08/Oct/2026
A demanda chinesa por pés e asas de frango e por miúdos suínos mantém espaço para fornecedores brasileiros, mesmo com o avanço da produção doméstica de carnes na China. A ampliação dos abates para atender à procura por partes específicas dos animais também aumenta a oferta de outros cortes, criando a necessidade de mercados para o conjunto da produção. Esse fator sustenta oportunidades para o Brasil mesmo em um cenário de maior autossuficiência chinesa em proteínas. A China se tornou exportadora líquida de carne de frango em 2024. O status de exportador líquido significa que as vendas externas superam as importações, mas não elimina a necessidade de compras externas de produtos específicos. A China, por exemplo, exporta peito de frango e importa asas e pés para complementar sua oferta, criando uma relação de complementaridade entre a produção doméstica e o comércio exterior. Nos suínos, a mesma lógica se aplica aos miúdos.
O atendimento da demanda por fígado, estômago e outros produtos apenas com produção doméstica exigiria ampliar também a oferta de carne, gerando excedentes de outras partes do animal. As compras chinesas de carne suína aumentaram de forma expressiva durante o período de impacto da peste suína africana e posteriormente recuaram com a recuperação da produção doméstica. As importações chinesas de carne suína caíram de 5,277 milhões de toneladas em 2020 para 1,188 milhão de toneladas em 2025, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Em 2025, a produção doméstica chinesa correspondeu a 98% do consumo, indicando elevado grau de autossuficiência no produto, mas sem eliminar oportunidades para itens específicos da cadeia de proteína animal. Nesse segmento, o Brasil ampliou seu acesso ao mercado chinês com a assinatura, em 26 de setembro, da revisão do acordo sanitário bilateral para produtos suínos.
O protocolo ampliou o acesso brasileiro a miúdos como fígado e estômago. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) estimou potencial de destinação de mais de 100 mil toneladas anuais de miúdos ao mercado chinês e incremento superior a US$ 100 milhões na receita do setor. A abertura de novos nichos, contudo, não significa que as compras chinesas do Brasil sejam estruturais ou indispensáveis. A China possui capacidade de ampliar sua produção doméstica e reduzir importações caso considere necessário, o que mantém a necessidade de o Brasil preservar competitividade, regularidade de oferta e capacidade de atender às especificações dos compradores. A principal oportunidade está na complementaridade entre a estrutura produtiva brasileira e as características da demanda chinesa. Produtos que possuem menor valor relativo no mercado brasileiro podem apresentar maior valor comercial na China, permitindo ampliar o aproveitamento econômico de cada animal abatido e elevar o valor agregado das exportações de proteínas.
Nesse contexto, vantagens brasileiras relacionadas à disponibilidade de água, solo e condições climáticas favoráveis à produção agropecuária reforçam a capacidade de expansão da oferta. O aproveitamento dessas oportunidades depende, porém, de planejamento de longo prazo, manutenção das condições sanitárias e comerciais e diversificação dos produtos exportados, evitando tratar a demanda chinesa como mercado garantido. A evolução do mercado chinês reforça, portanto, que a competitividade brasileira em carnes não depende apenas do volume exportado, mas também da capacidade de atender nichos específicos e aproveitar integralmente os diferentes produtos gerados pela cadeia de abate. Pés, asas e miúdos podem ampliar o valor obtido por animal e preservar espaço para o Brasil mesmo diante do avanço da produção chinesa de proteínas. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.