09/Oct/2026
O mercado global de cacau apresenta fundamentos opostos, com maior disponibilidade física no curto prazo e oferta mais confortável pressionando as cotações em relação aos picos registrados no ciclo 2023/24, enquanto o fortalecimento do El Niño aumenta os riscos de perdas produtivas na safra 2026/27. A StoneX projeta que o mercado encerrou a safra 2025/26 com expressivo superávit global, após registrar déficit de 494 mil toneladas em 2023/24 e equilíbrio em 2024/25. A queda das cotações entre o início de 2025 e os primeiros meses de 2026 refletiu o reequilíbrio dos fundamentos de curto prazo, com recuperação da produção em importantes polos, como Costa do Marfim, Gana, Equador, Indonésia e Brasil. A expansão da oferta foi favorecida pelos investimentos estimulados pelos preços elevados e pela maior regularidade climática em 2025, ao mesmo tempo em que houve recuo da demanda consumidora.
Para 2026/27, contudo, a StoneX estima superávit mundial de apenas 25 mil toneladas, margem estreita que pode ser eliminada e transformada em déficit caso as adversidades climáticas previstas se confirmem. O principal fator de risco para a próxima safra está concentrado nos efeitos potenciais do El Niño sobre as regiões produtoras nos próximos meses. O oeste africano, principal polo mundial de produção, já enfrenta dificuldades no início da safra principal 2026/27. Na Costa do Marfim e em Gana, o excesso de chuvas registrado em junho provocou abortamento de vagens, alagamentos e dificuldades de secagem das amêndoas, elevando o risco de perdas quantitativas e qualitativas. Na Costa do Marfim, a safra principal é estimada em 1,4 milhão de toneladas, abaixo da média histórica, enquanto o ritmo de entregas semanais nos portos começou mais lento do que o habitual. O cenário pode se tornar mais restritivo na safra intermediária, entre abril e setembro, com o avanço do vento seco Harmatã, cuja intensidade tende a aumentar em anos de El Niño e pode prejudicar a fixação dos frutos.
Além disso, os preços fixos pagos aos produtores na Costa do Marfim e em Gana permanecem estagnados em níveis desfavoráveis, reduzindo os incentivos para investimentos em manejo, adubação e irrigação. Entre os demais grandes produtores, os impactos do El Niño apresentam características distintas. No Equador, terceiro maior produtor mundial, os investimentos na renovação das lavouras indicam possibilidade de produção recorde, mas as precipitações acima da média em setembro elevaram os riscos de alagamentos e de perdas provocadas por doenças fúngicas. Na Indonésia, por outro lado, a forte redução das chuvas e a queda da umidade do solo desde junho sinalizam possível perda de rendimento, com potencial para exigir uma revisão negativa do balanço global de oferta. Na demanda industrial, os dados de moagem da América do Norte, Europa e Ásia apontam recuperação gradual, embora os volumes permaneçam abaixo das médias históricas.
As margens das processadoras continuam pressionadas pela substituição de manteiga de cacau por óleos vegetais, como o óleo de palmiste, adotada pela indústria de chocolates durante o período de forte valorização do cacau nos anos anteriores. A aproximação recente dos preços da manteiga de cacau em relação aos custos dos substitutos tende a favorecer uma retomada gradual do consumo de subprodutos, mas o movimento deve ocorrer de forma lenta até 2027. No Brasil, há uma desconexão entre as cotações futuras das bolsas internacionais e os preços praticados no mercado físico doméstico. Enquanto os contratos negociados em Nova York e Londres ensaiaram recuperação diante do aumento dos riscos climáticos para a oferta global, o mercado brasileiro registra o menor diferencial de preços da série histórica. O cenário é explicado pelo abastecimento confortável das indústrias moageiras, sustentado por safras volumosas no Pará e na Bahia, em um ambiente de demanda enfraquecida por parte de grandes indústrias de alimentos, como Nestlé, Mondelez e Hershey's.
A assimetria entre a oferta de amêndoas e a capacidade de processamento local resultou em recomposição dos estoques das moageiras e manteve os preços domésticos com desconto em relação às referências internacionais. Na Bahia, as chuvas permanecem alinhadas à média histórica, sem alertas imediatos para a produção, enquanto o Pará registrou anomalias negativas pontuais de precipitação em agosto e setembro, período sazonalmente mais seco. Apesar da oferta doméstica confortável no curto prazo, a produção brasileira deverá permanecer sob monitoramento diante da possibilidade de intensificação do El Niño até o início de 2027. A combinação entre superávit global estreito, riscos climáticos nos principais polos produtores e recuperação ainda gradual da moagem mantém o balanço mundial de cacau mais vulnerável a eventuais perdas de produtividade na safra 2026/27. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.