamento das unidades da Tyson em Lexington e Joslin, da operação de abate da JBS em Souderton e a redução para um turno da planta da Tyson em Amarillo equivalem, em conjunto, a um aumento de cerca de 11% na taxa de utilização da capacidade.

Com a expectativa de reabertura do segundo turno de Amarillo, o ganho líquido deverá ficar próximo de 8%. A disponibilidade de gado, contudo, vem caindo quase na mesma velocidade. O menor volume de abate de bovinos terminados anula parte relevante do ganho proporcionado pelo fechamento das unidades. O BTG Pactual estima utilização da capacidade da indústria em 84,9% em 2026, pouco acima dos 83,4% projetados para 2025 e abaixo dos mais de 90% registrados em 2023 e 2024. Os frigoríficos estão, em grande parte, fechando plantas para acompanhar a redução do número de bovinos, e não criando uma escassez efetiva de capacidade industrial. Para 2027, a recuperação também não deverá ocorrer rapidamente. Embora o gado mexicano possa oferecer algum alívio, a reconstrução do rebanho norte-americano tende a reduzir a quantidade de fêmeas destinadas ao abate e, consequentemente, a disponibilidade de bovinos para os frigoríficos.

Esse processo pode retirar quase 4% da utilização das plantas no próximo ano. Mesmo com importações robustas do México, a utilização chegaria a apenas cerca de 86%. A retenção de fêmeas pode ter começado, mas permanece distante do nível registrado no início da reconstrução do rebanho no ciclo anterior. Com a recuperação dos spreads e o desempenho positivo das ações do setor de proteínas, o mercado pode estar precificando uma normalização mais rápida das margens. Entretanto, o ciclo pecuário pode evoluir de forma diferente do esperado. O período mais difícil para os frigoríficos costuma ocorrer próximo ao fim da fase de retenção de fêmeas, e não no início do processo. Nesse contexto, é possível a ocorrência de revisões para baixo nas estimativas de lucro antes de uma recuperação efetiva dos resultados. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.