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30/Jul/2026

Cacau: mercado mantém prêmio por risco climático

O mercado internacional de cacau permanece em um ambiente de elevada volatilidade nas bolsas ICE US, em Nova York, e ICE Europe, em Londres, refletindo a incorporação de um prêmio de risco climático às cotações futuras. Apesar desse movimento, analistas avaliam que os preços ainda não refletem um cenário de quebra prolongada da produção na África Ocidental, principal região produtora mundial, composta por Costa do Marfim e Gana. Na Bolsa de Nova York, o contrato com vencimento em setembro abriu esta quarta-feira (29/07) cotado a US$ 5.360,00 por tonelada e alcançou máxima intradiária de US$ 5.561,00 por tonelada, antes de recuar para aproximadamente US$ 5.156,00 por tonelada, em meio a uma intensa realização de vendas. O movimento foi favorecido por uma melhora pontual das condições climáticas na Costa do Marfim, com maior incidência de dias ensolarados contribuindo para o desenvolvimento das amêndoas. Segundo avaliação da consultoria Cocoa Intel, o mercado absorveu um prêmio relacionado aos riscos climáticos, porém ainda não precificou um cenário efetivamente adverso de oferta. O equilíbrio global permanece mais restrito do que indicavam estimativas anteriores.

A Organização Internacional do Cacau (ICCO) revisou sua projeção de superávit mundial da safra 2024/25 de 75 mil toneladas para 48 mil toneladas, redução de 36%. Ao mesmo tempo, a relação entre estoques e moagem caiu de 29,2% para 28,5%. Embora o resultado represente melhora em relação ao déficit registrado na temporada 2023/24, os níveis continuam insuficientes para recompor os estoques globais de forma confortável. A Cocoa Intel ressalta que a desaceleração da demanda europeia não foi suficiente para neutralizar o fortalecimento do consumo em outras regiões. No segundo trimestre de 2026, o processamento de cacau na Europa recuou 4,6%, atingindo o menor nível em seis anos. Em contrapartida, a moagem aumentou 25% na Ásia, 7,7% na América do Norte e registrou expansão na Costa do Marfim, resultando em crescimento consolidado de aproximadamente 10% no volume processado nessas quatro regiões em comparação anual. Outro fator de atenção é o fortalecimento das expectativas para ocorrência do fenômeno El Niño no segundo semestre.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima probabilidade de 81% para um evento de El Niño muito forte entre outubro e dezembro. Um novo movimento consistente de valorização dependerá da confirmação de impactos físicos sobre a produção, como deterioração da formação dos frutos, redução do peso das amêndoas, maior incidência de podridão parda ou atrasos relevantes nas chegadas de cargas aos portos exportadores. Na tentativa de reduzir gargalos logísticos, Gana e Costa do Marfim decidiram antecipar para 1º de setembro o início oficial do ano comercial da safra 2026/27, um mês antes do calendário tradicional. Entretanto, a Cocoa Intel ressalta que a medida possui caráter administrativo e comercial, sem capacidade de antecipar o desenvolvimento biológico da cultura ou ampliar a disponibilidade física de cacau. A efetividade da decisão dependerá da entrega de volumes relevantes da nova safra já em setembro. Caso o desenvolvimento das lavouras apresente atraso, poderá haver descompasso entre o início das negociações e a disponibilidade efetiva das amêndoas.

Parte significativa da produção principal da Costa do Marfim para a safra 2026/27 já está comprometida em contratos de exportação antecipada. Até o início de junho, o país havia negociado entre 950 mil toneladas e 1 milhão de toneladas. Para evitar a comercialização acima da produção disponível, o Conselho do Café e Cacau (CCC) reduziu o ritmo de novas vendas e elevou os prêmios exigidos nos contratos. Embora os embarques acumulados aos portos marfinenses tenham alcançado 1,981 milhão de toneladas até 26 de julho, crescimento de 22,3% em relação à temporada anterior, levantamentos de campo indicam mortalidade superior a 20% de flores e frutos jovens entre maio e junho em decorrência do excesso de chuvas. Com isso, a produção principal de 2026/27 é projetada entre 1,35 milhão e 1,45 milhão de toneladas, abaixo dos cerca de 1,6 milhão de toneladas estimados para o ciclo atual. O cenário financeiro dos produtores também permanece como fator de preocupação para a oferta futura.

Levantamento realizado pela Cocoa Intel nas regiões de Nawa, Agnéby-Tiassa e Sud-Comoé, na Costa do Marfim, aponta que 73% dos produtores não adquiriram fertilizantes para as duas próximas safras, enquanto 25% compraram apenas parte do volume necessário e somente 2% adquiriram integralmente os insumos planejados. A limitação financeira, agravada pelo aumento dos custos de fertilizantes e demais insumos em decorrência das tensões geopolíticas, foi apontada como o principal obstáculo ao investimento nas lavouras. Em Gana, o preço oficial pago ao produtor foi reduzido de GH¢ 58.000 (US$ 3.866,67) para GH¢ 41.392 (US$ 2.759,47) por tonelada. Na Costa do Marfim, o preço oficial da safra intermediária foi fixado em CFA 1.200 (US$ 2,00) por quilo, abaixo dos CFA 2.800 (US$ 4,67) por quilo estabelecidos para a safra principal anterior. Segundo a Cocoa Intel, a rentabilidade efetiva do produtor depende da receita líquida obtida após o pagamento de mão de obra, fertilizantes, fungicidas, transporte e demais custos de produção, além da pontualidade dos pagamentos.

Em Gana, atrasos na remuneração têm reduzido a disponibilidade de capital para contratação de trabalhadores e aquisição de insumos, comprometendo o manejo das lavouras e aumentando a vulnerabilidade das plantações às doenças e aos eventos climáticos nas próximas temporadas. Os desafios também atingem outros países produtores da África. Na Nigéria, a produção de cacau na safra 2025/26 é estimada em 305 mil toneladas, queda de 11% em razão do excesso de chuvas e do envelhecimento das plantações. Em Camarões, as receitas com exportações de cacau recuaram 37,7% no primeiro trimestre de 2026. A retomada das compras industriais em maior escala dependerá da estabilização dos preços futuros. A estimativa é de que cotações sustentadas abaixo de US$ 5.000,00 por tonelada na Bolsa de Nova York ampliariam a capacidade das indústrias de aumentar sua cobertura futura. Uma faixa entre US$ 4.000,00 e US$ 4.500,00 por tonelada proporcionaria melhores condições para processadores e fabricantes de chocolate reconstruírem margens, absorverem custos e reduzirem a necessidade de novos reajustes de preços ao consumidor. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.