30/Jan/2026
A agência de classificação de risco Fitch Ratings manteve nesta quinta-feira (29/01) em CCCsf (bra) as notas de crédito de cinco séries de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) lastreados em operações da Belagrícola. A decisão, chamada tecnicamente de "afirmação de rating", significa que a agência não vê motivos para alterar a avaliação feita em outubro, quando rebaixou os papéis após a distribuidora de insumos obter na Justiça uma suspensão temporária de pagamentos a credores. Os CRAs afetados pertencem a duas emissões da Vert Securitizadora feitas em janeiro de 2024 e totalizam atualmente cerca de R$ 155 milhões em saldo devedor. Esse tipo de título funciona como um empréstimo lastreado em recebíveis do agronegócio, no caso, vendas de insumos a prazo feitas pela Belagrícola a produtores rurais.
Os investidores que compraram esses papéis esperam receber o dinheiro de volta com juros até novembro de 2026. A Fitch informou que os ratings (notas que medem o risco de calote) continuam refletindo "a expectativa de pagamento integral de principal e juros até o vencimento final das operações". Apesar do cenário de dificuldades da Belagrícola, a agência considerou que as estruturas dos CRAs têm proteções suficientes para honrar os compromissos. Segundo o relatório, os ativos que garantem os CRAs estão isolados em estruturas separadas da Belagrícola, o que deve proteger os recursos caso a empresa entre em recuperação judicial. Além disso, os papéis contam com "reforços de crédito", uma espécie de colchão de segurança que funciona como reserva para absorver perdas. Esse reforço mínimo é de 42% do valor para as séries mais seguras (chamadas de sênior), 30% para as intermediárias (mezanino A) e 20% para as mais arriscadas (mezanino B).
A agência destacou, porém, que o desempenho dos CRAs depende fortemente de um mecanismo voluntário usado pela Belagrícola: a empresa utiliza recursos de operações de barter, troca de insumos por grãos, e de compra de grãos dos produtores para liquidar os recebíveis que lastreiam os títulos. "Embora esse arranjo tenha beneficiado os CRAs ao priorizar os pagamentos, ele evidencia que o desempenho das transações depende de forma significativa desse mecanismo", afirmou a Fitch. Em outubro do ano passado, os investidores dos CRAs aprovaram uma mudança importante: em vez de receber todo o dinheiro de volta apenas no vencimento final, passaram a receber amortizações e juros de forma contínua conforme a Belagrícola vai quitando os recebíveis que garantem os papéis. Esse sistema, chamado de "cash sweep sequencial", funciona como um gotejamento: o dinheiro que entra vai sendo distribuído na medida em que chega.
Os números mostram que o sistema está funcionando. Em 31 de dezembro, o saldo total dos CRAs havia caído para R$ 154,9 milhões nas duas emissões, contra os R$ 500 milhões originais. A primeira série de papéis mais seguros da segunda emissão já foi integralmente paga em 16 de janeiro. Os CRAs estão divididos em quatro níveis de risco em cada emissão. Os mais seguros (sênior) recebem primeiro e têm menor rentabilidade - CDI mais 2,55% ao ano. Os intermediários (mezanino A e B) ganham mais - CDI mais 4,50% e 5,50%, respectivamente - mas só recebem depois dos seniores. Por último vêm os juniores, que a Belagrícola comprou integralmente e que não são avaliados pela Fitch. Esses títulos circulam em fundos de investimento negociados na bolsa. O JGP Crédito Agro (JGPX11) tem cerca de 6% do patrimônio aplicado nesses papéis, o Valora Agro (VGIA11) tem 8,8%, e o Capitânia (CPTR11), 2%.
Em outubro, quando a Belagrícola obteve a tutela cautelar, as cotas do JGPX11 chegaram a cair 8,44% em um único dia. A Belagrícola protocolou em dezembro pedido de recuperação extrajudicial na 11ª Vara Cível e Empresarial de Londrina para renegociar R$ 2,2 bilhões em dívidas quirografárias, aquelas que não têm garantia real, como imóveis ou máquinas. O passivo total da empresa é estimado em R$ 3,8 bilhões. A Justiça do Paraná concedeu suspensão de execuções por 120 dias. O plano já tem apoio de credores que detêm R$ 788,5 milhões, equivalentes a 35,84% do total. Controlada pela chinesa Pengdu desde 2017, a Belagrícola atende cerca de 10 mil produtores no Paraná, São Paulo e Santa Catarina, com 52 lojas de insumos e 58 silos totalizando 1,5 milhão de toneladas de capacidade. A empresa registrou em 2024 receita de R$ 4,7 bilhões, queda de 39% sobre o ano anterior, e prejuízo superior a R$ 400 milhões. Fonte: Broadcast Agro.